CARTA DE VENEZA – 42 – por Sílvio Castro

Os presidentes estadunidenses conhecidos por mim e as idéias sobre eles a partir da minha infância

O tema que tomou meu interesse para a realização desta “Carta de Veneza“ pode não ter uma clara importância, isto no plano geral, mas o terá naquele da minha formação pessoal e, em correspondência, com muito do espírito crítico assumido pela maioria dos brasileiros, a partir do final da II Grande Guerra, para com uma predominante línha fortemente imperialista demonstrada pela política internacional da potência que, mais que nunca, era então os USA.

O primeiro presidente que historicamente eu menino fixo com consciente interesse é Harry Spencer Truman, membro do Partido Democrático. Eleito vice-presidente de Frankilin Delano Roosevel em 1944, com a morte deste, no ano seguinte, assume a Presidência. Truman assume igualmente a responsabilidade moral pela autorização que dá ao lançamento da bomba atômica sobre Hiroxima e Nagasaki. Este ato extremo de uma violência jamis conhecida em tempos de guerra não será em momento algum destacado de sua figura pessoal..

A radicalidade da política internacional de Truman se confirma  por outros atos, entre os quais aquele da chamada Doutrina Truman que garantia o apôio estadunidense a todas as nações “ameaçadas pelo comunismo“, doutrina que se fez razão das posições de reacionarismo político no cenário internacional com o surgimento dos eslogans populistas de um fechado anti-comunismo. Atenuando essa ação internacional, Truman recolhe alguns frutos positivos com o Plano Marshal em favor da reconstrução da Europa. Eu menino ainda acompanhava os comentarios sobre a política de um presidente que intervinha em todas as partes do mundo, mesmo naquele espaço brasileiro. Porém, tudo isso e nem mesmo a dissidência surgida em seio ao próprio Partido Democrático contra a política interna do Presidente em exercício, não impediu que Truman não se transformasse no 33° presidente estadunidense, eleito que surpreendentemente foi para o cargo em 1948. A nova presidência Truman toma, de certa forma, uma linha de política internacional menos intervencionista. Isto não o impede porém de intervir militarnemte na Coréia, em 1950. Porém, de certa forma em contraposição, em 1951, intervém neste mesmo conflito destituindo o general D. Mac Arthur, disposto a uma ação militar contra a China popular, autora de uma intervenção ao lado dos norte-coreanos.

O presidente seguinte – e eu começava a deixar a minha infância – não representou para mim a função de curiosa atenção com que eu seguira o período Truman. Agora, de 1952 a 1960, acompanho a figura vagamente cinzenta, quase que apagada, de um presidente militar de carreira, pouco expressivo politicamente. Era assim como eu via a figura distante de Dwigth D. Eisenhower, general do exército da vencedora USA da II Guerra Mundial. Essa minha impressão da figura presidencial certamente não era a mesma da opinião política estadunidense, porque Eisenhower conquistou excepcionais adesões dos Grandes eleitores americanos, obtendo no seu primeiro governo votos de 83,24 deles, e 86,06 no eegundo.

Ao presidente visto sempre em imagem cinzenta, sudede um outro que de imagem enche de esperanças todo o mundo democrático: John F. Kennedy, eleito em 1960. Para os jovens de todo o mundo, Kennedy logo apareceu como uma lenda sem fim que se formava. Atos seus, como os relaciomantos de equilíbrio que soube tomar quanto a ameaça de Kruschv de instalar-se em Cuba em apôio da revolução de Fidel Castro e dali lançar os mísseis da União Soviética contra as costas USA, bem como no plano interno as medidas em favor de uma política maior de solidariedade social, tudo isso fazia do jovem Kennedy uma esperança para a paz mundial. Tudo isso se frustou com aquela espécie de golpe de Estado que foi o assassínato do Presidente em Dallas no dia 22 de novembro de 1963. Repetia-se, dessa maneira, a mesma violência que, em 1868, assassinou Abrahan Lincoln.

A morte de Kennedy leva à presidência seu vice, Lyndon B. Johnson, que seguindo a linha social kennedyana, depois de completado o período da presidência-provisória, vem eleito para o mandato presidencial em 1964, conquistando 90,33 dos votos dos Grandes eleitores. A política quase kennedyana da segunda presidência Johnson surpreendentemente será negada por uma estreita maioria que elege o republicano Richard Nixon como novo presidente USA. Nessa posição ele permanece por quase dois períodos presidenciais, pois em 1976 deve apresentar sua demissão, para evitar o impeachment que o ameaçava em face dos tantos escândalos de seu governo.

As nossas atenções quanto à política internacional já então não se concentrava sobre a ação daquela estadunidense. Todo o mundo está assumindo novas posições e alcançando novas conquistas, tanto no plano social, quanto naquele do desenvolvimento econômico de tantas áreas nacionais antes obscuras. A Europa assume novos contornos institucionais a partir da já estável CE, a Comunidade Européia. O espírito comunitário se propaga e em breve será uma situação importante também para os países da América do Sul, em modo especial quanto ao Brasil, que entretanto deve ainda superar definitivamente seu negativo período de domínio dos militares em detrimento dos civis..

Com o seu 39° presidente, Jimmy Carter, eleito em 1976 com apenas 55,20 dos votos dos Grandes eleitores, os USA assumem um posiçâo entre as nações de maior equilíbrio político e civil, bem vista pela mesma comunidade internacional. Entretanto isso não acontece igualmente quanto à política interna. O independente Carter, que conquistara a simpatia geral com a sua campanha eleitoral de alto nível moral e ético, a partir de determinado momento de seu governo começa a viver internamente um estágio diverso. Cedo os seus sucessos diplomáticos, em particular o restabelecimento das relações oficiais dos USA com a República Popular da China, bem como o estabelecimento da paz entre Egito e Israel e o acordo SALT-2 com a URSS, foram abalados e praticamente esquecidos, como consequência de um seu aparente neutralismo quanto à penetração soviética na África, a invasão do Afghanistan e a revolução islâmica no Iran. Mas tal onda de perda de simpatia de Carter em seio ao eleitorado americano se acentuou com o episódio do longo sequestro do pessoal da embaixada estadunidense no Teeran. A gente USA, em geral, via numa aparente fraqueza decisional do Presidente um sinal evidente de uma decadência americana enquanto potência hegemônica que sempre fora. Tudo isso leva à avassaladora vitória presidencial de um mediocre ator de Holywood, Ronald Reagan, republicano e defensor de um ideal capitalista extravangante, ativo e popular sempre nos seus dois mandatos presidenciais, o primeiro, de 1980; com a confirmação com o segundo, em 1984. A recuperada opulência dos USA sob Reagan, fator de um longo período de consumismo sem qualquer controle, possivelmente foi a base distante da crise finaceira vivida pelo país a partir de 2007, crise que contagiou grande parte do mundo. Enquanto isso, o desprezado Jimmy Carter crescia sempre mais como personalidade moral diante da comunidade internacional. Por isso mesmo, a partir de determinados momentos difíceis para a política nacional, ele vem chamado por diversos presidentes a representar os interesses melhores dos USA no concerto mundial, tornando-se com essas ações um dos mais acreditados embaixadores itinerantes americanos. Ele aplicava nessas suas missões diplomáticas os princípios que o levaram a criar na sua natal Atlanta o Carter Center, sempre ati vo com o objetivo de promover a paz e os direitos humanos no mundo. Por tudo isso, Jimmy Carter recebeu, em 2002, o Prêmio Nobel pela paz.

A política de Reagan tem um seguimento lógico na presidência de George H. W. Bush, mas sofre uma revolucionária modificação com os dois períodos presidenciais do democrático e liberal Bill Crinton, no grande período de 1992 a 2000. Crinton, figura de democrático que recompõe aquela tradição que vinha de Kennedy, propõe e em algumas oportunidades consegue conduzir a vida estadunidense a uma melhor integração com o mundo moderno. Suas lutas civis são intensas, mas já no final de seu segundo mandato a anterior adesão que as mesmas suscitavam muito decai. A União dos Estados Unidos da América do Norte retornará em breve a uma posição de ostensiva potência econômica e também militar, ainda que cedo se poderá verificar que a comunidade internacional já não recebia com a antiga passividade a tomada de tais posições. O governo de Bush junior, começado depois da caída do Muro de Berlim, em 1989, e o consequente fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, aparentemente entregava aos USA a condição de única potência mundial. Mas cedo, tal atmosfera se mostra muito diversa, principalmente pelo aparecer das novas forças derivadas das inovações conquistadas pela Cina e pela Índia.. Quando George W. Bush começa o seu segundo mandato, em 2004, os USA não são mais a única potência mundial. Ao lado da crescente Comunidade dos Países Europas, agora aparece no amplo quadro do equilíbro mundial evidentes novas potências, em particular aquelas dos países componentes do grupo BRIC (Brasil, Rússia, India e China).

A mudança do quadro internacional conduz o povo americano a rever a própria adesão concedida a Bush junior, que termina o seu segundo mandato, em 2008, em clara decadência quanto ao seu anterior prestígio nacional.

Os USA estavam por realizar neste mesmo 2008 um ato de absoluta revolução civil.

Neste momento histórico vem eleito Presidente, Barack Obama. Assim, o universo estadunidense dava um grande salto verso a melhor modernidade nacional: com Obama o povo americano elege o seu primeiro presidente de cor. Assim fazendo, juntamente com a escolha revolucionária, trazia para a guia do País um estadista de alto nível, reconhecido e acolhido por toda a comunidade internacional. Com Obama, os Usa entram com mais clareza no rol das nações, sem exasperadas pretensões de domínio, nem político e nem econômico. Trata-se de uma possível nova força do país, para os seus nacionalistas aparentemente mais fraco, mas para todo os outros, ideal potência verdadeiramente democrática. Por tudo isso e mais outras razões civis, Barack Obama, como Jimmy Carter, recebe no seu primeiro mandato presidencial o Prêmio Nobel da paz.

Tudo isso se reforça ainda mais com a surpreendente, para  muitos, reeleição de Obama em 2012.

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