1921 – Salazar deputado por um dia
Para Oliveira Salazar tinha chegado a altura de decidir se ia ou não ser deputado no Parlamento republicano: «Essa eleição provoca-me um desgosto enorme, profundo, íntimo, com a agravante de que ninguém acredita nele, porque todos hão-de supor que eu não seria eleito se não o quisesse ser.» Dizia ele em desabafo, que Franco Nogueira regista no seu livro biográfico: «É uma revolução na minha vida, nos meus hábitos, e a mim que não tenho pode dizer-se um momento de verdadeira alegria, tira-me o relativo sossego do meu viver apagado e a distracção dos meus livros. Começo a sentir que não hei-de ser nada – nem professor, nem deputado, nem provedor da Misericórdia – nada, a não ser uma pessoa cuja vontade se violentou de uma maneira inimiga para afinal a inutilizar e a fazer ainda mais infeliz.» Depois analisa-se a si mesmo: «Maldita mania que nós temos em Portugal de querer que todos sejam para tudo! Olhe que eu com o meu feitio, metido entre políticos, na intriga política, na maledicência política, a ser falado, a ser insultado, a ser agredido nos jornais pelo que disse, pelo que não disse! Eu tenho trabalhado um pouco pela causa católica, e parece-me que tinha direito a não me imporem um sacrifício dessa ordem. Faz-me isto uma tristeza tão grande, magoa-me cá dentro tanto que o melhor que tenho a fazer nesta solidão é nem mesmo protestar, aliás inutilmente, contra a minha má, contra a minha triste sorte, mas esquecer, esquecer… Ai! mas custa-me muito esta violência da minha mais íntima vontade.» *
*Franco Nogueira, ob. cit., p. 230.
Salazar aceita a candidatura depois de ter como garantida a maior possibilidade da eleição. Seria proposto pelo o círculo de Guimarães onde a situação política se apresentava favorável a uma eleição conservadora e onde, segundo constava, D. Manuel, do seu exílio de Londres, teria instruído os monárquicos vimaranenses para votarem em Salazar.
Estava no poder o gabinete Barros Queirós, e as eleições foram marcadas para 10 de Julho de 1921.
Nessa data, cerca de 350 000 votantes, de um total de 550 000 eleitores, elegem 156 deputados e de 68 senadores.
Os Liberais elegem 76 deputados e 32 senadores. Os Democráticos 54 deputados e 22 senadores. Os Reconstituintes: 12 deputados e 7 senadores. Os Independentes: 5 deputados e 5 senadores. Os Monárquicos: 4 deputados. Os Católicos: 3 deputados e 3 senadores. Os Dissidentes democráticos: 3 deputados. Os Regionalistas: 2 deputados. Os Populares: 1 deputado e 1 senador. Diversos: 3 deputados e 1 senador.
Vivia-se uma situação política como nunca tinha acontecido desde que Portugal estava sob regime republicano.
Era a primeira vez que o poderoso Partido Democrático de Afonso Costa, ou o que dele restava por via das mais diversas cisões, e até pelo próprio afastamento do seu líder carismático, estava arredado do poder, não tendo conseguido ganhar as últimas eleições que deram a vitória ao Partido Liberal liderado por Granjo.
A República tinha acabado de comemorar onze anos e ia já no seu trigésimo quarto governo. António Granjo chefiava pela segunda vez um elenco ministerial, sendo António José de Almeida o sexto ocupante da cadeira de Belém.
Tal como se esperava Oliveira Salazar foi eleito deputado por Guimarães.
No dia 25 de Julho de 1921, era a primeira reunião do novo parlamento. Oliveira Salazar deslocou-se a Lisboa para o efeito. Hospedou-se no Hotel Borges. E participou na sessão. Não interveio. Ao despedir-se de José Maria Braga da Cruz, também deputado católico, disse-lhe: «Ature-os por cá, que eu vou para férias. Em Outubro talvez fale.» Depois descreveu a estadia em Lisboa à sua amiga Glória Castanheira: «Fui efectivamente a Lisboa. Demorei-me dois dias, gastei 90$00 que era quanto tinha e com a consciência tranquila de que tinha cumprido todo o meu dever, regressei a Coimbra.». *
*Franco Nogueira, ob. cit., p. 231.
Em 1972 o professor A. H. de Oliveira Marques escrevia o seguinte: «As eleições legislativas [1921] deram maioria aos Liberais, embora os Democráticos tivessem vencido em Lisboa, como sempre. A Barros Queirós sucedeu outro Governo liberal chefiado por António Granjo, um dos estadistas mais honestos e prestigiados do seu tempo. Contudo, as paixões estavam demasiado efervescentes para que um Ministério de conservadores moderados detivesse o poder por muito tempo. A tendência nacional e europeia apontava para as esquerdas, para regimes radicais e extremistas. Uma revolta radical deitou abaixo o Governo em 1921. Na noite que se seguiu, vários conhecidos políticos foram assassinados, incluindo o próprio Granjo e Machado Santos, o herói do 5 de Outubro. Parece que os crimes não tinham relação directa com a revolta, e que resultaram antes de um momento oportuno de desordem e anarquia, motivados por uma combinação de elementos onde predominavam questões pessoais mas onde se atestou também a influência das Direitas, nos bastidores (monárquicos, a Igreja e a própria Espanha, todos interessados em criar desordem).» *
* A. H. de Oliveira Marques, Guia de História da 1ª República Portuguesa, Lisboa, 1981, p. 78.
Se por um lado é fácil encontrar indícios da cumplicidade dos monárquicos nos acontecimentos da «Noite Sangrenta», também não é muito difícil detectar mostras de suspeição no seio das fileiras republicanas.
É verdade que jornais de confissão e de financiamentos monárquicos ou católicos (A Época e a Imprensa da Manhã) promoveram campanha de envergadura, criando condições para a revolta contra o governo de António Granjo. Mas é também verdade que o movimento revolucionário de 19 de Outubro de 1921 é de inspiração republicana e que pelo menos na sua fase preparatória estiveram envolvidos o Partido Democrático e a Maçonaria. Quer António Maria da Silva, ao tempo o mais importante dirigente dos Democráticos, quer Sebastião Magalhães Lima, grão-mestre do Grémio maçónico, não escondem esses envolvimentos e assumem-no sem problemas de maior. E é também verdade que se vivia em Portugal uma situação política que – pela primeira vez na normalidade institucional da I República – não estava dentro do controlo do poderoso Partido Democrático.
Se é certo que o multimilionário monárquico Alfredo da Silva se põe em fuga na sequência dos acontecimentos de Outubro de 1921, a mesma certeza se tem com a fuga do homem que assassinou Sidónio Pais, na estação do Rossio, em 1918. De facto, na tarde desse dia 19, quando toda a situação está já nas mãos das forças revoltosas, José Júlio da Costa é solto por um numeroso grupo de revolucionários civis, que se desloca ao manicómio Miguel Bombarda para o libertar.
