MANUAL DO PERFEITO REVOLUCIONÁRIO, por André Brun

(1881 – 1926)
(1881 – 1926)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(continuação)

II

 

― Ai, Baeta! Que bem que te exprimes! E quando pensas ter o livro concluído?

― Se o estado de sítio durar mais oito dias, eu em oito noites devo dar a obra por concluída. Estou senhor do assunto e, afinal, isto de escrever não custa nada.

― A quem o dizes, meu velho!

― Basta-me acabar de desenvolver em vários capítulos uma série de aforismos que tenho aqui apontados. Queres ouvir?

― Com muito gosto. Deixa-me primeiro limpar as orelhas com um palito para não perder pitada do que me vais dizer.

E Baeta, enquanto eu procedia ao meu preparo auricular, punha em ordem os seus papéis. Depois, vendo-me a postos, tossiu, enxotou o gato e em voz pausada e grave leu-me o seguinte:

Os revolucionários, quer civis ou militares, dividem-se em duas espécies: os que dizem que vão e não aparecem e os que são trouxas e vão mesmo. Os primeiros fundam-se no grande princípio de que, se o movimento falhar, ficam prontos para preparar com sossego o seguinte sem os inconvenientes da cadeia, da amnistia ou, em casos felizmente raros, de algum tiro desgarrado.

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Numa revolução abortada o mais difícil é definir o momento em que se deve cavar. Há camarada, teimoso ou estúpido, que fica até ao fim. O menos que lhe pode acontecer é ser considerado pelos correligionários como um insigne ficante.

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Todo o chefe de família, convidado para tomar parte numa revolução, deve perguntar, antes de mais nada, ao comité, a como tenciona pôr as batatas e o arroz carolino quinze dias depois do triunfo. Se o comité não se comprometer por escritura pública em notário a baixar sensivelmente o preço desses artigos de primeira necessidade, o melhor que o chefe de família tem a fazer é ficar em casa a jogar a bisca com a família.

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O citado chefe de família deve pensar a miúde naquela história da velha que rezava pela saúde do tirano de Siracusa, com medo que viesse um outro muito pior.

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Há revolucionários que, se lhes violassem a tia, encolhiam os ombros, e que jogam a vida porque ouviram dizer que o governo queria violar a Constituição.

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Quando um patriota é convidado a ir à Rotunda, deve indagar primeiro quem é que está no Castelo, na Penha de França e na Serra de Monsanto. Se não forem os nossos, arrisca-se a fazer uma figura de boneco de pim pam pum.

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Nenhum revolucionário, ao passar pelo chafariz do Rato, deve dizer: ― Desta água não beberei…

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Todo o revolucionário, que anda aos tiros aos seus amigos e conhecidos, deve lembrar-se que pode aparecer de repente um polícia que o multe por falta de licença de porte de arma.

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A única classe que verdadeiramente aproveita com as revoluções, é a das lavadeiras. Além das lavadeiras, simpatizam com os barulhos as mulheres casadas. Com a inevitável suspensão das garantias têm elas garantidos os suspensórios dos maridos logo depois das nove da noite.

 

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Há muito mais revoluções no inverno do que no verão. É porque os que dão dinheiro para elas querem tomar as suas águas e os seus banhos descansados.

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Nas revoluções a prudência do conselho e os bons empregos são como a sorte grande na lotaria: saem sempre aos outros.

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Nas revoluções há sempre gente de boa fé. Quase sempre, no outro dia, ou está ma Morgue ou desiludido.

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Certo revolucionário, que andara três dias aos tiros a meio mundo, ao chegar a casa e querendo a família fazer uma canja para festejar a vitória, teve que chamar um galego para degolar a galinha. O que, por um lado é triste e por outro nos vale, é que são quase todos assim…

 

 

In Procópio Baeta – Ditos e Feitos de um Burguês Lusitano do Primeiro Trinténio do Século XX. Primeira edição, 1927, Livraria Editora Guimarães & C.ª.

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