EDITORIAL – O NOME DA ROSA

Imagem2Se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume,  disse, mais ou menos, William Shakespeare. Isto significa que as coisas são o que são, independentemente dos nomes que ostentarem.

Temos aqui dito com frequência que a prática dos governos do PS nada tem a ver com o socialismo. Tal como Obama se tem esforçado por provar «a quem realmente manda» que um negro pode ser tão eficaz como um branco na adopção de uma linha política que sirva os interesses desses poderes, também o PS, desde Mário Soares, tem vindo a pretender demonstrar que é capaz de, esquecer as suas bases programáticas, e adoptar uma política «responsável», o que significa assumir medidas neo-liberais. Com um despudor crescente, os princípios socialistas, varridos desde sempre da prática política, vão sendo também erradicados do discurso.

Já nos disseran que estamos  a aferir o índice de socialismo que resta ao PS, usando medidas que já não fazem sentido. Quando dizemos que o socialismo nada tem a ver com a prática dos governos PS, estamos a usar como referente as ideias  que com Saint Simon e Owen deram os primeiros passos, acertando depois a respiração pelo resfolegar das máquinas com que o capitalismo inaugurava a era industrial e, com Marx Engels, passou da fase utópica à fase cientifica. Filtrado pela revisão leninista, definido como ponte entre o capitalismo e o comunismo, após o pesadelo estalinista, entrou na senda do «socialismo real» . Já nos disseram isso. Nós é que estamos desactualizados ao exigir que o PS seja socialista.

 Mário Soares ainda tentou um equilíbrio impossível, usando uma linguagem com ressonâncias esquerdistas e uma prática crescentemente neo-liberal. Os «socialistas» como Soares – Miterrand, Felipe González, Papandreu, transformaram em rosa o que foi punho cerrado. Recusaram conotações com o Outubro russo, com a Guerra Civil de Espanha e com outros marcos que os socialistas revolucionários sempre ostentaram com orgulho. Com este passe de mágica, prepararam o socialismo para os novos tempos: pegaram na embalagem e meteram-lhe dentro um produto diferente. Sócrates ou Zapatero encontraram o trabalho feito e duvido que relacionem o que dizem com a história do socialismo. São pragmáticos. Este corte entre o discurso político e a prática partidária, acentuou-se nestas três décadas. Esta evidência de que os actuais partidos socialistas não entroncam na árvore genealógica que vem das lutas heróicas do século XIX é escamoteada pelos partidos actuais, dirigidos por gente «pragmática», ligada a uma lógica burguesa e aos interesses do grande capital. Gente com mentalidade empresarial, com ambições de fazer carreira, para os quais o partido é uma passagem para lugares de topo no mundo dos negócios. Socialistas, estes partidos? – pura mistificação. Como dizia um político «socialista» madrileno para um outro da UCD de Adolfo Suárez, quando Felipe González venceu as eleições gerais legislativas em 1982 – « Agora chegou  a nossa vez de comer lagosta». Lagosta, tem de ser entendida lato senso: cargos para amigos, familiares e correligionários, negociatas, fora e, sobretudo, subir um degrau na carreira. Saídos do Governo, mesmo que só tenham cometido erros, vão direitinhos aos conselhos de administração de bancos ou grandes empresas. O cargo público, serve de alavanca para a ascensão. O que tem isto a ver com o socialismo?

Chamemos o que chamarmos à rosa o seu cheiro continuará a ser o mesmo. Chamemos o que chamarmos a um partido, ele será o que for e não aquilo que o nome indica.

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