O VATICANO FACE AO NAZISMO E AO FASCISMO – por Carlos Loures

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Há dias atrás, falei da investigação que o jornal britânico The Guardian fez sobre o alegado império financeiro que o Vaticano constituiu a partir de uma doação de quase 700 milhões de euros que Benito Mussolini teria feito durante o pontificado de Pio XI. Em 1929, quando da assinatura do Tratado de Latrão, tudo parecia ir pelo melhor. O governo italiano cedeu o território para a instalação do Estado do Vaticano, E, em contrapartida, a igreja renunciou aos seus territórios – os chamados Estados Pontifícios. Encerrou-se assim a Questão Romana que motivara a encíclica Urbi  arcano na qual o Papa  afirmava que a Itália nada tinha a temer da Santa Sé. E Pio XI reconheceu a legitimidade da dinastia de Sabóia no trono do Reino de Itália, enquanto Itália reconhecia o Estado do Vaticano. Mas a relação de Mussolini com Ambrogio Rattio (Pio XI), não foram pacíficas até ao final.

A relação com o governo de Benito Mussolini foi piorando logo dos anos que se seguiram. Reflexo dessa crise foi a encíclica de Pio XI  publicada em 1931 – Non abbiamo bisogno, onde criticava o estado fascista. Sabemos agora do negócio que se fez (para além das cedências territoriais mútuas consignadas no Tratado de Latrão. Pio XI morreu pouco depois de ter criticado abertamente o regime fascista de Mussolini o que tem dado lugar a especulações que são levadas à conta de «teoria da conspiração». Voltando a 1931, o papa publicou outra encíclica – Quadragesimo  anno, onde o sumo pontífice explica o caminho da fé num mundo afectado pela grande depressão de 1929, referindo-se o título aos quarenta anos passados sobre a Rerum Novarum, de Leão XIII. Criticando os abusos do capitalismo, condena o comunismo, o socilaismo moderado. Em 1937 sai a encíclica Mit bennendern Sorge, condenando o nazismo. .A leitura simultânea da encíclica nos púlpitos provocou grande impacto e forte retaliação do governo nazi contra os católicos, o clero e as instituições da Igreja. Em 1937, ao mesmo tempo que condenava o nazismo, fazia também pública e solene condenação do comunismo através da encíclica Divini Redemptoris  – Só a doutrina social da igreja é remédio para os males do seu tempo. Faltou uma encíclica condenando o oportunismo corrupto da Igreja Católica. E o papa que lhe sucedeu em 1939?

Eugenio Pacelli era tão isento, que tinha a alcunha de «il Tedesco». Sabia-se que o cardeal Pacelli era germanófilo. Estudou na Alemanha,. Entre 1925 e 1929 esteve instalado em Berlim. Foi nesse último ano que Pio XI o chamou ao Vaticano e o nomeou secretário de Estado. Foi ele que negociou com o governo de Mussolini o Tratado de Latrão (1929).. Foi Pacelli quem, em 1933, supervisionou os termos da Concordata entre o Vaticano e o governo de Hitler, que monsenhor Gröber, der Braune Bischof (o «bispo nazi» de Friburgo), redigiu, rompendo em nome da Igreja o isolamento diplomático a que a comunidade internacional votara o novo governo alemão. E quando Pio XI morreu em 1939, Eugenio Pacelli, sucedeu-lhe sob o nome de Pio XII.

No trabalho do jornalista italiano Mauro Suttora com o título «Mussolini segreto» – «Mussolini Secreto»., acrescenta novos dados à historia das relações do Estado Fascista com a Santa Sé. O livro baseia-se no diário de Clara Petacci, a amante do Duce.. A relação adúltera durava desde 1932, tinha Clara 20 anos e Mussolini 40. O Duce era casado com Rachel Mussolini . Tinham seis filhos. Esta situação não era vista com bons olhos no Vaticano. Pio XI não terá escapado à fúria de Benito: «Se os do Vaticano continuam assim, vou romper todas as relações com eles. São uns miseráveis hipócritas».

A relação de Pacelli com Mussolini e Hitler sempre foi cordial. Nunca denunciou publicamente os crimes que estavam a ser cometidos pelo governo do III Reich. Não podia deixar de saber da Endlösung, a «solução final», que previa a eliminação de todos os judeus da Europa, calculados em 11 milhões. No Angelus do Natal de 1942, lá disse qualquer coisa discreta sobre as «centenas ou milhares» de pessoas que, sem outra culpa que não a sua nacionalidade ou etnia, estavam «assinalados pela morte e por uma progressiva extinção». Sabia também que muitos dos que iam para as câmaras de gás não era pela sua etnia, mas sim pela sua opção política ou pela sua orientação sexual. Entre os esquerdistas e os homossexuais executados, havia numerosos católicos.

Quando, já depois da execução de 335 reféns civis, o Gueto de Roma foi, em Outubro de 1943, cercado por tropas SS, sendo executados 75 judeus, Pio XII permaneceu em silêncio. A Santa Sé mandou uns telegramazecos e fez uns telefonemas para o embaixador alemão, aceitando as justificações ladradas pelo diplomata. Perante uma reacção tão violenta os alemães atemorizaram-se e, ainda em Outubro, num Domingo, embarcaram 1060 judeus, cidadãos italianos, directamente para Auschwitz. Com o seu estranho silêncio, foi um cúmplice de Hitler e de Mussolini. E dispunha da única estação de rádio independente na Europa que estava sob a bota hitlerista. Depois da guerra, os seus defensores deram como desculpa que, se o papa se tem manifestado, isso iria radicalizar as posições dos ditadores. Quando a guerra terminou, Pio XII proporcionou passes, salvos condutos e passaportes a criminosos de guerra, fascistas e nazis, bem como a colaboracionistas italianos que estavam abrigados no Vaticano e assim puderam recomeçar as suas vidas no Paraguai, na Argentina ou em Espanha.

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