Os mercados são hoje os donos e as razões de tudo. Não os mercados semanais, as feiras, o comércio comum. Quando se fala de mercados deve entender-se os templos da alta finança, os casinos onde se aposta com a vida das pessoas, os antros da trapaça.
Mas será que os mercados são gente, os mercados falam, têm um rosto, uma voz única?
Há quem diga que sim e quem o afirma é pessoa de bem para os mercados, ele representa os seus interesses, interpreta as suas conveniências, decide segundo a sua vontade. Digamos que é uma espécie de medium, mal comparado, é certo, porque estes intermedeiam conversas com falecidos e, como percebemos a cada instante, os mercados estão vivos e recomendam-se. Falo-vos de Mário Draghi, presidente do Benco Central Europeu, essa entidade que proclama a “independência” como um dogma, criado à imagem e semelhança do Banco Central Alemão e que cuida do euro como este geria o seu antecessor, o marco. O senhor Dragui é italiano, o que aqui não interessa para nada porque a sua pátria é o Goldman Sachs, o banco com sede nos Estados Unidos, que na verdade governa a União Europeia através de infiltrados nos principais centros de decisão, nada mais natural numa instituição em que o presidente, o senhor Lloyd Blankfein, se considera “um banqueiro a fazer o trabalho de Deus”. Digamos que os seus enviados serão profetas, anjos, apóstolos, talvez um teólogo possa ajudar a esclarecer esta dúvida.
O senhor Dragui e outros apóstolos, digamos assim, do Goldman Sachs instalados seja na presidência do BCE, na chefia do executivo de Itália, no Banco Central da Grécia, na venda a retalho das empresas públicas portuguesas, governam de facto e não são eleitos, subvertendo o princípio fundamental da democracia. Repare-se que todos os governos da União Europeia, com exceção parcial do alemão, prestam vassalagem ao BCE, que não vai a votos em lado nenhum.
Foi então o senhor Dragui quem numa recente conferência de imprensa mandou um jornalista que se lhe dirigiu fazendo o que era suposto estar ali a fazer, a interrogá-lo, a ir perguntar pela resposta “ao mercado”.
É verdade que lemos e treslemos todos os dias peças jornalísticas citando “fontes dos mercados”, seja lá isso o que for, mas sabemos de fonte segura, a do bom senso, que nem o mais subserviente jornalista da alta finança nem a mais bem paga agência de comunicação ao serviço da banca e correlativos tem o dom de perguntar seja o que for ao mercado. Porque este, seguindo ordeiramente a analogia do senhor Blankfein, não tem rosto a exemplo de Deus e ainda que exerça os seus poderes tendencialmente através da política única, do pensamento único, do governo único, que se saiba ainda não tem voz única. Mais ou menos na mesma altura em que o senhor Dragui assegurava que a “austeridade não volta atrás, vai continuar”, o presidente da Zona Euro, da saída, é certo, o senhor Juncker, reconhecia que o afunilamento na austeridade “está errado”.
O que o senhor Dragui ordenou ao jornalista que o interrogou foi uma impossibilidade, uma fuga ao esclarecimento, uma grosseria, uma manifestação de arrogância própria de alguém que não tem que prestar contas à plebe, sendo que esta, quando se trata de jornalistas, também sabe por experiência própria, naquele contexto, que se não comer e calar não será nos seus administradores e patrões que encontrará solidariedade – por outras palavras, falar pode mas deixará de comer.
A pergunta feita pelo jornalista nem era incómoda, relacionava-se com as supostas melhorias da situação na Europa, bastava ligar a resposta automática.
Da não resposta do senhor Dragui resultam, contudo, duas conclusões: dessas coisas não fala o presidente do BCE, fala “o mercado”; e o presidente do BCE só responde quando muito bem lhe apetecer. Nada mais compreensível quando se está acima da democracia.
