Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
De mentiras, já basta
( Em França, em Espanha, em Portugal, por toda a parte onde impere o modelo neoliberal)
DANIEL BERNARD – MARIANNE
Seja na política, na economia, no consumo e mesmo na cultura as contra-verdades enunciam-se sem qualquer pudor e sem quaisquer escrúpulos . “Marianne” recenseou as que consideramos principais. Esperando que isto nos sirva para alguma coisa.
DDP IMAGES FILMFOTOS/SIPA
Lavagem ao cérebro, intoxicação, desintoxicação, “o confronto com os factos” ou a caça às mentiras, tornou-se, desde a campanha presidencial, a forma política mais importante que é exposta das páginas políticas dos nossos jornais. Os seus autores estarão felizes, esperando que esta procura compulsiva de escória do discurso político apagará o descrédito provocado por uma excessiva proximidade havida para com os poderosos.
No entanto, este exercício para ser benéfico, coloca o jornalista ao nível do varredor de rua, ao nível do coveiro que confirma a morte de quem quer que seja que tenha morrido ou ainda ao nível do oficial de justiça que observa as mensagens à procura do sinal de adultério. Trabalho essencial mas ingrato. A iniciativa, na verdade, continua a pertencer ao mentiroso, que é quem decide tanto o tema como o tempo, deixando ao pequeno funcionário da informação a ideia, a ilusão do heroísmo de quem verifica. Agora, nas redacções como no supermercado ou na Assembleia Nacional, considera-se que a verdade custa muito caro para ser dita – enquanto acontece o contrário com a mentira, pois considera-se que esta rende sempre quer seja a mentira dita quer seja a mentira denunciada…
A FÁBRICA DE ABSTENÇÂO
Será mesmo necessário que celebremos o advento do cidadão mais arguto, na ausência de poder ser mais esclarecido? Cada um de nós, a ouvir o rádio na sua cozinha ou agarrado ao seu teclado de computador está agora reduzido a acreditar no menos mentiroso. Por exemplo, no caso ArcelorMittal, no do Aeroporto de Notre-Dame-des-Landes, no caso do gás de xisto, da migração dos ricos, na utilização crescente do Facebook pelos adolescentes, nos quadros excedentários da função pública, na necessidade de trabalho imigrante na construção civil, nas consequências do fim do euro, nas restrições comerciais com a China, no caso do doping da banda à Zidane, na regularidade do concurso para a construção do grande estádio de Lille, no caso da inocuidade das ondas magnéticas, no caso do óleo de palma e do Nutella, no caso do interesse médico de metade da farmacopeia francesa, os consumidores de informação não estão muito mais avançados que o quinquagenário gordinho tentado pela Dieta hiperproteinada de Dukan. Sob a ideia do farelo de aveia, sente-se a vigarice mas nenhuma verdade emerge por ausência de uma autoridade acima de toda a suspeita. Será por coincidência que a abstenção está a progredir e que a imprensa está a morrer?
Bem-vindos a 2012, bem-vindos ao tempo da mentira triunfante! Que se trate de ontem, de hoje ou de amanhã, a realidade deixa de ser objecto de um consenso mínimo no seio da sociedade. Desde que a crise plantou as suas patas – primeiro sobre o crescimento e sobre os rendimentos e, em seguida, sobre o espírito da população -, os elos sociais herdados do passado são publicamente destruídos, rasgados, e quer as Ciências moles, como a História e a Filosofia, quer as ditas duras, como a matemática e a física, são deixadas cair em farrapos. Os historiadores e os físicos são suspeitos de charlatanismo, se bem que o passado já não seja o que era e a esperança de um progresso da Humanidade também já não seja o que foi. A Internet deu uma nova montra aos pseudo-sábios que nos professam agora que a terra é plana e que as imagens de um planeta esférico foram fabricadas em estúdio.
A teoria da evolução, os ataques de 11 de Setembro de 2001, as peças de Molière escritas por Corneille…, tudo é falso, tudo se vende e tudo isto é também um produto do rumor. A erudição já não provoca nenhuma admiração, mas sim uma pequena risada e sem alegria. A confiança de ontem é substituída pela desconfiança ou pelo sarcasmo, hoje. A busca da inacessível estrela da sorte deu lugar a uma busca paranóica de todas as faces ocultas. Albert Londres levava muito tempo para nos contar a distante Rússia, a China e o Tour de France; o fundador de WikiLeaks Julian Assange deixa babados de inveja os jovens jornalistas que sonham em poder denunciar a conspiração do século com base nas cartas anónimas antes de voltarem para casa com a vontade de assistir à série ‘West Wing’ ou ‘Borgen’.
Seria bom, no país de Descartes, que o exercício da dúvida tivesse substituído a credulidade. Ora, se a Imaculada Conceição foi submetida ao crivo esmagador da razão, se o mito do homem novo não conseguiu resistir ao teste da história, estas ficções, paradoxalmente, deixaram o terreno livre aos mentirosos patenteados. Uma vez que já nada é certo, qualquer um pode dizer seja o que for sem nenhum medo de ser desmentido. “Super-mentiroso” – quem se lembra da alcunha dada a Jacques Chirac? -, condenado pelo Tribunal, foi perdoado por uma opinião adormecida, anestesiada, resignada ou cinicamente admiradora . Ele pode festejar os seus 80 anos armado em Patriarca sem sofrer o estigma em relação à sua espantosa falta de vergonha. Da mesma forma, a desmontagem da máquina das mentiras que era utilizada por Claude Allègre não levou o geólogo ao exílio ou a ser apanhado na armadilha; preguiçosa, a imprensa continua a colocar em cena os seus delírios sobre o clima ou sobre as sementes OGM.
