Batalha de S. Mamede
Quem era Afonso Henriques? Já amestrado no ofício de reinar, à maneira por que então se entendia um tal ofício, o moço príncipe reunia as condições necessárias para consolidar uma independência até aí precária. Era audaz, temerário até, pessoalmente bravo, qualidade nem tão comum no tempo, como a muitos casos pareça. Fraco general, ao que se vê, porque as batalhas feridas com as tropas leonesas perdeu-as sempre, era feliz guerrilheiro. Capitaneando um troço de soldados, caía de improviso sobre um lugar, e a fúria irresistível do ataque deu-lhe a maior parte das suas vitórias. Nem a grandeza das empresas o assustava, nem as distâncias o impediam de acudir a um tempo, do extremo norte, quase ao extremo sul do país. A estes dotes militares reunia outros não menos valiosos, na precária situação em que se apossara do reino. Era seco, astuto, friamente ambicioso, sem quimeras nem ilusões. Era um espírito agudo e prático, e isso fazia boa parte da sua força. Mal dos políticos ao mesmo tempo apóstolos! Como a tenra haste que verga à mais leve brisa do canavial, assim Afonso Henriques, sem rebuços, obedecia, logo que a sorte lhe era adversa. Passada a tormenta erguia-se; e à facilidade astuta com que se humilhava, respondia logo a teima pérfida com que se rebelava. Isto fazia-o indomável. Tinha o quer que é de fugitivo, na sua política e no modo por que fazia a guerra. Ubíquo militarmente, era nos negócios um proteu. Os seus inimigos, leoneses, sarracenos, não achavam por onde prendê-lo. Submisso e humilde quando se achava vencido, subscrevia a todas as condições, aceitava todas as durezas; para logo mentir a todas as promessas, rasgar todos os tratados, com uma franqueza ingénua, uma simplicidade natural que chegavam a espantar a própria Idade Média. Nem brios cavaleirosos, nem sentimentos de família, nem ódios pessoais, nem vinganças estupendas: nenhuma quimera, nenhuma grande ambição, nenhum sentimento poético enchiam a sua cabeça, estreita, e inteiramente ocupada pela ideia fixa de consolidar a sua independência. O predomínio absoluto de uma ideia prática, servida por uma inteligência lúcida, por um carácter sem grandeza, e por uma valentia provada, tornavam-no invencível, ainda mesmo quando era batido. A sua teima fazia-o semelhante a uma lâmina de aço, um instante vergada por um esforço momentâneo, logo estendida quando livre, e impossível de manter curvada desde que se acha solta. O seu pensamento tinha a tenacidade da mola, e não a rijeza do bronze nem o peso do chumbo. Vivia dentro do seu Portugal como um javardo no seu refoio: assaltado, investia, despedaçando tudo com as fortes presas. Perseguido, fugia. Não tinha a nobreza do leão, nem a astúcia ferina do tigre: possuía apenas a tenacidade brava e bronca do javali. Um fraco apenas lhe notam, embora os actos da sua vida não denunciem que esse defeito o prejudicasse muito: gostava de ser adulado.
Afonso Henriques foi quem verdadeiramente consumou a separação de Portugal, não pelos méritos próprios apenas, mas porque a direcção política do reino começou no seu tempo a ser encaminhada pelos factos no sentido de definir de um modo positivo a independência da nação.
Uma parte dos barões da Galiza leonesa, sublevados contra o suserano, acolheu-se em 1137 sob a protecção de Afonso Henriques, prestando-lhe vassalagem, e, assim, de novo se levantou a questão das fronteiras do norte de Portugal. Afonso VII não pudera, nos anos anteriores, descer a rebater as invasões do turbulento vizinho, ocupado como estava a debelar o navarro; agora, porém, tinha já os movimentos livres, e apressou-se a submeter a Galiza. Por seu lado Afonso Henriques era solicitado a defender a fronteira austral, onde os sarracenos tinham vindo numa algara feliz derrocar o castelo de Leiria. É por estes anos que o destino de Portugal se debate entre a Lusitânia e a Galiza, quando a actividade do guerreiro é solicitada, ora do norte contra os leoneses, ora do sul contra os sarracenos. Oscilante ainda e indeciso, breve assistiremos ao definitivo pender da balança no sentido do alargamento das fronteiras austrais.
A simultaneidade do ataque leonês e sarraceno em 1137 obriga Afonso Henriques a curvar a cabeça assinando as pazes de Tui, nas quais desiste das suas pretensões de além Minho, confessando, ao mesmo tempo, vassalagem ao suserano de Leão. Ut arrundo fragilis ferebatur: vergara como o canavial o príncipe, a este sopro da fortuna adversa! Desistia de tudo, da ambição e até da independência. Quem se fia, porém, na palavra do pertinaz batalhador? Defendido o seu senhorio por norte, não se demora a persistir numa guerra leal mas perigosa. Espera melhor ocasião para a desforra; porque lhe não custa subscrever a um tratado, a que não pensa decerto submeter-se, senão enquanto a força das coisas a isso o violentar. Não assim os fronteiros de nordeste que, apesar das pazes de Tui, continuam a guerra por conta própria, tão frágeis eram ainda os laços que reuniam os vassalos ao conde soberano de Portugal! De Tui, o leonês, subindo pelo vale do Lima através da Galiza portuguesa que assolara, vai encontrar as mesnadas dos ricos homens sublevados nos Arcos de Valdevez. Rezam as tradições de um torneio ou bufúrdio em que os cavaleiros inimigos batalharam por seus exércitos, vencendo os portugueses na estacada, onde numerosos combatentes ficaram mortos, segundo as regras da cavalaria. Apesar de vitoriosos, porém, os portugueses não podiam resistir a Afonso VII, tanto mais que D. Afonso Henriques desistira de continuar uma guerra improfícua.
Que fazia entretanto o príncipe? Tratava da desforra de Leiria; e em 1139 levava a cabo o temerário fossado de Ourique, pagando uma estocada com outra; e preludiando esse duelo de morte, entre Portugal e o Al-Gharb sarraceno, com um golpe que foi, com a rapidez penetrante do raio, ferir o corpo muçulmano quase junto a Chelb ou Silves, o coração da Espanha austral. A esta aventura temerária, mas feliz, ia suceder em curtos anos a empresa mais séria e importante da conquista da linha estratégica do Tejo, facto de um alcance capital, nesse período em que o futuro destino da nação flutuava ainda indeciso entre a Galiza e a Lusitânia.
Desde que o antigo condado portugalense, batido na sua tendência de absorver a Galiza, conquistava a região de entre Mondego e Tejo, chegando a avançar padrastos ameaçadores para o sul, era evidente que um novo Estado se formava; e esse Estado nascia dos actos próprios do conde português, não de concessões ou benefícios do suserano. Esse Estado era pois um reino, uma vez que a esta palavra andava ligada, de um modo mais ou menos definido, a ideia da independência, segundo o direito político dos godos. Foi, portanto, quando o plano de se apossar do sul do reino começou a ocupar o espírito do guerreiro, orgulhoso pela vitória de Ourique, isto é, em 1139 ou 1140 (a erudição não conseguiu determinar a era) que Afonso Henriques tomou para si o título de rei. O caso não era novo, porque por vezes a mãe usara chamar-se rainha de Portugal; dava-se, porém, agora a circunstância de que esse título, embora juridicamente usurpado, o era com tamanho fundamento, que nunca mais deixou de ser o dos soberanos portugueses.
A seguir: Batalha de Ourique

