EDITORIAL – ANTÓNIO COSTA, ALTERNATIVA A SEGURO?

Imagem2Numa intervenção no programa Quadratura do Círculo, da SIC -Notícias, António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, produziu críticas aceradas â actual direcção do Partido Socialista. “pode-se criticar o passado ou pode-se elogiar o passado, não se pode é fingir que o passado não existe”. Ao pretender demarcar-se do passado recente e do exercício governativo de José Sócrates, António José Seguro deixou o partido sem margem de manobra, “sem capacidade de confrontação” para usarmos a expressão de Costa. Considerado por muitos o líder da oposição interna ao secretário-geral, António Costa, não avança com uma ofensiva clara contra gente que de socialista só usa o nome. Uma prudência que seria louvável se não nos levasse à convicção de que é excessiva. Será que António Costa alguma vez dará o passo que todos esperam que dê?

Passa hoje o 79º aniversário da revolta da Marinha Grande. Contrariando a estratégia da central sindical, os activistas locais criaram uma estrutura de democracia directa – um soviete – e, durante grande parte do dia 18 de Janeiro de 1934, a vila da Marinha Grande foi uma ilha de liberdade num país dominado por uma ditadura que iria durar mais 40 anos.

O que fez Salazar, destruindo a Constituição da República e criando preceitos constitucionais à medida do seu projecto autoritário e anti-popular, estão estes senhores do executivo de Passos Coelho a fazer, rasgando a Constituição. Mas, enquanto Salazar o fez num contexto histórico favorável à progressão do fascismo, esta gente está a actuar num quadro supostamente democrático, usando o voto popular para destruir os direitos que o povo recuperou após a Revolução de Abril. Os «donos de Portugal» são os mesmos, bem o sabemos. Mas a qualidade dos seus lacaios piorou. Entre Salazar e Passos Coelho, apesar do vídeo em que vemos o rosto de Pedro assumindo as feições de António, há um fosso que separa um reaccionário, católico, de má índole, mas inteligente, de um reaccionário estúpido e incapaz. Como está a acontecer em muitos restaurantes, a qualidade do serviço baixou.

4 Comments

  1. Houve tempo em que pensei que António Costa era o homem certo para Secretário-Geral do PS. Quando o Presidente da Câmara da Amadora foi apeado da presidência da FAUL, Raposo de apelido, por uma lista apoiada por António Costa, eu próprio lhe disse que me tinha envolvido nessa luta na esperança de que ele avançasse para Secretário-Geral. Sorriu e não me disse nem sim nem não. Logo de seguida percebi: a traição aos que se envolveram com a intenção de varrer uns tantos do poder no PS, sempre os mesmos e que ainda ali continuam, foi consumada com a conciliação acordada, nas nossas costas, com a lista derrotada. Perestrello, pelo menos, teve coragem para nos dar conta dessa traição.
    Meus Caros, hoje penso que a eleição de António Costa para Secretário-Geral do PS só serviria para atrasar o processo de limpeza necessário para levar à eliminação desta nova classe política -distribuída por quase todos os partidos representados na AR. Mais capacitado que António José Seguro, será; o Primeiro-Ministro de que Portugal e os portugueses necessitam (exceptuando os plutocratas) não é seguramente António Costa. É esta a minha opinião.
    Que o pai, Orlando Costa, de quem eu era amigo, me perdoe, se é que existe o outro mundo e ele se pode aperceber do que neste se passa!

    1. Como sabes, António, a minha relação de amizade com o Orlando da Costa era grande, apesar das diferenças ideológicas. Um outro António, que também conheces, amicíssimo do Orlando, tem uma confiança muito grande na honestidade política do António Costa. Tudo é relativo e nada o é mais do que a honestidade política de um político de carreira. Pelo que tenho podido observar na conduta política do actual presidente da Câmara, só dará um passo em frente quando isso puder ser feitp com segurança. E não será cobardia, mas puro calculismo. Como sabes, os filhos não herdam por inteeiro qualidades (e defeitos) dos pais.

  2. Carlos
    Não está em causa a honestidade do António Costa, eu não teria dúvidas em confiar-lher a minha carteira. Mas não é disso que se trata, como bem sabes.
    O que me interessa é encontrar alguém que tenha condições para conduzir os destinos do país, pessoa que terá de ter, para além da honestidade (o que significa que não rouba, que não é corrupto, como o António Costa garante), coragem para falar verdade aos portugueses e encontrar caminhos que nos levem a bom porto, caminho esse que não será percorrido por iluminados mas com a maioria dos portugueses, de modo a construir um país de que nos orgulhemos, um país com justiça, onde a palavra solidariedade não sirva apenas para ilustrar um discurso mas que seja uma realidade que permita construir um país onde as oportunidades sejam iguais para todos e que o seu trabalho dê frutos de que também venham a usufruir. Necessitamos de alguém que saiba construir uma acção colectiva em Portugal.
    A liberalização da economia é hoje uma realidade, mas esta liberalização, que tem de ser controlada, não pode pôr em causa a integração social e nacional.
    Temos de encontrar forma de defender os valores que contribuem para a possibilidade das pessoas serem felizes e, neste momento, não há nennhum partido político em Portugal que seja capaz de o fazer, mesmo com António Costa à frente do PS, António Costa esse que apenas é capaz (ou tenta ser capaz) de construir o seu futuro político, não o futuro dos portugueses.
    É uma discussão que tem de ser colectiva e que não cabe num comentário.
    Abraço

    1. Como sabes, António, não acredito na social-democracia como via da instauração do socialismo. O Partido Socialista anunciou-se em 1973 como defensor desses valores que advogam a tomada do poder sem violência. Não acredito nessa via, mas entendo que é respeitável. O que já não se pode respeitar é que um partido que tantos militantes agregou, tenha, sempre que foi poder (e sem excluir os governos de que Mário soares foi responsáavel) usado de uma prática neo-liberal. Portanto, o debate necessário é entre os militantes do Partido – os que a ele aderiram por crer no Socialismo e na via social-democrata para o atingir, e aqueles que aderiram por concordarem com a prática dos governos socialistas. Digamos que a discussão é entre os que defendam o punho cerrado e os que preferem a rosa como logótipo – entre o vermelho e o cor-de-rosa – entre o socialismo e o capitalismo. Há dois partidos (ou mais) dentro do PS.

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