REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Sobre o liquidacionismo de  ontem na América e de hoje  na Europa

Júlio Marques Mota

 Parte I

A propósito  do trabalho de Brad Delong sobre os liquidacionistas que marcaram as políticas na Grande Depressão, a propósito  dos liquidacionistas  que marcam as actuais políticas na Europa também – uma simples nota de leitura

Interessei-me muito pelo texto  de Brad Delong sobre o Liquidacionismo nos anos 30 e na Grande Depressão que iremos apresentar neste blog. O interesse surge,  por um lado porque gosto muito do autor no que se refere ao facto de ser um forte defensor de medidas de políticas macroeconómicas  contra-cíclicas nos anos 30 e, por outro, porque é um texto sobre um tema sobre o qual sempre me interessei, a crise de 1929, interesse esse que aumentou ainda mais com   o aparecimento da crise actual e com os contornos da demolição civilizacional que se prefigura como sendo  a acção pretendida pelas classes dominantes no poder quer ao nível dos Estados quer ao nível das Instituições Regionais e Mundiais, como BCE, Comissão Europeia, FMI, OMC etc  e que podemos resumir pela simples expressão: está em curso a demolição do Estado Providência dos países na Europa, está em curso a demolição do modelo social europeu que lhes estava subjacente e que deles também emanava.

O interesse pelo presente texto seria ainda maior pela analogia das posições defendidas pelos liquidacionistas de então, na crise de 1929, e as actualmente defendidas nos Estados Unidos e na Europa mas com uma grande diferença à partida: os economistas de então não dispunham das ferramentas de que se dispõe hoje e muito menos dos conhecimentos que se hoje se possui sobre as crises. Os economistas de então na opinião de Brad Delong, ter-se-ão enganado na perspectiva do que seria a crise, a Grande Depressão de 1929, que se estava a desenrolar à sua frente. Enganaram-se redondamente, viram-na como sendo uma crise de repetição, como as que já se tinham dado no século XIX e portanto respondiam com os fracos conhecimentos de que dispunham a uma crise de uma dimensão, de uma profundidade, completamente diferente daquelas que conheciam, as crises do século XIX, e que pensavam ser igual a esta, a de 1929. Se adicionarmos a isto a ausência de políticos à altura dos problemas de então, percebemos que só uma ruptura, criada com Roosevelt, seria capaz de procurar dar uma resposta correcta à crise e aqui os conhecimentos teóricos em Economia eram ainda praticamente os mesmos. Falta de conhecimentos teóricos e falta de políticos à altura estiveram pois na base das políticas incorrectas de resposta à crise de 29 ou na mais completa inacção governamental, por alternativa. Hoje, culpar a falta de conhecimentos teóricos como a explicação para a ausência de resposta adequada à crise só o ignorante mais absoluto o pode proclamar. O que podemos proclamar isso sim, é o nosso desprezo pela desonestidade mais que afirmada dos nossos economistas no poder, ou onde este se estabelece, nas instâncias onde este se define. Como simples exemplo veja-se o mea culpa do economista chefe do FMI, Olivier Blanchard, que depois de arrasados os países bálticos, declarava em Riga vivas à austeridade e vem agora declarar que houve engano no cálculo  dos multiplicadores nas suas projecções sobre os efeitos das políticas de austeridade impostas na Europa, porque… ignoraram nos seus modelos o que qualquer aluno de Economia, de antes de Bolonha e de Mariano  Gago no poder, bem aprendia desde o seu primeiro ano, ou seja que os multiplicadores variam no tempo e no espaço. Como assinala o  Washington Post muito recentemente  numa sua crónica sobre o mea culpa do FMI:

“O valor dos multiplicadores estava implícito nos  modelos de previsão do FMI e das autoridades nacionais – uma hipótese de base mais do que  uma variável que precisaria de  ser ajustada  com base nas circunstâncias especificamente nacionais  ou das suas peculiaridades próprias.

A caminharmos para uma crise que quase fez  em pedaços a zona euro, ou por outras palavras, nem Blanchard ou qualquer outro economista do  vasto exército de técnicos do  Fundo pensou em reexaminar se as hipóteses  importantes feitas sobre a  região e utilizadas nos seus modelos de cálculo  ainda estariam a ser válidas nos tempos de crise.

Que, sabe-se e confirma-se agora,  foi um grande erro. Os multiplicadores variam ao longo do tempo: eles podem ser pequenos   num país onde a economia está a crescer, as taxas de juros são normais e o sistema bancário funciona em boas condições. Como o presente trabalho o bem ilustra, os multiplicadores  ficam mais elevados se as taxas de juros são baixas, se a produção está em queda e se o sistema bancário está decrépito – condições que fazer com que todos, desde as  famílias aos investidores, estejam menos propensos a gastar e  este comportamento, por seu lado,  faz com que os efeitos de contracção da procura gerados pela politica governamental venham assim muito mais importantes em valor [do que os estimados inicialmente pelos respectivos decisores.]

Blanchard e Leigh deduziram  que  os  estimadores do   FMI que têm sido utilizados  trabalham   com  um multiplicador uniforme de 0.5, quando na verdade as circunstâncias da economia Europeia fazem com que  o multiplicador seja  bem próximo de 1.5, o que significado o seguinte: um corte na despesa pública de um euro custa ao país 1,50 euros de produção perdida, [ou seja,  de riqueza não criada] .”

Pessoalmente desde os estudos de antes de 1973 que aprendi isto. Simples, portanto, perceber qual o grau de forte desonestidade  intelectual dos nossos economistas de serviço mas esta lógica, e esta desonestidade, lamento dizê-lo ao meu amigo de há muito, A. M.S., inscreve-se na lógica liquidacionista dos anos 30 ou na lógica punitiva do poder de Berlim,  de Frankfurt, de agora, o que é a mesma coisa. Sobre a ciência económica e sobre os seus economistas-chefes, talvez valha a pena lembrar o prémio Nobel de 1991, Ronald Coase, quando ainda recentemente  afirma, do alto dos seus 102  anos: “numa época em que a economia  moderna requer um forte sistema de instituições  para coordenar o  funcionamento dos mercados e das empresas, (..) a redução da ciência económica a uma teoria dos preços  é altamente preocupante. É suicida (…) ignorar as influências da sociedade, da história, da cultura e da política sobre o funcionamento da economia.”  É suicida… mas é o que  se tem andado a fazer.

Quanto aos políticos, na incapacidade de olhar o real e de perspectivar o futuro, os de hoje talvez não fiquem a dever nada aos políticos de então e aqui subscrevemos as posições de Jacques Delors e de Helmut Schmidt, para quem a Europa vive uma crise de ausência  também de homens de Estado,  no sentido nobre desta expressão. E a conclusão é então bem simples: se muito mal servidos de políticos hoje e então, muito mais mal servidos de economistas  estamos agora, e esse é um dos dados mais importantes nas más respostas dadas à situação de crise que se atravessa actualmente, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos com efeitos de arrasto na economia mundial,   no mundo.

Ora tudo isto  nos remete  para a situação presente.  Nos Estados Unidos são as posições forçadas  pelo Tea Party e mais gente republicana, ultra-conservadora, posições que se sintetizam em nada fazer para enfrentar a crise ou de lhes aplicar medidas restritivas em período de crise para a agravar que se assemelham às políticas propostas pelos liquidacionistas. Esta  austeridade seria assim a terapia para a cura possível e desejável nas e das  economias em crise. Estas mesmas posições aparecem hoje na Europa e são a marca das políticas até agora defendidas e  impostas. As posições defendidas pelos responsáveis europeus no plano dos factos, não dão razões para esses mesmos factos, são igualmente equivalentes às dos liquidacionistas dos anos da Grande Depressão, a de 1929. Neste último grupo de europeus valerá apena citar o bando dos quatro, Durão Barroso, Jean-Claude Juncker, Mário Dragui, Rompuy, a chanceler alemã, Angela Merkel e ainda o homem do Bundesbank, tenha sido Axel Weber ou o Presidente de agora Jens Weidmann, antigo conselheiro de Madame Merkel.

Um dado curioso é que o texto de Brad Delong escrito entre 1989 e 1991 ganha hoje, portanto,  uma outra acuidade que possivelmente o seu autor estaria longe de pensar ser possível, na época em que o escreveu,  e ao lê-lo o seu trabalho dá-nos a impressão de estar a ler um qualquer jornal europeu que vai sair amanhã, o que francamente é dramático.

À primeira vista seria um texto ideal para colocar num blog, pelo menos a primeira parte, as primeiras oito a dez páginas. Mas a sua leitura deixa-nos uma sede por saber mais, obriga-nos a avançar e aí perdemos a ideia de que este poderia ser  um texto transponível para um blog, pelas dificuldades teóricas que levanta ao leitor. Trata-se de um texto para gente versada nestas matérias em que eu, pessoalmente, me considero apenas um aprendiz com alguns anos nisto. Mas faço parte do grupo dos teimosos que nem burros, quando estes normalmente “burros” não são muito e, portanto, pensei numa montagem que poderia não ter a sequência do autor mas que o clarificasse para ser digerível pelo leitor de formação média, certo de que alguma coisa se perde quando assim é, como muito bem no-lo ensinou Montesquieu. Foi o que fiz a partir das diversas versões disponíveis do texto que significam que o autor também teve a mesma preocupação e no entanto estamos a falar de uma edição ao nível do NBER.

(continua)

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