Acabo de saber por telefonema de um amigo comum, Elísio Neves, que morreu o Ascenso Gomes, um dos coordenadores da revista Setentrião. É uma terrível perda. Não falávamos muito, a última vez foi há meses atrás, por telefonema agradecendo-me o envio de um livro. De uma amabilidade extrema e de uma ironia amistosa e permanente, era daqueles amigos que podemos estar anos sem ver sem que a amizade disso se ressinta. Como homenagem à memória de Ascenso Gomes, publico um excerto de um artigo sobre a minha chegada a Vila Real que foi editado pelo blogue Aventar.
À família de Ascenso Gomes endereço os meus muito sentidos pêsames.
Fotografia dos coordenadores da revista “Setentrião” (nºs 2 e 3), datada de Julho de 1962, Da
esqª para a direita, António Cabral, Carlos Loures, Eduardo Guerra Carneiro e Ascenso Gomes.
Cheguei a Vila Real ao meio-dia de 28 de Dezembro de 1961. Partira de Lisboa na véspera com o António Barahona da Fonseca e a Luiza Neto Jorge, na altura casados. Ele ia ocupar o lugar de Encarregado de Biblioteca numa cidade a Norte, Bragança, salvo erro. Viajámos no carro da biblioteca itinerante dele, conduzido pelo respectivo motorista. O carro-biblioteca que me era destinado e que estava em Vila Real desde o dia 22, ardera completamente com o seu recheio de 5000 livros. Eu iria utilizar um carro velho que chegaria de Lisboa, antes da inauguração cuja data seria cumprida. A Gulbenkian encomendara já outro carro à Citroën.
Foi uma viagem agradável, mas interrompida no primeiro dia por um nevoeiro cerrado e depois por um forte nevão que nos obrigou a dormir em Castro Daire. O carro estava em rodagem – os 450 km que na época nos separavam da capital demoraram mais de 12 horas a percorrer. Chegámos cedo a Vila Real. Almoçámos, eles seguiram e eu fiquei numa cidade que não conhecia, mas que logo me fascinou. Resolvidos os assuntos mais urgentes, principalmente o de arranjar um quarto e ver as instalações da biblioteca, passeei ao entardecer pelo burgo, aspirando, misturado com o ar frio, o delicioso odor da lenha queimada nas lareiras e fogões.
Nessa mesma noite, escrevi a minha mulher (tínhamos casado em Abril), fazendo-lhe o relatório – «A cidade é muito bonita e agradável, os cafés são bons (este era para mim, habitante de cafés, um requisito muito importante para que uma cidade fosse aceitável!) e há um cinema com três ou quatro sessões semanais. O frio suporta-se muito bem». Explorei minuciosamente a cidade que não era tão grande como agora. Depois de uma criteriosa vistoria aos cafés do centro, logo adoptei a Pastelaria Gomes como gabinete de trabalho.
Passava ali as manhãs, lendo e escrevendo e as noites até a porta ser encerrada. Quando na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro de 1962, indiferente aos festejos que havia pela cidade, ao vir a pé para o local onde dormia, na Rua Nova, deparei na Avenida Carvalho Araújo, particularmente no perímetro do Governo Civil, com um forte dispositivo policial – guardas armados, uns com Mausers outros com pistolas-metralhadoras, equipados com os seus sinistros capacetes pretos.
Só no dia seguinte pela manhã tive a explicação ao comprar o Jornal de Notícias – Delgado entrara em Portugal clandestinamente para comandar uma revolta que deveria eclodir no Regimento Infantaria 3, em Beja. Como se sabe, o malogro dessa iniciativa levou à prisão de dezenas de militares e civis. Um deles, o então capitão Varela Gomes, que ficou gravemente ferido. Quando em 1965 fui preso pela PIDE, passada a fase dos interrogatórios, no recreio do Reduto Norte, passei pela janela do seu cárcere que ficava rente ao pátio e fiz-lhe um dissimulado gesto de saudação a que ele correspondeu. Anos mais tarde, trabalhámos ambos no mesmo grupo editorial e travámos uma relação amistosa.
No dia 2 de Janeiro, encontrei a Tipografia Minerva, que funcionava no Seminário, e fui lá pedir orçamento para a execução gráfica do meu livro Arcano Solar. O empregado que me atendeu, disse-me que teria de falar com o Sr. Padre António Cabral e a que horas ele lá estaria. E foi desse modo que conheci António Cabral . E depois, apresentados por ele, o Ascenso Gomes. o Eduardo Guerra Carneiro (o Amarelinho, como lhe chamava o Ascenso), Gonçalinho de Oliveira, e tantos outros.
O António Cabral, sendo um grande poeta, era ao mesmo tempo um homem com um grande sentido prático e, decorridas poucas conversas, à mesa da Gomes, na Toca da Raposa ou simplesmente deambulando pela cidade, propôs-me que colaborasse na concretização do número duplo da revista quer com textos meus, quer utilizando o facto de eu conhecer numerosos escritores como o Manuel de Castro, Maria Rosa Colaço, o Fèlix Cucurull (convidei muitos outros, entre eles o Luiz Pacheco – por preguiça ou por atraso na entrega, nem todos corresponderam à minha solicitação).
No decurso da organização da revista, fizemos, no carro do António Cabral, diversas viagens ao Porto, onde contactávamos com gente das Notícias do Bloqueio, a maior parte da qual eu já conhecia, pois em 1959 ali estivera promovendo a «Pirâmide», amigos como o Egito Gonçalves, o Rebordão Navarro, o Papiniano Carlos, o Luís Veiga Leitão e Jaime Isidoro da galeria Dominguez Alvarez Numa dessas incursões, estivemos no ateliê do Nuno Barreto. Noutra ou na mesma, já não me recordo, falámos com o Nadir Afonso. * A chegada de António Barreto e de Eurico Figueiredo, ambos ligados ao movimento do Setentrião e acabados de sair da prisão (tinham sido presos na sequência das comemorações do Dia do Estudante), foi um acontecimento. (…) Estas e outras coisas, que tenho estado aqui a recordar, disse-o numa sessão pública, seguida de debate, no Grémio Literário de Vila Real, em Março de 2009, animada pelo Eurico Figueiredo e por mim. (…) Foi uma sessão interessante e participada e que vem demonstrar uma coisa que, devido às minhas itinerâncias, há muito tempo sei: a vida cultural não se resume a Lisboa e Porto. Nas cidades mais pequenas, há gente empenhada na cultura, como acontece em Vila Real – o Elísio Amaral Neves – que foi a alma da exemplar organização das comemorações, seu irmão, Frederico Amaral Neves (um excelente diseur), o Ascenso Gomes, um dos fundadores do movimento Setentrião, e, last but not least, o notável poeta e romancista António Pires Cabral, presidente do Grémio
Ascenso Gomes durante a sua intervenção. na sessão de 21 de Março de 2009.


