RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção, tradução e adaptação por Júlio Marques Mota

Nota de  leitura

Entre um Berlusconi como muito mau primeiro-ministro , clown e vigarista na política , e um Mário Monti, tecnocrata e disponível aos golpes baixos que outros façam por ele, Monti que é um homem de Bruxelas,  chegado  ao poder por um golpe palaciano que aceitou,   a escolha parece  imediata: Monti. Mas será de facto assim?  Poderemos nós aceitar esta opção quando ela resulta exactamente da utilização de instrumentos com os quais se está a destruir a democracia? Podem os fins justificar os meios e já  agora que fins?

Lembro-me  na altura da mudança política ocorrida em Itália ter visto analistas políticos de gabarito questionarem-se se deveriam rir ou chorar com a substituição de Berlusconi por Monti.  Creio que a mesma questão se levanta no texto abaixo e que o autor faz a sua opção, daí a sua  pergunta se não devemos antes chorar por Berlusconi.

É pois um texto curioso o que abaixo se segue, de um homem da esquerda moderada americana,  Matt Yglesias, ainda com a ficção dos mercados livres mas, mesmo assim, um bom texto a ler.

Júlio Marques Mota

 

É necessário chorar por  Berlusconi: uma crítica progressista  americana sobre o euro

 Matt Yglesias, Estados Unidos

Matthew Yglesias 

Matthew Yglesias atraiu a si o ódio da direita americana pelas  suas críticas a  Sarah Palin.

Esta é uma tradução resumida de um excelente post, escrito pelo bloguista  e comentador  progressiva americano Matthew Yglesias. Este faz parte da esquerda moderada e à  priori agnóstica, sobre a construção europeia, mesmo se ela é geralmente crítica do nacionalismo e é a favor do multilateralismo (como Paul Krugman por exemplo).

Ele percebeu o incrível poder que detém o Banco Central Europeu, que é suposto  ser “independente”, “tecnocrático” e “apolítico”, salvando ou punindo  um país através da maquina de fazer notas, a rotativa . Ele indigna-se com a  utilização muito  política deste poder, em especial quando impõe  um governo de tecnocratas em  Itália ou pelo seu apoio específico às reformas do mercado de trabalho. Hoje a Itália, amanhã, e porque não, será  a França? Publico esta tradução por um lado, porque esta  crítica sobre o papel muito político, antidemocrática e neoliberal do BCE só muito  raramente aparece de formas tão claramente expressa em língua francesa [e muitíssimo menos ainda em língua portuguesa] . E, por outro lado para ilustrar o facto de que se pode ser céptico sobre o euro e sobre a construção europeia, tal como tudo isto foi concebido, construído,  sem ser um mau eurófobo ou um vilão nacionalista (como o pretende muitos).

***

Ler a este propósito «o grande projecto» da União Europeia e do Banco central Europeu  para sair da crise  faz-me pensar em  Silvio Berlusconi.

Será que se lembram dele ? Ele foi o primeiro-ministro da Itália.  Os não-italianos  visualizaram este facto como um escândalo, evidência de tudo o que havia de mal na política italiana. Mas ele tinha ganho uma eleição. Não quero dizer que ele tenha ganho de uma forma  completamente leal , mas ele ganhou em face das  leis que existiam na Itália. Mas o sentimento  nos círculos respeitáveis era de  que o mundo estava a precisar  de um parceiro italiano com o qual se  poderia trabalhar, e que a Itália enfrentava  uma fragilidade financeira.

Em seguida, o Banco Central Europeu, em coordenação com os governos da Alemanha e da França organizaram em conjunto um golpe de Estado, dizendo claramente aos políticos italianas que estes deviam deixar cair  Berlusconi ou caso contrário seria o seu sistema financeiro que seria destruído. Assim, Berlusconi foi devidamente substituído por Mario Monti, um político italiano de centro-direita, que até aí não tinha estado muito  envolvido na  política partidária.

Isso foi largamente elogiado na época, e acho que há toda razão para acreditar que Monti é um primeiro-ministro melhor do que Berlusconi. Mas, retrospectivamente, eu acho que foi um grande passo atrás e seguindo-se então um caminho desastroso.

Voltemos ao “projecto”. Aparentemente, ele “levará os  países a eliminar as regulações e as estruturas burocráticas  que limitam a concorrência, mantêm  os jovens fora do mercado de trabalho ou tornam-nos  difícil o lançamento de uma nova empresa” .

Hoje há muita polémica à volta desta ideia do “ grande projecto” e dos seus resultados. . A opinião amplamente partilhada  entre as elites da Europa e nos Estados Unidos é de que a Europa sofre de mercados de trabalho sobre-regulamentados. Mas há um grupo de pessoas que pensam que este consenso é errado. Pessoalmente, concordo com o consenso.

Mas isto não se trata de uma questão de política monetária. E para além disso,  quanto  mais a crise se aprofundou  mais  o Banco Central Europeu tem interferido nesta questão, nesta via, que não é propriamente a dele, a de um Banco Central Europeu. Em vez de prosseguir um mandato único sobre a estabilidade de preços ou de um duplo mandato de preços e de emprego, o Banco Central Europeu está em vias de pôr em prática uma estratégia de duplo objectivo que envolve o controle de preços e  certos resultados políticos bem específicos.

Em suma, os países que estão a aplicar as políticas estruturais que desejam os empregados do  BCE são recompensados com condições monetárias menos inapropriadas  e os países que desafiam o consenso do BCE são por esse comportamento punidos.

Isto é o contrário dos valores democráticos e  é manifestamente incompatível com as práticas de politica monetária adequada, sendo além disso  uma forma horrível de incentivar reformas estruturais que pessoalmente considero saudáveis.

Um muito muito melhor caminho seria o banco central simplesmente dizer que existem algumas coisas que pode garantir e outras coisas que ele não pode garantir.  No topo da lista das coisas que o BCE pode garantir está um forte crescimento  do produto interno bruto nominal e por  todo o continente europeu. Entre as coisas que o BCE não pode garantir é estar com a queda do output real e simultaneamente estar  com  inflação . Um país que combina um crescimento rápido do PIB nominal com más condições de mercado de trabalho corre o forte risco de alta taxa de inflação . Um país que combina o crescimento rápido do GDP  nominal com boas condições de mercado de trabalho vai ter uma forte taxa de  crescimento real. Mas a grande habilidade disto está em que  por definição não nos obrigam a trabalhar antecipadamente com as  políticas de mercado de trabalho que sejam boas ou más. Presumivelmente, as pessoas preferem viver num  país onde o crescimento nominal se transforma em crescimento real de saída em vez de crescimento via preços mais elevados. Mas se o sistema político não conseguir este resultado, então é porque  o sistema político está a funcionar   mal .

Em vez disso, o BCE recusa-se  a permitir o que ele deveria permitir — um crescimento nominal — e em vez disso, perde  tempo à volta das  decisões sobre problemas que não devem ter nada a ver com ele e ao comportar-se assim  vai torná-lo impossível dizer-nos  quais são as políticas que na verdade funcionam.

Texto retirado do site de Craig Willy cujo  endereço é:  www.craigwilly.info/

e completado com o texto integral disponível no blog MoneyBox no seguinte endereço : http://www.slate.com/blogs/moneybox/2012/06/18/the_ecb_s_disastrous_dual_mandate.html

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