(Continuação)
A questão religiosa reabrira-se com o caso das Irmãs de Caridade, autorizadas
a instalar-se em Portugal — o que gerara acesa controvérsia entre 1858 e 1862 —, e com o regresso da Companhia de Jesus cuja presença, até no sistema de ensino, crescera significativamente nos anos subsequentes. A Igreja, com o seu passado obscurantista e inquisitorial, sempre associada às classes tradicionalistas e às forças de resistência à mudança, particularmente influente nos meios rurais, será vista como um obstáculo sem o derrube ou a neutralização do qual não seria possível o advento dos novos tempos que a República prometia.
O republicanismo português afirmar-se-á também integrando na sua doutrina
uma forte componente nacionalista e patriótica, explorada com evidente eficácia logo em 1880, a pretexto das comemorações camonianas. Tanto mais que as circunstâncias da época criarão muitas situações e darão bastos argumentos para plasmar na monarquia a ideia de decadência da pátria, humilhada pelos ingleses e incapaz de manter a herança colonial legada pelas gerações anteriores. Ultrapassado e pressionado na partilha de África pela voracidade de potências como a França e a Inglaterra, ou por países emergentes como a Bélgica e a Alemanha, Portugal terá dificuldade em defender o que considerava serem os seus direitos históricos sobre vastas regiões desse continente, sobretudo após a Conferência de Berlim. As colónias
tornar-se-ão um factor de instabilidade governativa e de agitação político-partidária, o que virá a culminar na crise nascida do Ultimato britânico, de Janeiro de 1890, a qual contribuirá, decisivamente, para a expansão do partido republicano e o enfraquecimento do regime monárquico.
O 31 de Janeiro de 1891, apesar da desorganização e consequente fracasso
— houve uma espécie de tentativa ingénua de repetição do pronunciamento de
1820 —, vem evidenciar o peso ganho pelas correntes que defendiam a via revolucionária ou político-militar para o derrube do regime, reforçadas pela criação da Carbonária em 1896. Factos que gerariam, aliás, um período de confusão e de agravamento das divisões entre os republicanos. Porém, a simétrica crise dos partidos rotativos, a fuga para a frente do regime num sentido autoritário e autodefensivo — que atingirá a sua expressão mais acabada com João Franco —, o acumular de escândalos, ou assim tornados, a propósito de questões como a renovação da concessão dos tabacos, os adiantamentos à Casa Real e a agitação estudantil, são outros tantos elementos que ajudaram a engrossar essas facções defensoras da revolução violenta e culminaram no regicídio (1908).
Mas mesmo antes de se atingir este clímax, começara a formar-se, nessa fase pós-Ultimato, um clima de Finis Patriae — como dizia Guerra Junqueiro —, bem ilustrado pelo que este mesmo autor escrevia em 1898 no texto final que acompanha o seu poema Pátria, onde a situação do país aparecia assim retratada: «Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas ,feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas […] Um clero português, desmoralizado e materialista, liberal e ateu, cujo Vaticano é o ministério do reino, e cujos bispos e abades não são mais do que a tradução em eclesiástico do fura-vidas que governa o distrito ou do fura- urnas que administra o concelho; e ao pé deste clero indígena, um clero jesuítico, estrangeiro ou estrangeirado, exército de sombras, minando, enredando, absorvendo, pelo púlpito, pela escola, pela oficina, pelo asilo, pelo convento e pelo confessionário […] Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo […] Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro com duas metades do mesmo zero […] Um partido republicano, quase circunscrito a Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da monarquia […], um partido composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de barricada, com um estado-maior pacífico e desconexo de velhos doutrinários moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores, homens de boa-fé [… Instrução miserável, marinha mercante nula, indústria infantil, agricultura rudimentar; Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do para365 sitismo de si próprio […] E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares, — tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc. etc., — teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís, cujo reinado de paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos terciários.» O retrato do país traçado por Junqueiro ainda tem mais passagens igualmente incisivas. E convenhamos que não se mudou muito no que concerne às exclamações do pessimismo, sem falar de outros aspectos…. Mas perante este panorama que esperança restava? Que os republicanos deixassem o «balcão» e fossem para a «barricada» pois a revolução, também necessariamente moral, impunha-se: «Republicano e patriota tornaram-se sinónimos. Hoje quem diz pátria, diz república. Não uma república doutrinária, estupidamente jacobina, mas uma república larga, franca, nacional, onde caibam todos. Não dum partido, da nação. […] Nesta agudíssima crise nacional a república é mais do que uma simples forma de governo. É o último esforço, a última energia, que uma nação moribunda opõe à morte. Viva a República! É hoje sinónimo de Viva Portugal!»706 Neste texto, como em muitos outros de teor semelhante, a ideia de Repúblicasurge indissociável da ideia de Regeneração da pátria, como em 1820 acontecera com a ideia de Constituição e em 1974 com a de Socialismo. Face ao esgotamento das energias morais e físicas do país, a República apresentava-se como a única saída para evitar a catástrofe e abrir perspectivas de futuro. Para aqueles, com maior capacidade de elaboração teórica, influenciados pelo positivismo e pelo cientismo reinantes, isso inseria-se na própria lógica de evolução da sociedade portugues a enquanto organismo em luta pela sobrevivência, num contexto geral de evolução do mundo em que a razão predominava. Para a grande massa, nomeadamente dos estratos das classes mais desfavorecidas que escapavam ao conformismo da ordem tradicional, ainda sancionada pelo peso da religião, a República tornar-se-ia uma ideia mítica e providencial, a promessa de um tempo novo de justiça, saúde e fraternidade ou, mais prosaicamente, de «bacalhau a pataco».
(Continua)
