SOBRE O LIQUIDACIONISMO DE ONTEM NA AMÉRICA E DE HOJE NA EUROPA
Por Júlio Marques Mota
A propósito do trabalho de Brad Delong sobre os liquidacionistas que marcaram as políticas na Grande Depressão, a propósito dos liquidacionistas que marcam as actuais políticas na Europa também – uma simples nota de leitura
Parte I
Interessei-me muito pelo texto de Brad Delong sobre o Liquidacionisnmo nos anos 30 e na Grande Depressão que iremos apresentar neste blog. O interesse surge, por um lado porque gosto muito do autor e, por outro, porque é um texto sobre um tema sobre o qual sempre me interessei, a crise de 1929, interesse esse que aumentou ainda mais com o aparecimento da crise actual e com os contornos de demolição civilizacional que se prefigura como sendo a acção pretendida pelas classes dominantes no poder quer ao nível dos Estados quer ao nível das Instituições Regionais e Mundiais, como BCE, Comissão Europeia, FMI, OMC etc e que podemos resumir pela simples expressão: está em curso a demolição do Estado Providência dos países na Europa, está em curso a demolição do modelo social europeu que lhes estava subjacente e que deles também emanava . O interesse pelo presente texto seria ainda maior pela analogia das posições defendidas pelos liquidacionistas de então, na crise de 1929, e as actualmente defendidas nos Estados Unidos e na Europa. Nos Estados Unidos são as posições forçadas pelo Tea Party e mais gente republicana, ultra-conservadora, posições que se sintetizam em nada fazer para enfrentar a crise ou de lhes aplicar medidas restritivas em período de crise para a agravar. Esta austeridade seria assim a terapia para a cura possível e desejável nas e das economias em crise. Estas mesmas posições aparecem hoje na Europa e são a marca das políticas até agora defendidas e impostas. As posições defendidas pelos responsáveis europeus no plano dos factos, não da razões para esses mesmos factos, são igualmente equivalentes às dos liquidacionistas dos anos da Grande Depressão, a de 1929. Neste último grupo de europeus valerá apena citar o bando dos quatro, Durão Barroso, Jean-Claude Juncker, Mário Dragui, Rompuy, a chanceler alemã, Angela Merkle e ainda o homem do Bundesbank, tenha sido Axel Weber ou o Presidente de agora Jens Weidmann, antigo conselheiro de Madame Merkel.
Um dado curioso é que o texto de Brad Delong escrito entre 1989 e 1991 ganha hoje, portanto, uma outra acuidade que possivelmente o seu autor estaria longe de pensar ser possível, na época em que o escreveu,
À primeira vista seria um texto ideal para colocar num blog, pelo menos a primeira parte, as primeiras oito a dez páginas. Mas a sua leitura deixa-nos uma sede por saber mais, obriga-nos a avançar e aí perdemos a ideia de que este poderia ser um texto transponível para um blog, pelas dificuldades teóricas que levanta ao leitor. Trata-se de um texto para gente versada estas matérias em que eu, pessoalmente, me considero apenas um aprendiz com alguns anos nisto. Mas faço parte do grupo dos teimosos que nem burros, quando estes normalmente “burros” não são muito e, portanto, pensei numa montagem que poderia não ter a sequência do autor mas que o clarificasse para ser digerível pelo leitor de formação média, certo de que alguma coisa se perde quando assim é, como muito bem no-lo ensinou Montesquieu. Foi o que fiz a partir das diversas versões disponíveis do texto que significam que o autor também teve a mesma preocupação e no entanto estamos a falar de uma edição ao nível do NBER.
Deparei-me com versões draft diferentes do mesmo texto a denotar que mesmo o autor terá tido algumas dificuldades em tornar o texto claro para o leitor médio que este o site NBER consulta. Trata-se de um texto longo e nem sempre muito claro porque também é bem evidente para quem anda nestas coisas que em certos casos o autor precisava de muito mais espaço para escrever e explicar do que aquele que eventualmente dispunha para dizer o que nos pretenderia transmitir.
Primeira referência do texto, este pretende ser uma crítica aos neoliberais, uma critica quer à validade dos seus projectos que dominam a investigação nas Universidades quer ainda ao nível da honestidade intelectual dos mesmos quando os compara, e depreciativamente, com os economistas sérios que se enganaram rotundamente durante a crise de 1929. São três a quatro passagens sobre este tema mas é-nos suficiente a referência logo nas primeiras linhas aos projectos de investigação dos anos 90 em teoria dos ciclos da actividade económica. Na mesma linha de pensamento, uma ou outra referência ao empenho com que as pessoas se debruçavam sobre as tarefas e os desafios a resolver, de uma geração a outra, da dos neoliberais de agora aos economistas dos anos 30 que se enganaram redondamente nas suas sugestões de política económica mas que eram sérios nas posições assumidas face às ferramentas de política económica de que na época se dispunha.
Segunda referência, o autor sublinha a pobreza de instrumentos de análise em política económica que os economistas tinham na época e sublinhe-se que estamos antes da revolução keynesiana e este deveria ser o terreno de partida para uma análise crítica dos economistas de então. Por outras palavras diríamos que em termos de política económica temos um tempo, o tempo antes de Keynes, e um outro tempo, o tempo da pós-Keynes e só assim é que se pode estudar a história do pensamento económico com alguma seriedade.
Crise económica em 1929, crise económica em 2012 Tempos muito diferentes a dar-nos perante problemas equivalentes capacidades de resposta completamente diferentes. Desse ponto de vista estamos perante um texto fabuloso e lê-lo, parece quase que com a diferença de cerca de 80 anos estamos a ler a descrição da realidade de hoje e não a de então. Estranho pesadelo seria pós Keynes inimaginável e é mesmo muito dramático que o mesmo discurso liquidacionista se presencie hoje e de forma ainda bem mais violenta e dogmática que ontem. Haveremos de enriquecer mas para isso é necessário primeiro empobrecer, dir-nos-á numa frase lapidar um homem de uma enorme pobreza intelectual, como é o caso de Passos Coelho, mas este discurso atravessa hoje a Europa vergada ela ao peso da austeridade e dos muitos milhões de desempregados, para além dos muitos mais milhões em situação de quase precariedade absoluta. Esse mesmo discurso transborda nas declarações do antigo conselheiro de Angela Merkel, promovido à direcção do Bundesbank, Jens Weidmann, transborda nas declarações dos dirigentes políticos europeus de que a via para o crescimento passa pela austeridade à escala do continente, uma vez que a crise resulta agora da existência de Estados gastadores, de estados esbanjadores que precisam portanto de fazer uma cura de emagrecimento nos seus consumos produtivos e improdutivos e nas “gorduras do Estado” para assim recuperarem a boa forma e a trajectória de crescimento de antes da crise e sem os defeitos do crescimento de então.
