SALAZAR E A I REPÚBLICA – 53– por José Brandão

1923 – A República da confusão

A 9 de Janeiro, Leonardo Coimbra demite-se de ministro da Instrução devido à tentativa de aprovação de uma lei que estabelece que o ensino «será neutral em matéria religiosa», o que permitiria de novo o ensino religioso. No seu pedido de demissão diz o seguinte:

«Exmo. Presidente do ministério e meu prezado amigo: – Ponderou V. Ex.ª diante de mim as razões de ordem política que deviam marcar a oportunidade da apresentação da minha moção ou proposta ministerial sobre a regulamentação do ensino religioso nos colégios particulares.

Pareceram essas razões, a V. Ex.ª conducentes a uma dilação do assunto. Não tenho outras razões de ordem política a opor às de V. Ex.ª, mas tendo eu revelado publicamente o propósito de ser decidido e pronto na resolução do problema, não poderei modificar a minha atitude.

Fica, pois, a matéria do ensino religioso nos colégios particulares nesta posição:

Em doutrina, V. Ex.ª e os restantes membros do governo concordaram com os meus propósitos dando, assim, às consciências religiosas e às consciências dos democratas do país, inteira satisfação moral, a efectivar politicamente em mais oportuna ocasião.

Dessa oportunidade, talvez arbitrária e imprudentemente fiz-me eu juiz e afirmei ter ela chegado desde já.

Esta discordância, apenas no modo de fazer, leva-me a pedir a V. Ex.ª me dispense da honra de continuar a ser seu colaborador no ministério

Aproveito a ocasião de afirmar, a V. Ex.ª e todos os outros ilustres colegas, o maior reconhecimento pela perfeita lealdade com que me trataram, bem como repito perante V. Ex.ª os mais ardentes protestos da minha inextinguível fé republicana.

De V. Ex.ª, amigo muito grato, Leonardo Coimbra, ministro da Instrução Pública e interino do Trabalho.».

Ainda em Janeiro, os impostos directos são agravados, o que provocará uma estagnação dos investimentos e em meados do ano uma crise de confiança, que leva a uma corrida aos depósitos e à falência de  cinco bancos.

Na continuação do julgamento dos implicados na «Noite Sangrenta», no dia 22 de Fevereiro o Tribunal declara igualmente como absolvidos todos os oficiais alegadamente implicados no movimento de 19 de Outubro de 1921.

Depois de uma primeira fase em que todos os oficiais do movimento revolucionário de 19 de Outubro são dados como inocentes, o tribunal prossegue com o julgamento dos crimes de homicídio praticados durante a noite sangrenta; mas agora já só com peixe miúdo sentado no banco dos réus.

Restavam agora ao todo vinte e dois acusados.

A 1 de Junho, o Tribunal Militar Extraordinário de Santa Clara profere a sentença:

Rogério Augusto da Silva, Timóteo Rodrigues e Porfírio Messias, 16 meses de prisão correccional (levado em conta o tempo de prisão já sofrida); Mário de Sousa, 8 anos de prisão maior celular, seguidos de 12 de degredo ou, na alternativa, da pena fixa de 25 anos de degredo em possessão de 1.ª classe com prisão no lugar do degredo; Acácio Cardoso, condenado na mesma pena do réu anterior; Matias Carvalho, Palmela Arrebenta, José Maria Félix e Acácio Ferreira, 8 anos de prisão maior celular, seguidos de 20 de degredo. Heitor Gilman e José Carlos, 10 anos de prisão maior celular, seguidas de 20 de degredo. Abel Olímpio (o Dente de Ouro), 10 anos de prisão maior celular, seguidos de 20 de degredo ou, na alternativa da pena fixa de 30 anos de degredo em possessão de 1.ª classe.

Benjamim Pereira foi ainda condenado na pena de um ano de prisão correccional, mas que lhe é dada por expiada, levando em conta a prisão já sofrida.

Os restantes nove réus, Manuel Aprígio, Baltasar de Freitas, Manuel da Costa Coutinho, Cipriano dos Santos, Manuel Combro, António José da Fonseca, João Domingos dos Santos, Eduardo de Almeida e José dos Santos Baptista são todos absolvidos.

Estava assim concluída a intervenção da justiça nos crimes da «Noite Sangrenta». O julgamento tinha-se arrastado por tempo suficiente para poder deixar o caso bem esclarecido. Todavia, esse não era o parecer de muito boa gente, que continuava a pôr no ar a grande interrogação:

– Quem seriam os que prepararam a aura do terror?

O jornalista Rocha Martins teimava em questionar:

– Condenados só vi, até agora, os executores, aqueles cujas culpas não oferecem dúvidas, os que não podem lavar das mãos e das fardas o sangue derramado.

– Trabalharam por sua conta estes carrascos? – insistia Rocha Martins. – Saiu das suas cabeças essa ideia terrível de assassinar gente honrada e deixar com vida tantos miseráveis? Repito. Não sei. Só a eles vejo condenados e o seu silêncio acerca da acção dos chefes é singularíssimo em quem carece defender-se.

– Quem preparou a aura do terror? – voltava a interrogar. – Das suas revelações é que depende a justiça, não a do tribunal republicano, que só condena marujos e soldados, mas a outra, a que algum dia, tarde ou cedo, se fará em nome da Nação.

Em Agosto de 1923 o Congresso elege o candidato dos democráticos, Manuel Teixeira Gomes, para a Presidência da República. Para trás fica, depois de 3 votações, e com apenas 5 votos contra os 121 de Teixeira Gomes, o ex-presidente Bernardino Machado que concorre com o apoio dos nacionalistas. Teixeira Gomes toma posse a 6 de Outubro.

O mandato de Teixeira Gomes, o «presidente-escritor», será novamente marcado pela profunda instabilidade. De 1923 a 1925 dá posse a nove governos. A família republicana está dividida, no interior do próprio Partido Democrático constituem-se duas alas que se afrontam, os bonzos e os canhotos. Teixeira Gomes é objecto de frequentes ataques e campanhas difamatórias, de nacionalistas e de monárquicos, que exigem a sua demissão. Paralelamente, sente-se a crescente admiração de largas camadas do Exército e da direita portuguesa pelas soluções autoritárias que começam a vingar na Europa. Num momento em que as classes médias se revelam saturadas de revoluções e tumultos, em que o operariado se impacienta perante a falta de resposta às suas reivindicações, esta situação ameaça mortalmente a República.

1923 – Salazar esmerado

Embora apresentado quase sempre como exemplo de modéstia e simplicidade, Salazar não prescindia de certos gastos destinados ao apuro da sua imagem. Mesmo com as muitas despesas com a saúde da mãe, não deixava de comprar do mais caro para ornar a sua figura pela bitola do mais chique da época. É Franco Nogueira, que diz:

«… não descurava Salazar a sua pessoa. No Damião encomendara, para o inverno, um fato e um sobretudo novos. Eram de bom tecido: custaram-lhe 490$00. Comprara também gravatas novas, sabonetes de luxo; mas, para economizar, mandara afiar por dezoito tostões as lâminas de barba. E continuava a entreter-se com obras de pedreiro. Fazia por outro lado muitas despesas com Maria do Resgate. Todos os meses despendia dezenas de escudos com medicamentos. E com sua irmã Elisa também: o último tratamento e estadia desta em Viseu ascenderam a mais de trezentos escudos. Para fazer frente a todos estes gastos, administrava-se com rigor. Anotava todas as despesas, por mais miúdas que fossem. Diversificava as suas receitas: a do seu vencimento de professor, tinha os dividendos da Coimbra Editora, o produto dos seus artigos e consultas, os juros dos seus depósitos, os cupões dos seus títulos. Fechara o seu ano financeiro, naquele mês de Setembro de 1922. com um saldo positivo de 947$03,5. Este, adicionado aos anteriores, dava-lhe um saldo geral positivo de 1 517$05,1.» *

*Franco Nogueira, ob. cit., p. 256.

Apesar de todo esse rigor com as contas, Salazar entrava em 1923 muito preocupado com as dificuldades financeiras da Misericórdia de Coimbra que geria. Mandara fazer obras de vulto no salão da Santa Casa e agora não tinha dinheiro para as pagar. Valeu-lhe a sua amiga Glória Castanheira que organizou um concerto de caridade para a angariação de fundos.

Em fins de Março regressava Salazar com permanência a Coimbra. Escrevera para o Boletim um estudo sobre a «Tributação das empresas agrícolas coloniais» e para a Revista, além de um artigo sobre «terminologia tributária», compusera uma nota crítica ao volume que Manuel Rodrigues há pouco publicara acerca de «A indústria mineira em Portugal». No dobrar para os trinta e cinco anos, Salazar sentia-se no momento um misantropo. E dentro dessa misantropia declarava que não era um político, nunca o fora, nem o seria jamais; e que «intelectualmente era uma pessoa de gelo». *

*Franco Nogueira, ob. cit., p. 258.

Em finais de 1923 realiza-se o Congresso das Associações Comerciais e Industriais, presidido por Moisés Amzalak, tendo Salazar apresentado uma comunicação em que defendia uma política de contenção das despesas. «Redução das despesas públicas» era o título da tese apresentada e nela defendia:

«Sob um ponto de vista nacional, não são as despesas públicas que se torna necessário reduzir, mas as despesas privadas, e pouco importaria mesmo retirar despesas ao Estado para as pôr em quantitativo igual a cargo dos particulares: a economia nacional pagá-las-ia igualmente.

A redução das despesas, dum modo geral, é necessária ao incremento da produção e reconstituição dos capitais nacionais, mas se ao Estado ela se impõe como um dever, não se pode impor aos particulares, da mesma forma, nem convém confiá-la ao simples patriotismo, se melhor com ela pudermos casar o seu verdadeiro interesse.

Tudo o que entre nós tem contribuído para a queda sucessiva do escudo se pode considerar em grande parte responsável pela desordem das economias privadas, alimentando consumos inúteis e capitalizações inferiores, quando não inteiramente estranhas à economia nacional. Perdem-se para esta as somas colocadas no estrangeiro fugidas a uma maior depreciação, como aquelas que, guardadas por particulares, se lhes vão esboroando e desaparecendo das mãos, pela diminuição do seu valor. Perdem-se as que o Estado absorve para gastos improdutivos e as que os particulares, para não perderem tudo, aplicam seja no que for.

Ainda uma vez: é inútil dizer que o patriotismo aconselha economia. Mais seguro é poder afirmar que há interesse em reduzir as despesas privadas para se empregar o excedente em novas produções.»

A 8 de Dezembro, criação da Acção Realista Portuguesa por Alfredo Pimenta, com integração na Causa Monárquica. Integram o novo grupo António Cabral, ex-ministro da monarquia, Alberto Ramires dos Reis, Luís Chaves, Oliveira Monteiro e Caetano Beirão, dissidente do Integralismo Lusitano.

Alfredo Pimenta foi um dos mais temíveis polemistas do seu tempo. Personalidade contraditória, católico tradicionalista, assumiu-se publicamente como um dos apoiantes incondicionais de Salazar e confessa-o na extensíssima correspondência que manteve com Salazar. As afinidades eram sobretudo pessoais, frequentemente foi brutal e frontal com Salazar que tinha por ele uma elevada consideração, o que não o impedia de o tratar com secura e o manter com respeito.

Pimenta começou por ser adepto do socialismo anarquista, chegou a publicar opúsculos de combate republicano, frequentou os seus comícios, militou no Partido Evolucionista de António José de Almeida, que abandonou em 1915, andou perto do Integralismo Lusitano e fundou a Acção Realista Portuguesa.

A 15 de Dezembro, reaparecimento do jornal Novidades, enquanto órgão da hierarquia católica.

Entretanto, para Salazar tudo estava a seu favor.

A vida não lhe podia correr melhor. Os seus pareceres jurídicos eram cada vez mais solicitados e o Banco de Portugal só de uma vez pagou-lhe cinco contos de réis.

Já cansado do Vimieiro, arrendava uma casa à época para fazer praia na Figueira da Foz.

1924 – A República e as bombas

1924 começa com uma greve dos funcionários das finanças e com aumento da actividade bombista, alegadamente fomentada pela Legião Vermelha.

Uma resenha, forçosamente omissa, de atentados cometidos em Lisboa no primeiro mês de 1924 aponta as seguintes acções:

7 de Janeiro – Às 12 horas, na Charneca, um menor encontrou uma bomba de dinamite abandonada; brincando com ela, fê-la rebentar, ficando gravemente ferido.

10 de Janeiro – Às 20 horas, na Calçada da Boa Hora, à Ajuda, rebenta uma bomba contra a residência do proprietário duma oficina.

13 de Janeiro – Às 20 horas explodiu uma bomba de dinamite na escada do prédio n.º 21 da Rua Duque de Palmela, causando estragos materiais.

– Às 21 horas explodiu uma bomba de dinamite no Cais do Açúcar, ao Beato.

14 de Janeiro – Às 20 horas, explodiu uma bomba de dinamite junto dumas oficinas de caldeireiro, na Cova da Moura.

– Às 8 horas foi encontrada uma bomba de dinamite junto da Repartição das  Contribuições da Câmara Municipal.

22 de Janeiro – Às 23 e um quarto rebentou uma bomba na Rua José Domingues Barreiros, ao Poço do Bispo.

A par das bombas, iam sucedendo as manifestações e as greves. Uma manifestação contra a carestia de vida, em 22 de Fevereiro, reúne cerca de cem mil pessoas em Lisboa. Realizam-se, entre dia 17 e 22, «comícios unitários» em Lisboa e Porto organizados por sindicatos e forças de esquerda. E a 18 de Abril é dia de greve dos funcionários públicos.

Em Maio, confrontos nos Olivais causam a morte de três operários, alegadamente membros da Legião Vermelha, e de um polícia, o cabo Manuel Neves que comandava a força policial envolvida. A operação resulta de uma cilada montada pela polícia aos terroristas, mas não surte o efeito desejado.

A 2 de Maio as associações patronais contestam a política económica do governo Álvaro de Castro. A Associação Comercial de Lisboa defendia que as pastas económicas deviam estar nas mãos de «técnicos» independentes.

No XI Congresso do Partido Socialista, realizado no Porto, em Junho de 1924, o partido passa a ser dominado por Ramada Curto e Amâncio Alpoim.

Em plena Câmara dos Deputados, o deputado monárquico Cancela de Abreu, chega a declarar, que o país está entregue a uma quadrilha de ladrões. Tudo se agrava quando o governo não consegue apoio da oposição para a operação do empréstimo externo e o escândalo rebenta quando se anuncia que 49 toneladas de moeda de prata estão quase a partir para Londres, a fim de se garantir o empréstimo externo. Há uma tumultuosa sessão parlamentar sobre a questão no dia 27 de Junho e, no dia seguinte, é aprovada uma moção de desconfiança, apresentada pelo democrático Vitorino Guimarães. No dia 30 já é suspenso o embarque das coroas.

Sarmento Pimentel, num artigo publicado na Seara Nova, dizia:

«Não há Exército Nacional. Há a guarda pretoriana da República burguesa carregando o orçamento com cifras monumentais, roubando ao País os homens bons que trazem da aldeia para na cidade se indisciplinarem, para se desmoralizarem, para se sifilizarem. Um ministro quer pôr o Exército dentro da sua verdadeira missão e logo o Parlamento exige que esse ministro deixe o poder. À política actual só convém o que está. Bulir-lhe é bulir com os interesses da maior parte dos que por uma série de contos do vigário chegaram ao Poder.»

O governo de Rodrigues Gaspar não consegue encontrar forma de garantir a ordem pública, havendo várias tentativas de revolta. São forças do exército e da GNR que entram em refrega, com cerca de uma dezena de mortos, havendo, então, uma sucessão de atentados bombistas.

Forças marginais do regime também vivem em turbulência. Os católicos continuam agitados pelas polémicas travadas entre os defensores do Centro Católico e os críticos do jornal A Época e, entre os sindicalistas, agrava-se a ruptura dos anarco-sindicalistas com os comunistas, seguidores da Internacional Sindical Vermelha.

O jornal A Época anuncia o falhanço de uma tentativa golpista de assalto ao forte da Ameixoeira que teria sido preparada por Martins Júnior, que deseja como chefe Gomes da Costa.

Nova revolta radical (12 de Setembro). Combinada numa leitaria, em frente ao Teatro Apolo, tendo como objectivo assaltar o ministério da guerra e a central dos telégrafos. Mas apenas chega a ser ocupado o edifício da Alfândega, pelo major Pires Falcão. Paradoxalmente, enquanto decorrem estes golpes radicais, a imprensa democrática e anarco-sindicalista continua a alertar para o perigo de um golpe fascista.

Em 28 de Setembro é criada a União dos Interesses Económicos, financiada pela CUF e pelos latifundiários, com o apoio expresso da Associação Comercial de Lisboa, Associação Comercial do Porto, Associação Industrial Portuguesa e Associação Central da Agricultura Portuguesa.

Sexta-feira, 7 de Novembro. A polícia impede a realização das comemorações do 7.º aniversário da Revolução Russa.

27 de Novembro. Apresentação, na Câmara dos Deputados, do ministério José Domingues dos Santos, executivo este «saído do bloco das esquerdas parlamentares». Segundo a declaração ministerial: «Depois de todas as perturbações que se acumularam, pela guerra, sobre males antigos, o grave problema português é principalmente de ordem social e moral. Todo ele se resume em ser preciso estabelecer o equilíbrio: o das classes, melhorando as condições de vida às medianas e pobres; o das profissões, devendo crescer as produtivas e diminuir as onerosas ou especuladoras; o das terras aráveis, corrigindo-se os extremos da propriedade excessiva e insuficiente: o das próprias ideias, devendo triunfar as de que são, de solidariedade e de moral superior, decorrentes da perfeita compreensão duma finalidade comum.»

Governo de José Domingues dos Santos vai durar 85 dias (não chega aos três meses). Na agricultura, está o então seareiro Ezequiel de Campos.

1 de Dezembro de 1924. Realizam-se comícios em Lisboa, protestando contra o desemprego e os baixos salários, sendo a CGT (Confederação Geral do Trabalho) reconhecida pelo Governo.

Ainda em 1924: criação da União Católica de Estudantes Portugueses (UCEP), contando-se, entre os seus membros fundadores, Marcelo Caetano e Pedro Teotónio Pereira.

1924 – Salazar em grande actividade

Em princípios de 1924, a 15 e 16 de Janeiro, Salazar iniciava a sua colaboração no órgão do episcopado Novidades, com dois artigos sobre «O ensino e as suas despesas»; e em Março, a 12, publicava no mesmo jornal outro sobre «Rendimento em moeda estrangeira».

Em 21 de Fevereiro, o director da República fala nos democráticos como «o partido dos escândalos: não há dia em que não surja um escândalo. Mas ainda não vimos, na cadeia, nenhum ladrão».

Congresso do partido democrático de 25 a 27 de Abril sem críticas ao governo. O governo convida Afonso Costa para embaixador em Londres, mas este cargo acabará por seu ocupado por Norton de Matos, depois da recusa daquele. Norton de Matos abandonara o cargo de alto-comissário em Angola, alegando razões de saúde.

Em 7 de Maio Gomes da Costa regressa a Portugal de missão de serviço à Índia e a Macau, com uma visita à China. Partira de Lisboa em Agosto de 1922. De regresso, em entrevista ao Diário de Lisboa diz que o ministério das colónias é «uma súcia de idiotas.». A questão é discutida no parlamento no dia 8. Mariano Martins, o ministro repele a insinuação. Gomes da Costa diz que não fará nenhum relatório porque «ninguém lê relatórios».

A 4 de Julho, Salazar deslocou-se a Braga para participar no Congresso Eucarístico Nacional, onde discursou sobre «A Paz de Cristo na classe operária pela Santíssima Eucaristia».

Participava desta forma, na vida política através das intervenções de cariz católico.

Em que consiste a «Paz de Cristo»?

«Por uma espécie de reacção contra um conceito demasiadamente depreciativo do trabalho manual, o operariado foi naturalmente levado também a exagerar o valor do esforço que fornece na obra de criação de riquezas de que vive a colectividade. A ideia de que só ele trabalha e produz, vivendo as outras classes da população parasitariamente do seu esforço, cuja maior utilidade não usufrui, é corrente na classe operária e é atentatório da própria civilização que a deixemos firmar-se. A hierarquia dos trabalhos concorrentes na produção, directamente ou indirectamente, é desconhecida, ou pelo menos é negado o seu direito a provocar uma gradação nas retribuições.

Esta hierarquia – trabalho de invenção, de organização, de direcção e de execução – ao mesmo tempo que traduz uma necessidade intrínseca da produção material, é reflexo da desigualdade natural de aptidões individuais, que a sociedade não pode nem deve contrariar.

O homem de Estado, o juiz, o advogado, o médico, o sacerdote, o artista, o professor, o sábio não são apenas flores ornamentais duma civilização de mentira; trabalham para criar aquelas condições morais, sem as quais a produção seria indiscutivelmente inferior. A ordem, a justiça, a beleza, a ciência que aumenta o poder do homem sobre a natureza e as suas faculdades criadoras, não são riquezas materiais; mas sem elas a produção não seria tão abundante nem tão valiosa.

A ideia da importância exclusiva ou dominante do trabalho material, desacompanhado daquelas condições que a organização política e o espírito humano foram criando, é pois mais que uma ilusão, como há pouco lhe chamei, é uma ideia de morte, não já para aquilo que chamamos a nossa civilização, mas para o futuro da produção das riquezas, em que já está directamente interessada a classe operária.

Vejamos agora as ilusões do operariado acerca da riqueza. Deixemos os homens ricos, que, para já, nos não importam, e examinemos a riqueza em si e nos benefícios que presta. Se me fora permitido caracterizá-la na sua acção económica por elementos morais, dir-vos-ia que há uma riqueza egoísmo e uma riqueza sacrifício e dedicação. A primeira é a riqueza destinada ao consumo, à satisfação de necessidades naturais ou artificialmente pela civilização. A segunda é a riqueza que se destina às novas produções, ao maior enriquecimento da colectividade.

Esteja na mão de particulares, ou na mão de sindicatos, ou na mão de pequenas circunscrições territoriais, ou na mão do Estado, esta riqueza é a cristalização dum trabalho acumulado por séculos, e é garantia de produção futura, directamente proporcional à sua importância. É uma riqueza que para constituir-se precisa previsão e exige sacrifício – o sacrifício dum apetite presente que a consumia, a uma produção futura que a aproveita, e a previsão do peso das necessidades futuras em comparação das necessidades presentes. Essas qualidades de sacrifício, de dedicação, de renúncia exigem o homem sob estes aspectos superior, porque tais qualidades não se encontram no vulgo e muito menos na multidão.

Figuro este homem rico, mas rico produtor, como uma espécie de administrador de bens dum incapaz, tornando fecunda a riqueza pela sua acção, pela sua iniciativa, pelas suas qualidades de dirigente e de chefe.

O que convém a todos é que não deixe apodrecer na improdutividade a riqueza que possui e a converta em instrumento de trabalho, e a valorize, e a fecunde, e com ela produza mais riqueza de que todos aproveitem.

E o que disto concluímos opõe-se assim directamente à primeira ilusão da classe operária quanto à riqueza; toda a organização económico-jurídica que, confiando-a ao Estado, deixe afinal ao alcance dos apetites de todos a riqueza produtiva, terá por efeito imediato desviá-la para o consumo, inutilizá-la, diminuí-la e provocar a miséria final da colectividade.

Por outro lado, afastada a miséria e ainda a extrema pobreza, para cima duma certa mediania, a riqueza só exerce uma atracção irresistível, porque nenhuns limites morais pomos ao seu consumo, e poucos limites jurídicos o Estado põe à sua utilização. Mas exactamente essa ausência de limites é inimiga da paz, e nunca a riqueza, sob esse aspecto, deu a felicidade a ninguém. Vem atrás dum desejo outro desejo, nascem umas aspirações da satisfação doutras, alimentando uma ambição sem limites, como uma bebida misteriosa que tivesse por efeito tornar mais e mais ardente a nossa sede.

Estas grandes ilusões, meus senhores, da riqueza e do trabalho são no entanto a alma da finalidade que se propõe a classe operária com a revolução social. Mas conquistar o poder e exercer o poder para transformar em preceitos de lei perfeitas ilusões, que, realizadas, diminuiriam a capacidade produtiva do mundo e destruiriam bases firmes de estabilidade social, não é arredar conflitos, é multiplicá-los; não é buscar a paz, é até mais a guerra; não é conquistar a felicidade, é aumentar a miséria e a dor.

Se ao menos a posse do poder fosse em si um bem! Mas a experiência demonstra e a natureza das coisas exige que só uma minoria governe, e a mesma experiência tem mostrado que não é mais doce, para os que os elevaram, a mão de ferro dos novos dominadores.».

E Salazar prossegue na sua tese:

«Possuir a riqueza e usá-la em harmonia com os fins do homem e o progresso moral da humanidade; tê-la como um encargo confiado à nossa inteligência e à nossa iniciativa, para que façamos frutificar em benefício de todos; sujeitá-la a nós para que nos sirva e sirva os nossos irmãos mas não nos escravizarmos a ela, para que o Senhor nos veja pobres em espírito, – que enormíssima revolução! É a produção assegurada dos bens necessários à sustentação de todos, é consumo como aproveitamento e não é como utilização de bens; é o luxo reduzido a uma função de beleza; é a miséria vencida, é a tranquilidade na segurança do futuro.

Tomar o trabalho próprio e alheio com amor, desempenhá-lo com zelo, aceitá-lo com alegria; ter o orgulho da profissão, pela consciência da sua utilidade e pela perfeição própria do trabalho executado; sentir a nobre honra de contribuir com um esforço útil para a colectividade e sentir o vexame duma ociosidade parasitária, – que revolução prodigiosa! É o rendimento do trabalho humano mais elevado, é uma quota mais elevada da riqueza distribuída a cada um, é uma mais equitativa repartição do trabalho no mundo, é um avanço enorme no caminho moral da humanidade, mais desembaraçada de preocupações materiais para a cultura do espírito.»

É esta a tese defendida por Salazar aquando da realização do Congresso Eucarístico Nacional. Como já era normal acontecer com os trabalhos de Salazar, esta «Paz de Cristo» era mais um sucesso a juntar aos que marcavam a sua actividade política durante a I República. Cimentado num saber de inflexibilidade quase total, António de Oliveira Salazar ia-se chegando à frente na vida pública portuguesa.

Por parte dos amigos mais próximos havia a incitação a uma intervenção mais activa na

vida política, sugerindo-lhe que se candidatasse a deputado por Viana do Castelo.

Domingo, 6 de Julho de 1924. Constituição do gabinete Rodrigues Gaspar, composto por membros do Partido Democrático e da Acção Republicana. Era composto por Rodrigues Gaspar com a Presidência e Interior; Catanho de Meneses, na Justiça; Daniel José Rodrigues, nas Finanças; Vieira da Rocha, na Guerra; Pereira da Silva, na Marinha; Vitorino Godinho, nos Negócios Estrangeiros; Henrique Sátiro Lopes Pires Monteiro, no Comércio; Álvaro António Bulhão Pato, nas Colónias; Abranches Ferrão, na Instrução; Xavier da Silva, no Trabalho; Torres Garcia, na Agricultura.

Em Outubro e Novembro reacende-se o conflito entre os católicos, com o Novidades, afecto ao Centro Católico Português, a polemizar com A Época, de Fernando de Sousa.

1925 – A República a caminho do fim

O ano de 1925 é particularmente intenso em acções golpistas. Em Março ocorre uma tentativa de golpe militar, por três oficiais monárquicos, que tentaram ocupar o Quartel-general de Lisboa. Em Abril eclode um pronunciamento militar das forças conservadoras apoiado por integralistas e monárquicos mas também pelo Partido Nacionalista, de Cunha Leal.

No País, chegava-se ao limite e esgotavam-se todas as soluções de governo; falava-se de

revolta militar. No dia 18 de Abril essa revolta tornou-se realidade e as tropas revoltosas

instalaram-se na Rotunda. Presidente da República e Governo instalaram-se no Quartel

do Carmo; é porta-voz do movimento, Sinel de Cordes que é encerrado nas águas-furtadas, ficando a dúvida se para ser protegido ou como prisioneiro.

«Queremos reorganizar a administração pública, restabelecer a justiça, libertar as classes oprimidas pela miséria». «Basta de crimes impunes, de latrocínios, de roubos e de infâmias». «Que a República seja um regime honrado e não capa de bandidos e gatunos.» Eram palavras de ordem da proclamação dos amotinados de 18 de Abril.

O estado de sítio é declarado em todo o país, suspendendo-se todas as garantias constitucionais.

Tudo terminaria na manhã dia seguinte com a rendição dos sublevados.

A 19 de Julho novo levantamento encabeçado pelo capitão Jaime Baptista e pelo comandante Mendes Cabeçadas. Tal como no anterior, os revoltosos foram dominados. E os governos sucediam-se!

Demitia-se, entretanto o Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes, em

Dezembro, após quinze anos de mandato. O Governo tentava desesperadamente conter

as finanças ao mesmo tempo que o clima geral nem ao destino era previsível. O estado

de espírito nacional era de desespero; em tudo, o aspecto era o de dissolução da nação.

Era de efectiva degradação o ambiente no país.

15 de Maio – Duplo atentado a tiro contra o comandante da polícia Ferreira do Amaral, organizado pela Legião Vermelha.

3 de Junho – Tentativa de greve geral de protesto contra as deportações  sem julgamento de presos por delitos sociais..

30 de Junho – Queda do governo  Vitorino Guimarães, após uma tumultuosa sessão parlamentar que durou 19 horas.

As Instituições estavam feridas de morte, a Câmara era palco de cenas vergonhosas que iam até ao insulto e ao pugilato, a censura era exercida ferozmente, os magistrados mortos a tiro, era a falência da dignidade, da moral, da sociedade. O Exército pela voz do General Gomes da Costa dava conta ao Ministro da Guerra do estado de indisciplina e de rotura que, a todos os níveis, grassava entre os militares.

Meses depois, realizou-se o julgamento dos implicados no «18 de Abril» e no «19 de Julho». Em ambos os casos, os respectivos júris foram exclusivamente constituídos por generais, que ditaram a mesma sentença: absolvição de todos os réus.

Em artigo publicado na Seara Nova (21/11/1925), Raúl Proença considerou que a decisão do tribunal correspondia à consagração da impunidade. Na análise feita ao julgamento, o escritor rebateu frontalmente os pontos de vista que pretendiam branquear a actuação dos arguidos no «18 de Abril» ao tentarem fazer vingar a ideia de que eles não tinham sido movidos por qualquer intenção criminosa e que, ao contrário, haviam actuado «com os olhos postos na Pátria»…

As duas rebeliões não só tiveram igual desfecho como serviram para aplanar o caminho ao regime ditatorial que viria a instaurar-se cerca de um ano depois, em 28 de Maio de 1926.

A crise internacional, entre 1920-1922, fez-se sentir até 1925, traduzindo-se por uma incontrolável inflação monetária, por uma especulação desenfreada. Em consequência, numerosos bancos foram à falência: Banco Auxiliar do Comércio, Banco de Fomento Nacional, Banco Nacional Agrícola (todos em 1923); Banco Internacional de Comércio (em 1924); Banco Comercial do Porto e Banco Industrial Português (em 1925). Também em 1925 desapareceu o Banco Angola e Metrópole, extinto na sequência duma burla colossal.

Caminhava-se a passos largos para o final. Já mal se consegui formar Governo.

A declaração ministerial do gabinete Domingos Leite Pereira, na Câmara dos Deputados em 5 de Agosto, refere as condições de formação deste executivo: «o Governo que tenho a honra de apresentar a V. Exa. e à Câmara constituiu-se dentro de condições políticas e sociais cuja gravidade ninguém desconhece. Mas a própria dificuldade dessas circunstâncias converteu a alta missão que me confiou S. Exa. o Sr. Presidente da República num daqueles deveres patrióticos e republicanos a que um homem público não pode eximir-se sem se diminuir e desacreditar. Não esmoreci, por esse motivo, ante os obstáculos que se ergueram contra o desempenho da minha missão.» Na actual conjuntura política pretende ter uma postura conciliadora, afirmando que «Por consequência, à sobre excitação das paixões, à conflagração das tendências excessivamente combativas, oporemos uma serena actuação apaziguadora. Respeitaremos todas as justas reclamações e todos os legítimos direitos, fazendo da justiça a base da acção governativa, procurando estabelecer a acalmia necessária à realização da mais instante aspiração nacional.».

A República estava com o fim à vista. Homens de todas as cores ideológicas exprimiam as suas preocupações profundas e formulavam as suas críticas severas.

Em Dezembro de 1925 na revista Seara Nova os escritores José Rodrigues Miguéis e Raul Proença expunham com toda a clareza a situação a que tinha chegado a República. Dizia Rodrigues Miguéis:

«A República, em Portugal, não tomou ainda o caminho que deva levar-nos definitivamente para o mais alto lugar a que a nação aspira.

Erro dos políticos? erro do povo? – Erro de todos um pouco.

Não se prepararam, não se tem cuidado de preparar, até ao presente, as condições essenciais para que apareça esse escol de pensadores que lancem o País no caminho do ressurgimento. Sem um plano inteiramente esboçado, desunidos, digladiando-se, aniquilando-se – e deixando-se por fim cair a maior parte deles, nos braços que lhes estendiam certos interesses económicos, os políticos merecem a severidade do nosso julgamento. Às suas desvairadas atitudes, ao seu esquecimento dos interesses fundamentais do povo – Educação e Economia – se deve seguramente o desinteresse com que o país olha hoje o regime, e a fuga de elementos valiosos para as fileiras conservadoras. Das disputas e querelas se aproveitaram sabiamente certos dissolventes bacilos sociais, a quem a guerra, perigosa cultura, deu uma virulência formidável.

É preciso que o digamos com a maior sinceridade: se há na obra da República alguns factos que a enobrecem e levantam, há infelizmente muitos que mancham os seus políticos.»

Pela sua parte, Raul Proença proclamava:

«A política parece ter chegado entre nós – porque se não há-de dizer toda a verdade? – ao último grau da barafunda. Se houvesse monárquicos de valor neste país – se, politicamente, eles não constituíssem uma caterva cuja coragem se limita às mais miseráveis resistências passivas (que contendem muitas vezes com os mais altos interesses da Pátria) e ao ridículo desporto de se desbarretarem ante todas as igrejas num snobismo risível, se não infundisse antes a piedade – se à grande massa que nos momentos decisivos heróica e desinteressadamente se sacrifica fosse já indiferente a questão do regime – teríamos chegado de facto, como tanto escreve o Sr. Moreira de Almeida, ao fim do fim. O quadro é na verdade desolador. Afonso Costa continua a desfrutar o doce exílio, à espera de que Portugal se transforme no melhor dos mundos possíveis, para ele vir fazer o favor de o governar. António José de Almeida e Brito Camacho, doentes ou desiludidos, retiram-se à privada, e os que ficam, ou são conservadores descambando em homens de negócios, ou radicais, tresandando a jacobinos. No grande hemiciclo das lutas partidárias não se eleva uma cabeça, uma vontade, uma ideia, um chefe. Toda a gente dá a impressão de gaguejar. Ninguém diz as coisas nítidas, precisas, leais, inteligentes – ninguém exprime a ideia justa e necessária, aquela que todos nós sentiríamos talhada na própria realidade, e que não traria ou a marca do interesse egoísta, ou a falha do simplismo unilateral, ou a inflação grotesca da retórica. Havendo uma verdadeira revolução a fazer, ainda ninguém conseguiu impor ao País a consciência dessa necessidade; e a aspiração de justiça, de honradez política, de nobre idealismo que fez a república, já é apontada aos ódios da gente ordeira como manifestações de bolchevismo. Não há um discurso de chefe político no tempo da propaganda (seja ele António José, Bernardino Machado, Brito Camacho ou Afonso Costa) que, reproduzido hoje, não soasse aos ouvidos da maioria dos dirigentes como uma arenga comunista – tão anti-idealista, tão reaccionária é a sua mentalidade e a própria atmosfera que respiram.

A moral política dia a dia mais se relaxa e perverte. As câmaras são já como que as antecâmaras das casas bancárias, e a política um meio de fazer fortuna. Quem entra na carreira começa por bramar contra a finança, adere depois ao conservantismo, penitenciando-se das verduras da mocidade, e acaba por se introduzir na gerência dos bancos, como fruto da idade madura.

(…)

A coisa chegou a ponto que até já os políticos se aproveitam da sua situação ministerial para se instalarem nos chorudos lugares das companhias.

Por outro lado já não há partidos, mas partidos de partidos, facções de facções hordas indisciplinadas e guerrilhas de franco-atiradores».

Eram opiniões de dois ilustres defensores da causa republicana que não pactuavam com as desgraças que se anteviam no futuro da República.

Desgastado, incapaz de intervir e, sobretudo, de obter a reconciliação da família republicana, Teixeira Gomes renuncia à Presidência em 10 de Dezembro e parte para um exílio voluntário. O fim da República estava para breve.

A eleição de Bernardino Machado para o seu segundo mandato presidencial ocorre na sessão do Congresso de 11 de Dezembro de 1925.

A 18 de Dezembro novo governo presidido por António Maria da Silva, devido à demissão do dirigido por Domingos Pereira. Seria o último governo da 1.ª República.

1925 – Salazar a caminho do principio

No início deste ano (1925) já ninguém tem dúvidas quanto à intervenção definitiva de Salazar nos domínios da política. No horizonte já se antevê o professor de Coimbra como predestinado para a subida aos céus da grande política nacional. Por seu lado, o Centro Católico, aproveitando a barafunda geral, alargava o âmbito da sua intervenção doutrinária e invadia sem rebuço a esfera da política.

Os católicos atreviam-se agora para acções que os inibiram durante largo tempo. Vinham à luz do dia, como que saídos de uma qualquer catacumba.

A propósito de católicos, Raul Brandão escreve no final das suas Memorias:

«O melhor que encontrei na vida foram os tipos religiosos. O melhor e o pior. O mais extraordinário e o mais absurdo. Sinceramente crentes – confessando-se todas as manhãs e enriquecendo, à tarde, no negócio, sem escrúpulos nenhuns Homens com vários compartimentos, uns para a religião e outros para a vida prática. Vi a um morrer-lhe a filha única e levantar as mãos para Deus, de joelhos, dizendo: – Faça-se a tua vontade! – Conheci um padre que morreu de fome, mulheres admiráveis e autênticos malandros, comungando todas as sextas-feiras com a maior devoção. Lidei com muitos. Lidei algum tempo com A…, que passa a vida a rezar e a pensar na manobra dum banco.

Preconceitos não tem nenhuns – tanto conspira na Biblioteca com as esquerdas como no Centro Católico com as direitas. – O que nós queremos é um general e uma conspirata para deitar a mão a isto… – dizia-me ele quando andava nos meios avançados. E sempre a rezar. Escreve espantosamente linguados atrás de linguados sobre finanças – escreve infatigavelmente versos sobre versos. Escreve o que quiserem. Naturalmente aquilo não está certo – eu não sei… – mas como ninguém lê o que ele escreve, A… impõe-se e aterra. Sabe muito – diz-se. É um homem muito comprido – é uma estopada infinita, Já escreveu um poema, quatrocentas páginas a escorrer versos medíocres. Versos e finanças, é tudo a mesma coisa. O que ele quer é ser ministro. O que ele quer é dinheiro. Para isso conspira com Deus ou com o Diabo. Já esteve com a Seara – agora está com Salazar, lamenta os que passam fome por causa dum ideal. Lamenta e reza – ele, a mulher e os filhos, tudo de mãos postas e dezassete contos por mês no Banco Ultramarino.» *

* Raul Brandão, Memórias, III, Perspectivas e Realidades, Lisboa, s.d., p. 131.

O ano de 1925 encontra um Salazar politicamente activo como chefe e doutrinador do Centro Católico. Corresponde-se intensamente com os seus amigos de Coimbra, apela à participação eleitoral. Em 31 Janeiro, no Correio de Coimbra, semanário diocesano, abre uma série de sete artigos incitando os católicos à participação no próximo acto eleitoral.

Por iniciativa do Centro Católico, vai ao Funchal onde, a 4 e 6 de Abril, tem vários contactos políticos e profere duas conferências marcadamente doutrinárias : «Laicismo e liberdade» e «O bolchevismo e a Congregação».

Na sua primeira conferência o assunto não era apenas religioso. Era também político:

«Às imaginações do nosso tempo não as embriaga propriamente já a Liberdade: a nobreza antiga manteve sempre a sua desconfiança desta nova deusa; a burguesia enriqueceu loucamente á sua sombra e despreza-a no fundo como maquinismo fora de uso; a massa operária que não quer servir a Deus atende os falsos profetas, crê na revolução social, e espera, gritando-o aos ouvidos liberais, a ditadura do proletariado.»

Subordinava-se a segunda conferência de Salazar no Funchal ao título «O Bolchevismo e a Congregação». Logo de início situa as coordenadas do tema: «Eu só desejava surpreender no bolchevismo os seus princípios fundamentais, o seu programa de reforma, os seus processos de realização, e deduzir deles as secretas razões por que o bolchevismo não resolve o seu problema de reforma social. Visto que incorrigíveis ideólogos vêem nele a realização generalizada dos conselhos evangélicos ou lhe encontram uma flagrante parecença, desejava também mostrar-vos os princípios em que se baseia a Congregação e as condições em que se torna possível a sua organização comunista.» (…)

Conclusão desta conferência de Salazar: «Ensinai aos vossos filhos o trabalho, ensinai às vossas filhas a modéstia, ensinai a todos a virtude da economia. E se não poderdes fazer deles santos, fazei ao menos deles cristãos». Salazar não pára. De 14 a 19 de Junho, participa no X Congresso da Associação Luso-Espanhola para o Progresso das Ciências, realizado em Coimbra, e onde, no discurso inaugural, Salazar disserta sobre «Aconfessionalismo do Estado», em favor de um Estado forte e esclarecido por um querer doutrinário. É agora, notoriamente, o ideólogo e chefe de fila do catolicismo conservador, com estreitos contactos com a hierarquia da Igreja, mas sempre com uma postura que se pretendia suprapartidária, algo mais do que uma simples fracção política.

Em boa verdade a vida não lhe podia estar a correr mais de feição. Sem preocupações de custos apoiava financeiramente a família e – como refere Franco Nogueira: «Cuidava de si também. Mandou fazer uma casaca, no Damião, por 1 300$00, e ainda um fraque por 750$00; e para o peitilho da camisa de goma comprou uma abotoadura de ouro branco e brilhantes por 1 100$00. Cuidava do apetrechamento da sua casa do Vimieiro: melhorava as mobílias, adquiria serviços de porcelana e de cristais. Encomendou um capelo novo. E no final daquele mês de Setembro de 1925 fechara as suas contas com um saldo positivo de 18 650$53. Vivia com relativo desafogo, e confortavelmente.» *

*Franco Nogueira, ob. cit., p. 295.

No âmbito das amizades mais chegadas, Salazar permanecia na fidelidade a Cerejeira mas contava agora com a governanta Maria de Jesus, ainda conforme palavras de Franco Nogueira: «Único verdadeiramente íntimo – refere Franco Nogueira – continuava a ser o padre Cerejeira. Havia dez anos que habitavam os Grilos. Mas agora dera-se uma modificação doméstica, naquele Outono de 1925. Salazar despedira as duas criadas: a Maria da Encarnação e a Bárbara. Para as substituir, Cerejeira contratara uma governanta, a Maria de Jesus, indicada pelo Bispo de Lamego.».

No campo académico mantinha-se activo com tarefas para que era solicitada a sua competência. A 7 de Novembro: – Anotação a um acórdão do Tribunal Superior do Contencioso das Contribuições e Impostos – Na «Revista de Legislação e de Jurisprudência», n.º 2 287, Coimbra, 1925. – Anotação de «jurisprudência crítica» – No «Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra», n.º 71a 80, Coimbra, 1923-1925.

Menos bem na intervenção directa partidária, em 8 de Novembro de 1925 candidata-se às eleições para a VII legislatura pelo Centro Católico ao círculo de Arganil, voltando a não ser eleito. Mas agora não desiste. Assume até a vice-presidência da Comissão Diocesana de Coimbra do Centro.

1926 – A República. O fim

1 de Fevereiro. Revolta da escola Prática de Artilharia em Vendas Novas, dirigida pelos radicais Martins Júnior e alferes Lacerda de Almeida. Depois da prisão dos oficiais, o regimento comandado pelos sargentos dirigiu-se para o Seixal tendo ocupado o forte de Almada, donde dispararam contra Lisboa.

12 de Fevereiro. O general Gomes da Costa recusa o convite de Mendes Cabeçadas para dirigir o golpe militar que está a preparar.

Sábado, 27 de Março de 1926 Alerta do Grupo Seara Nova. A Esquerda, rotulada como intelectual, mostrava-se de tal modo preocupada que a Seara Nova promoveu, dois meses antes do 28 de Maio, uma «Semana contra o fascismo» e avançou com outras iniciativas de idêntico sentido. Na primeira linha desse combate, Raul Proença, em artigo inserido na edição de 6 de Março de 1926, sob o título «O fascismo e as suas repercussões em Portugal» que começava por dizer o seguinte:

«Dou como admitida a hipótese de ter sido o fascismo provocado por uma ameaça de convulsão bolchevista – embora saiba que, ao ele tomar conta do poder, já o socialismo moderado levara de vencida as exaltações dos extremistas. Dou ainda como admitida a extraordinária capacidade administrativa de Mussolini, e a formidável obra por ele realizada nas finanças e na moralidade pública – embora saiba também que a tendência para o equilíbrio orçamental já se vinha acentuando no exercício dos governos anteriores, que a melhoria foi precisamente mais lenta desde o advento de Mussolini, que nunca foi tão grande, como é natural, a corrupção política e financeira, e que a maior coroa de glória do fascismo – a redução do deficit dos caminhos-de-ferro –, longe de ser devida à dispensa dos 40 000 ferroviários, logo substituídos por uma milícia fascista que absorveu todas as anteriores despesas de pessoal e as superou, deve-se simplesmente ao facto puramente acidental de ter baixado o preço do carvão inglês e de terem sido praticados vários erros de administração que se hão-de fazer sentir no futuro.  Não preciso, para criticar o fascismo como sistema, de discutir a obra administrativa que por acaso tenha realizado um governo fascista. Há maneira de se multiplicarem por toda a parte os governos dessa natureza. Mas há igual facilidade em se multiplicarem os Mussolinis?»

Terça-feira, 25 de Maio de 1926. Gomes da Costa aceita a direcção do movimento militar, partindo para Braga.

Quarta-feira, 26 de Maio de 1926. Tem início em Braga (sessão solene no Teatro Circo) o Congresso Mariano com a presença do Cardeal Patriarca e do Núncio Apostólico. No dia seguinte realiza-se a peregrinação ao Santuário do Sameiro. Braga estava em festa.

O prenúncio era de fim. Cunha Leal, num discurso profético pronunciado no Bom Jesus de Braga, a 26 de Abril, dizia simbolicamente: «oiço o tinir das espadas e o tilintar das esporas».

A um jornalista da Época, na véspera, Gomes da Costa havia dito: «eu não conspiro, revolto-me!».

E revoltou-se!…

Pelas seis horas da manhã do dia 28 de Maio, dava-se a partir de Braga um levantamento militar liderado pelo general Gomes da Costa, que resultou num golpe de estado instaurando em Portugal uma ditadura.

Na manhã desse dia, o general Gomes da Costa divulgou duas proclamações. Na primeira dizia:

«Portugueses!

Para homens de dignidade e de honra, a situação política do País é inadmissível.

Vergada sob a acção de uma minoria devassa e tirânica, a Nação, envergonhada, sente-se morrer.

Eu, por mim, revolto-me abertamente.

E os homens de valor, de coragem e de dignidade que venham ter comigo, com as armas nas mãos, se quiserem comigo vencer ou morrer.

Às armas, Portugal!

Portugal, às armas, pela Liberdade e pela Honra da Nação!

Às Armas, Portugal!»

Gomes da Costa

General, Comandante em Chefe do Exército Nacional

Na segunda, Gomes da Costa reafirmava:

«Portugueses!

A Nação quer um Governo Nacional militar, rodeado das melhores competências, para instituir, na administração do Estado, a disciplina e a honradez que há muito perdeu.

Empenho a minha honra de soldado na realização de tão nobre e justo propósito. Não quer a Nação uma Ditadura de políticos irresponsáveis, como tem tido até agora. Quer um Governo forte, que tenha por missão salvar a Pátria, que concentre em si todos os poderes para, na hora própria, os restituir a uma verdadeira representação nacional, ciosa de todas as verdades – representação que não será de quadrilhas políticas – dos interesses reais, vivos e permanentes de Portugal.

Entre todos os corpos da Nação em ruína, é o Exército o único com autoridade moral e força material para consubstanciar em si a unidade duma Pátria que não quer morrer.

À frente do Exército Português, pois, unido na mesma aspiração patriótica, proclamo o interesse nacional contra a acção nefasta dos políticos e dos partidos, e ofereço a Pátria enferma a um Governo forte, capaz de opor aos inimigos internos o mesmo heróico combate que o Exército deve aos inimigos externos.

Viva a Pátria!

Viva a República!»

Gomes da Costa

General, Comandante em Chefe do Exército Nacional

A revolta de 28 de Maio de 1926 punha fim à primeira república portuguesa: dissolvia as instituições políticas democráticas, extinguia os partidos políticos e instaurava uma

ditadura militar.

No culminar de 14 anos, 8 meses e 25 dias; com 45 governos e 8 chefes de Estado, a I República sucumbia sem deixar grandes saudades. Foram muitos os seus erros e graves as suas práticas para ter, por esta altura, quem se preocupasse em mantê-la viva.

Com tanta tragédia a persegui-la e tanto quem lhe quisesse mal, a I República ficaria para a História como o regime parlamentar mais instável da Europa ocidental.

Portugal passaria a ser a república de António de Oliveira Salazar.

1926 – Salazar. O começo

Era a hora de Salazar.

O seu perfil de homem de poucos sorrisos, mas de seriedade impoluta, levavam as elites e algum povo, a rever-se em alguém que era o contrário da imagem do político parlamentar da I República. Porque era inegavelmente recto, inteligente, competente, rigoroso, cumpridor, exigente com todos a começar por si próprio, António de Oliveira Salazar era o Desejado, qual D. Sebastião do século XX.

Francisco Pinto da Cunha Leal, que foi reitor da Universidade de Coimbra entre 1924 e 1925, conheceu Salazar quando este era professor de Economia e Finanças em Coimbra, descreve-o nestes termos:

«Nascido em 1889 começou a cursar a Universidade de Coimbra com 21 anos e meio de idade, isto é com maturidade espiritual superior à da generalidade dos restantes caloiros. Esta circunstância, aliada à inferiorização material decorrente duma honesta e sadia pobreza, à origem pouco correntia da sua escolaridade, a um ingénito ensimesmamento anímico, a acentuadas dificuldades de expressionismo oratório e à imensidade do orgulho a que são atreitos certos solitários, afastou-o, radicalmente, das doces leviandades da boémia estudantil tradicional e acabou por transformá-lo num ser hipocondríaco e taciturno, aferrado ao estudo como única tábua para navegar num oceano de desconsolo íntimo.»

[…]

«Bisonho, avesso às fáceis relações com os contemporâneos de escola, naturalmente misógino, refugiado dentro do seu orgulho como um cágado dentro da concha protectora, conservou-se sempre um quase isolado, calcando, implacavelmente, os seus próprios sonhos com o cilindro de uma alma fria, tristemente despida das ilusões fagueiras da mocidade.

«Foi sempre assim: poucas amizades e nenhuns amores; exagero inconsciente do seu próprio valor; insensibilidade devida ao isolamento; desprezo absoluto por uma humanidade que o não compreendia e que nem sequer soubera atirar-lhe para os braços, num gesto espontâneo, a companheira com que, apesar de tudo, deve, às vezes, ter sonhado – a eleita do Senhor, descrita por Salomão no «Cântico dos Cânticos», com seus dois seios virginais, como duas cabrinhas saltitantes dos montes de Galaad.

[…]

«Era um homem hermético, metido consigo, mas com susceptibilidade de se abrir um pouco, não muito, quando conversávamos os dois. Meticuloso como professor, exigente, com tendência antes para a severidade austera do que para a benevolência temperada pela necessidade de elevação cultural do escol português, poderia talvez ser classificado como modelo de bons professores nos tempos ultrapassados do magister dixit.

[…]

«Faltava-lhe calor humano e, por isso, confinava a sua actividade docente dentro do conceito dum distanciamento altaneiro entre mestres e discípulos, como se aqueles prefigurassem deuses, vagamente desdenhosos, a descerem do alto do Olimpo até às planuras em que se andavam agitando uns míseros e mesquinhos mortais.» *

* Cunha Leal, As Minhas Memórias, volume III, Lisboa, 1968, pp.173-176.

Assim escrevia Cunha Leal nas suas Memórias em 1968. Falava sobre Salazar que tivera oportunidade de conhecer nos primeiros tempos da sua actividade governativa e que acompanhara durante anos. Era uma apreciação marcada pela visão de quem fora um opositor renhido de Salazar.

Navegando noutras águas, Franco Nogueira vem trazer um outro juízo sobre Salazar de quem fora ministro. Em 1971 publicou na revista Política, de que era director Jaime Nogueira Pinto, um breve texto onde transmitiu a sua visão de Salazar, como pessoa e como governante. Dizia: «Na sua extrema complexidade, Salazar foi acima de tudo uma vontade inquebrantável, com domínio constante e absoluto sobre todo o seu ser. Da sua energia íntima retirava toda a sua força. Sensível, nervoso, emotivo, permanecia contudo sempre sereno, frio, sem cóleras, desapaixonado, sem pressas, sem excitação, em particular quando em torno de si todos se mostravam incertos e perplexos. Nunca o abandonava a sua lucidez, que usava como método de penetração e conhecimento da realidade, nem jamais se obscurecia ou enfraquecia a sua capacidade de análise demorada, lenta, minuciosa, de que extraía conclusões e sínteses, arquivava-as de forma sistemática, e dava depois a sensação de haver reflectido durante séculos sobre cada assunto ou situação. Aderia e entregava-se a tudo quanto o cercasse em cada instante; cuidava de cada problema com uma absorção exclusiva e intensa, como se nenhum outro existisse e como se, para encontrar a melhor solução, tivesse à sua frente a eternidade. Criador da lei, era o seu primeiro escravo, e submetia-se-lhe como seu mais humilde servo. Defensor do Estado, não subordinava essa defesa a quaisquer outros critérios ou considerações; era glacial no tratamento e condução dos negócios públicos; e por acto de vontade calcava gostos pessoais, vencia emoções, suprimia ressentimentos, desconhecia ofensas. Escutava sem interromper, com atenção concentrada, e retinha com fidelidade quanto se lhe dizia; não se sentia afrontado com objecções ou ideias opostas; não era impressionável, nem influenciável; mas factos e argumentos alteravam a sua posição. Era intransigente nos princípios, mesmo que pudesse correr risco de destruição; mas era flexível na táctica e subtil na mudança de rumo; e dava à nova linha que prosseguisse uma nova construção lógica, de modo a não se contradizer nem desmentir. Considerava-se emanação genuína do povo, de cujos interesses se sentia universitário, e cujos sentimentos misteriosamente compreendia e avaliava. Era céptico e indiferente perante as elites. Delegava autoridade, e aguardava que cada um cumprisse o seu dever; mas não tinha no íntimo a segurança de que o fizessem. Não pedia favores, e não aceitava obséquios que lhe criassem dependências ou familiaridades. Interessava-se por tudo, e informava-se nos mínimos pormenores; e sabia em cada momento qual a posição política e pessoal de cada homem que contasse no País. Tinha acima de tudo um ângulo de visão só nacional.»

Cunha Leal e Franco Nogueira falam do mesmo homem. Do homem para quem a 1.ª  República pouco ou nada valia. Do homem que vai ser convidado a transformar Portugal numa República sem republicanos de 5 de Outubro de 1910.

Desses republicanos, Salazar nada quer. Eles cansaram. Ninguém os quer. Eles mudaram o regime mas não mudaram o país. A Monarquia tinha sido confusa. A 1.ª  República foi a confusão.

A nova República de António de Oliveira Salazar prometia ser diferente. E foi…

Durante quase meio século, tudo foi diferente no Portugal salazarista. Bem diferente…

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