por Rui Oliveira
Uma primeira correcção é devida (por lapso dos serviços de divulgação do Hot).

Assim, quem na Quinta-feira 31 de Janeiro (bem como na Sexta e Sábado, respectivamente 1 e 2 de Fevereiro) se deslocar ao Hot Clube de Portugal, às 23h, ouvirá o Trio liderado pelo pianista galego Abe Rábade, com Pablo Martín Caminero (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria) – e não o “Kari Ikonen Trio” do pianista finlandês Kari Ikonen.
Apresentarão “A Modo”, o oitavo disco como líder daquele pianista, que integra seis composições originais e uma versão do fado “Carmencita”. Diz quem ouviu que a pormenorizada escolha de composições feita para o repertório de “A Modo” favorece o compromiso com a intuição dos seus intérpretes e também a complicidade com o ouvinte.
Saiba-se que o anterior trabalho discográfico da banda, “Zigurat” recebeu o prémio de Melhor Álbum de Jazz do Ano 2010 por parte da UFI (Unión Fonográfica Independiente Española).
O Tema “9 contra 4” daquele novo álbum pode ser ouvido aqui :
Quanto à Sexta-feira 1 de Fevereiro continuam a não ser muitos os eventos de novidade sendo que, por curiosidade, os mais relevantes correspondem a formações com sonoros nomes anglo-saxónicos constituídas exclusivemente por … músicos portugueses (!).
Assim a encerrar o Ciclo Hootenanny comissariado por Ruben de Carvalho, apresenta-se no Pequeno Auditório da Culturgest, às 21h30, um “interessante grupo de Lisboa, viajante da herança popular americana das primeiras décadas de Novecentos” (in programa), os “Soaked Lamb” cujo espectáculo se intitula “Evergreens” (nome do seu álbum de 2012).
São um resultado – como também ali é assinalado – de, nos anos mais recentes, parecer querer modificar-se a situação de o crescimento explosivo de grupos e solistas de jazz ter como que mantido os blues na sombra.E deu-se até expressão a um aspecto peculiar : “ nos novos grupos o interesse pelos blues não se rodeia do que se poderia chamar um fundamentalismo de estilística musical, antes reflecte bastante o espírito multifacetado que, afinal, caracterizava o ambiente do período de desenvolvimento do género, quando os blues rurais evoluíam e se entrecruzavam com outros géneros, por vezes mais urbanizados, do vaudeville aos minstrels, à miscigenação com as mais diversas músicas de dança”.
É esse o caso dos Soaked Lamb, nascidos em Lisboa em 2006, com uma formação generosa (seis elementos, entre os quais vários são multi-instrumentistas) e com um bem humorado percurso, do qual fazem já parte três CDs.
Compõem-nos : Mariana Lima Balas (voz, saxofone, guitarra), Afonso Cruz (voz, guitarra, ukelele, banjo, harmónica), Tiago Albuquerque (coro, guitarra, ukelele, saxofone, clarinete), Miguel Lima (coro, bateria, percussão), Gito Lima (coro, contrabaixo) e Vasco Condessa (coro, piano, concertina, melódica).
Eis o seu tema na linha clássica dos blues chamado “Blue Voodoo” do seu CD de 2010 “Hats & Chairs” :
Juntamos o tema recente (e até visualmente irónico) “A Flor e o Espinho” do último álbum Evergreens aqui : http://youtu.be/FCwlT5qwP7g .
Entretanto, na mesma Sexta-feira 1 de Fevereiro, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, às 21h, actua o agrupamento “Julie & The Carjackers”.
Formado em 2009, compõem-no João Correia guitarra, voz, percussão e Bruno Pernadas guitarra (seus iniciadores), além de Inês Sousa voz e percussões, Margarida Campelo voz, piano e teclados, Nuno Lucas baixo e António V. Dias bateria e voz.
Segundo o suplemento Ípsilon este é um grupo de rock-folk com uma sonoridade intemporal e idiossincrática, resultante de um «cruzamento imaginário, onde a bossa do Chico encontra a coolness do Beck».
Dele resultou um primeiro álbum “Parasol” onde (seg. a revista Blitz) «o clássico e o moderno habitam pacificamente e soam bem. A mistura de diferentes ambientes sonoros, a organicidade e a diversidade instrumental, a riqueza dos arranjos, as alternâncias rítmicas são elementos que contribuem para o universo fresco, elegante, algo misterioso e envolvente do disco».
Eis os Julie & The Carjackers numa gravação ao vivo do tema “Haystack em Dezembro de 2011 :
No campo da dança (neste caso muito particularmente ligada à música), assinale-se que nesta Sexta-feira 1 de Fevereiro (e prolongando-se até Domingo 3) se apresenta na Sala Principal do São Luiz Teatro Municipal, às 21h, a produção coreográfica da Companhia Paulo Ribeiro para «Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura» intitulada “JIM”.
Com coreografia e direcção de Paulo Ribeiro (foto) sobre as músicas “Indigo” de Bernardo Sassetti, “An American Prayer”(álbum) e “Spanish Caravan” de The Doors, interpretam-no Anna Réti, Carla Ribeiro, Leonor Keil, Sandra Rosado, Avelino Chantre e Pedro Ramos (com participação especial de Paulo Ribeiro). Os figurinos são de José António Tenente, o vídeo de Fabio Iaquone e Luca Attilii e o desenho de luz de Nuno Meira.
A sinopse é significativa, senão vejamos :
« Seduzido pela força da poética de Jim Morrison, um dos ícones mais irreverentes da década de 60, e pelo seu “An American Prayer”, disco póstumo, o coreógrafo Paulo Ribeiro deixou-se conduzir pelas palavras e pela espiritualidade do músico para reflectir sobre o lugar de cada indivíduo na relação com o mundo e sobre o lugar da dança. Fiel no respeito pelo universo de Jim Morrison, mas desprendido no resgate de uma interioridade em perigo iminente, construiu uma peça alicerçada na necessidade de cada um se repensar como colectivo e de ter tempo para se ouvir. Embebida pela vontade de romper e de transformar, a peça é habitada por sensações que se constroem e desconstroem, que orbitam em redor de uma época, de uma política, de um abandono, de uma preocupação, mas também de algo festivo e de uma Humanidade vigorosa. Cúmplice de Morrison, mas emancipado no jogo dos corpos, Paulo Ribeiro contraria o que chama de aniquilamento interior, alimentado pelo fantasma da insustentabilidade de um mundo; provoca a apologia do colectivo e semeia alguns acidentes benévolos, feitos para agitar a percepção de quem assiste, bem ao jeito da sua dança orgânica e activa».
É possível ver abaixo um longo excerto da apresentação de “JIM” em Guimarães :
Quanto a teatro, volta à Barraca todas as Sextas-feiras a partir de Fevereiro, logo também nesta Sexta-feira 1 de Fevereiro, o seu espectáculo “Make Love Not War”, uma versão da comédia de Aristófanes com 2.500 anos criada e encenada por Helder Costa e Maria do Céu Guerra que já por duas vezes aqui divulgámos, a última em Dezembro último (http://aviagemdosargonautas.net/2012/12/29/pentacordio-para-segunda-31-de-dezembro-de-2012/comment-page-1/ ).
Dizem : « A arma feminina que se baseou na recusa de sexo e no apelo ao amor – Make love, not war −, tem realmente conquistado a paz e terminado guerras, reparado injustiças sociais, e forçado homens a trabalhar para aliviar o esforço de sobrevivência das mulheres em regiões sem as mínimas condições de existência civilizada ».
O tema tem, inclusivé, inspirado o cinema como foi visível no filme recém-exibido entre nós “La Source des Femmes”(A Fonte das Mulheres) de Radu Mihaileanu onde um grupo de mulheres fazem greve de sexo para obrigar os respectivos maridos e, através deles, as autoridades duma aldeia no Norte de África a construir condutas de água para abastecimento que poupassem aquelas mulheres a horas de deslocações transportando bilhas à cabeça sob sol escaldante.
Por último, lembramos (de acordo com a regra assumida) que terminará no Domingo 3 de Março no Pavilhão Preto do Museu da Cidade a exposição do artista brasileiro Arthur Bispo do Rosário (1909-1989) intitulada “Azul dos Ventos” integrada na programação do «Ano do Brasil em Portugal», depois de ter estado patente no Victoria and Albert Museum, em Londres e de entrada gratuita.
Nesse Pavilhão Preto estão apresentados cerca de 80 trabalhos que dão a conhecer a variedade e criatividade da obra de um dos artistas mais reconhecidos do Brasil, que passou 50 anos internado no hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro, a Colônia Juliano Moreira, e lá criou seu atelier. Admitido no hospital aos 29 anos, as suas criações foram feitas em completo isolamento do meio artístico.
Contudo, a sua arte “outsider” tem sido admirada pela sua técnica e abordagem imaginativa no trabalho com materiais com que nos deparamos diariamente. Para além de lençóis encardidos, botões cariados, suspensórios de doutores, Bispo do Rosário usava a linha que desfiava de uniformes novos e usados de internos da Colônia Juliano Moreira para apresentar sob a forma de brinquedos instrumentos musicais, arquitectura, objectos do quotidiano. Estandartes, roupas, faixas de miss, barcos a vela, tacos de golfe, raquetes de tênis, argolas de ginástica olímpica mostram a poética da junção de materiais descartados, bordados, consertos, sobreposições, escritas e desenhos.
(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Quarta aqui)





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