O PATO ALGEMADO – XVII – por Sérgio Madeira

O ESTRANHO CASO DO PASTOR ALEMÃO – O interrogatório

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João Paralelo de Sousa ficara  receoso, perguntando se ia ficar preso « É o mais certo», respondera secamente o Pais – «Porquê?». O inspector berrou-lhe «Ò homem você ainda pergunta? Um gajo que chega a Portugal dez anos antes de nascer e que aparece aqui e na Alemanha, como Senhora de Fátima, um pintas que ensina a falar com Deus Nosso Senhor em vinte lições… Cinquenta lições tive eu para tirar a carta de condução…» , « Isso é do meu irmão… – O inspector não ouviu ou fingiu não ouvir: e acrescentou: «- Um homem que é conhecido em Sobral de Monte Agraço como o “pastor alemão”…», « Posso explicar.» O Pais soltou uma casquinada de escárnio «- Ah pois pode., Espero bem que explique.»

 

 

Já no pequeno gabinete, todos sentados, o Pais tossicou e disse para o Filipe, como se o Paralelo ali não estivesse:

– Está a ver, Dr. Marlove… – quando lhe convinha, o Pais valorizava a modesta licenciatura de Filipe – a sua teoria, a tal invenção do sábio australiano, confirma-se.. As coisas não são o que parecem… – gritou na direcção da porta. – Ó Esteves! – o Esteves devia estar atrás da porta porque quase imediatamente bateu perguntando se podia entrar.. Era um homem pequeno, magro, e com ar pouco convencional, cabelos grandes, barba – ninguém o daria como agente da polícia. Entrou, cumprimentou os presentes e foi pôr-se atrás do Pais. Segredou-lhe ao ouvido. Foi uma explicação longa. O Pais pusera os óculos. Quando o Esteves acabou de segredar, assobiou e comentou.

– Dass! – olhou por cima dos óculos para Filipe e Marília e abanou a cabeça. Suspirou:

– Bem , ó senhor João … Triângulo…

– Paralelo de Sousa, Dr. João Paralelo de Sousa – disse o homem com ar agastado.

– Ou isso… Paralelo ou Triângulo, de Sousa ou de Melo, doutor ou aldrabão – o Pais ia ficando vermelho à medida que ia completando a frase – você não sai daqui enquanto não explicar como é que aparece aqui, vindo da Austrália…

– Da Áustria… – disse o Paralelo de Sousa a medo.

– Não me interrompa! Da Áustria ou da Austrália – quero que  a geografia se… – olhou para Marília, que seguia a cena de olhos muito abertos – Bem, o que quero saber é como é você chega a Lisboa dez anos antes de nascer.

O Paralelo de Sousa, pálido, titubeou:

– Menti na idade… tenho 65 anos.

– Ora bem – o inspector pareceu acalmar – E que mais mentiras contou? – Deu um murro na secretária – ou você conta tudo tim tim por tim, ou eu seja cego se o deixo sair daqui. Percebeu?

O homem disse em voz sumida:

– Percebi.

– Venha então de lá a história – voltou-se para Filipe que se mantinha prudentemente em silêncio – Para lhe ser franco, Dr. Marlove, nunca acreditei muito na teoria do Pralim VI. Mas o sacana do brabilónio é capaz de ter razão. Por debaixo do que parece é que está o que é… – recostou-se na cadeira – então ó doutor .da mula ruça – essa história ainda demora muito?

A seguir: a história de João e Franz.

No difícil caso do pastor alemão, chegou-se a um ponto crucial. O Dr. João Paralelo de Sousa passou à condição de principal suspeito do assassínio de Emanuel de Sousa Figueira, um homem, ou melhor, um comendador. que fizera fortuna no Canadá e que fora morto na sua moradia em Pero Pinheiro. Uma criada encontrou-o moribundo no jardim da residência. Segundo a criada declarara no depoimento à polícia, jorrando sangue da garganta, conseguira articular: « – O pastor… alemão.» Quando a polícia chegou, já com o Emanuel morto, o primeiro suspeito fora o velho Aristóteles um pastor alemão, que dormitava e olhara a brigada policial sem lhe encontrar interesse de maior. Bocejara e voltara a dormir. O médico legista logo ilibara Aristóteles – a ferida do senhor Emanuel, fora produzida por um objecto cortante. Um pastor da Igreja lueterana fora o suspeito seguinte. O tradutor da sua obra – «Como falar com Deus em vinte lições» era conhecido em Sobral de Monte Agraço como «o pastor alemão». Irmão gémeo do pastor luterano, foi apanhado em mentiras e está a ser interrogado na PJ. O Pato pode ter muitos defeitos, mas não viola o segredo de justiça. O processo está em fase de instrução. O Pato sabe tudo, mas nada diz. Na próxima semana talvez haja novidades. Por hoje vai contar-vos um caso verídico:

Marília lançara a bomba:

– Se em 1952, o senhor tinha cinco anos, agora deverá ter 65… Aqui no folheto, diz que o senhor tem 55… Após ter feito as contas com a ajuda dos dedos, o Pais resmungou:

– Lógico! – e voltando-se para Paralelo de Sousa – A verdade é como o Pralim VI da Brabilónia, está por debaixo da primeira camada do emprintingue. – e fazendo um gesto para suspender o diálogo enquaanto mastigava rapidamente o pastel de bacalhau, declarou:

– Isto vai continuar, mas é na judite!

– Não posso, tenho compromissos… – disse Paralelo de Sousa.

– Ai não pode? Tem compromissos? Pois vai ter de poder – o Pais estava a ficar colérico – Ou vem de sua vontade ou vem debaixo de prisão. Tem muita coisa a explicar.

.- Mas posso explicar aqui…

– Não. É lá que vai explicar tudo e perante um escrivão. Estes dois servem de testemunhas – voltou-se para Filipe e Marília – De acordo?

– De acordo!

Vieram em silêncio até ao Conde Redondo. Em silêncio é como quem diz – os roncos do inspector só pararam junto ao gradeamento do edifício da polícia. O Pais, estremnunhado, recuperou o seu ar carrancudo e berrou para o agente do piquete que espreitava para o banco de trás ocupado pelo inspector e por Paralelo de Sousa.

– Há algum problema, han?

– Nenhum, senhor inspector, tudo bem… – respondeu o subalterno com voz sumida.

Marília ia a arrancar para o parque de estacionamento, mas o inspector deteve-a e gritou para o agente que regressava ao seu cubículo:

– Venha cá!

– Sim, senhor inspector.

– Então você acha que está tudo bem? –

– È uma maneira de dizer, senhor inspector.

– É uma maneira estúpida de dizer.

– Sim, senhor inspector.

– Tudo bem é só nas telenovelas!

– …

– Aqui está tudo mal, percebeu!

O rapaz ficou em silêncio. – O Pais deu um berro:

– Ó seu chóriço, então não se pede as identificações?

– Pensei que fosse pessoal da casa.

– Quer dizer que você pensa… Vá lá. – deteve o gesto de Marília que procurava os documentos na sua malinha de mão. – Aqui o doutor é que tem de cumprir as formalidades.

João Paralelo de Sousa fez um ar alarmado:

– Vou ficar preso?

– É o mais certo.

– Porquê?

– Ò homem você ainda pergunta? Um gajo que chega a Portugal dez anos antes de nascer e que aparece aqui e na Alemanha, como Senhora de Fátima, um pintas que ensina a falar com Deus Nosso Senhor em vinte lições… Cinquenta tive eu para tirar a carta de condução…

– Isso é do meu irmão… – O inspector não ouviu ou fingiu não ouvir:

– Um homem que é conhecido em Sobral de Monte Agraço como o pastor alemão…

– Posso explicar.

– Ah pois pode., Espero bem que explique. – E fez sinal a Marília que seguisse para o interior do parque de estacionamento.

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