SALAZAR E A I REPÚBLICA – 61 – por José Brandão

1926 – A República. O fim

1 de Fevereiro. Revolta da escola Prática de Artilharia em Vendas Novas, dirigida pelos radicais Martins Júnior e alferes Lacerda de Almeida. Depois da prisão dos oficiais, o regimento comandado pelos sargentos dirigiu-se para o Seixal tendo ocupado o forte de Almada, donde dispararam contra Lisboa.

12 de Fevereiro. O general Gomes da Costa recusa o convite de Mendes Cabeçadas para dirigir o golpe militar que está a preparar.

Sábado, 27 de Março de 1926 Alerta do Grupo Seara Nova. A Esquerda, rotulada como intelectual, mostrava-se de tal modo preocupada que a Seara Nova promoveu, dois meses antes do 28 de Maio, uma «Semana contra o fascismo» e avançou com outras iniciativas de idêntico sentido. Na primeira linha desse combate, Raul Proença, em artigo inserido na edição de 6 de Março de 1926, sob o título «O fascismo e as suas repercussões em Portugal» que começava por dizer o seguinte:

«Dou como admitida a hipótese de ter sido o fascismo provocado por uma ameaça de convulsão bolchevista – embora saiba que, ao ele tomar conta do poder, já o socialismo moderado levara de vencida as exaltações dos extremistas. Dou ainda como admitida a extraordinária capacidade administrativa de Mussolini, e a formidável obra por ele realizada nas finanças e na moralidade pública – embora saiba também que a tendência para o equilíbrio orçamental já se vinha acentuando no exercício dos governos anteriores, que a melhoria foi precisamente mais lenta desde o advento de Mussolini, que nunca foi tão grande, como é natural, a corrupção política e financeira, e que a maior coroa de glória do fascismo – a redução do deficit dos caminhos-de-ferro –, longe de ser devida à dispensa dos 40 000 ferroviários, logo substituídos por uma milícia fascista que absorveu todas as anteriores despesas de pessoal e as superou, deve-se simplesmente ao facto puramente acidental de ter baixado o preço do carvão inglês e de terem sido praticados vários erros de administração que se hão-de fazer sentir no futuro. Não preciso, para criticar o fascismo como sistema, de discutir a obra administrativa que por acaso tenha realizado um governo fascista. Há maneira de se multiplicarem por toda a parte os governos dessa natureza. Mas há igual facilidade em se multiplicarem os Mussolinis?»

Terça-feira, 25 de Maio de 1926. Gomes da Costa aceita a direcção do movimento militar, partindo para Braga.

Quarta-feira, 26 de Maio de 1926. Tem início em Braga (sessão solene no Teatro Circo) o Congresso Mariano com a presença do Cardeal Patriarca e do Núncio Apostólico. No dia seguinte realiza-se a peregrinação ao Santuário do Sameiro. Braga estava em festa.

O prenúncio era de fim. Cunha Leal, num discurso profético pronunciado no Bom Jesus de Braga, a 26 de Abril, dizia simbolicamente: «oiço o tinir das espadas e o tilintar das esporas».

A um jornalista da Época, na véspera, Gomes da Costa havia dito: «eu não conspiro, revolto-me!».

E revoltou-se!…

Pelas seis horas da manhã do dia 28 de Maio, dava-se a partir de Braga um levantamento militar liderado pelo general Gomes da Costa, que resultou num golpe de estado instaurando em Portugal uma ditadura.

Na manhã desse dia, o general Gomes da Costa divulgou duas proclamações. Na primeira dizia:

«Portugueses!

Para homens de dignidade e de honra, a situação política do País é inadmissível.

Vergada sob a acção de uma minoria devassa e tirânica, a Nação, envergonhada, sente-se morrer.

Eu, por mim, revolto-me abertamente.

E os homens de valor, de coragem e de dignidade que venham ter comigo, com as armas nas mãos, se quiserem comigo vencer ou morrer.

Às armas, Portugal!

Portugal, às armas, pela Liberdade e pela Honra da Nação!

Às Armas, Portugal!»

Gomes da Costa

General, Comandante em Chefe do Exército Nacional

Na segunda, Gomes da Costa reafirmava:

«Portugueses!

A Nação quer um Governo Nacional militar, rodeado das melhores competências, para instituir, na administração do Estado, a disciplina e a honradez que há muito perdeu.

Empenho a minha honra de soldado na realização de tão nobre e justo propósito. Não quer a Nação uma Ditadura de políticos irresponsáveis, como tem tido até agora. Quer um Governo forte, que tenha por missão salvar a Pátria, que concentre em si todos os poderes para, na hora própria, os restituir a uma verdadeira representação nacional, ciosa de todas as verdades – representação que não será de quadrilhas políticas – dos interesses reais, vivos e permanentes de Portugal.

Entre todos os corpos da Nação em ruína, é o Exército o único com autoridade moral e força material para consubstanciar em si a unidade duma Pátria que não quer morrer.

À frente do Exército Português, pois, unido na mesma aspiração patriótica, proclamo o interesse nacional contra a acção nefasta dos políticos e dos partidos, e ofereço a Pátria enferma a um Governo forte, capaz de opor aos inimigos internos o mesmo heróico combate que o Exército deve aos inimigos externos.

Viva a Pátria!

Viva a República!»

Gomes da Costa

General, Comandante em Chefe do Exército Nacional

A revolta de 28 de Maio de 1926 punha fim à primeira república portuguesa: dissolvia as instituições políticas democráticas, extinguia os partidos políticos e instaurava uma

ditadura militar.

No culminar de 14 anos, 8 meses e 25 dias; com 45 governos e 8 chefes de Estado, a I República sucumbia sem deixar grandes saudades. Foram muitos os seus erros e graves as suas práticas para ter, por esta altura, quem se preocupasse em mantê-la viva.

Com tanta tragédia a persegui-la e tanto quem lhe quisesse mal, a I República ficaria para a História como o regime parlamentar mais instável da Europa ocidental.

Portugal passaria a ser a república de António de Oliveira Salazar.

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