ESPECIARIAS – Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Esgotos não existem. Os despejos são feitos directamente para as ruas. Cidades infectas, as da Europa medieval. E insalubres: volta e meia, as pestes dizimam as populações. Alimentação? Os legumes são raros, a beterraba é desconhecida, ignorados o café e o cacau. Portanto, peixe seco ou carne salgada. E durante o ano inteiro, monotonia do paladar. Apenas alguns senhores (dos mais favorecidos) é que se dão ao luxo de ter nas suas mesas ânforas de vinho e açucareiros 

Eis quando começam a chegar à Europa as especiarias do Oriente. Pimenta e cravo-da-índia para transformar o gosto da carne. Canela, noz-moscada, gengibre, benjoim e aloés para enriquecer o sabor dos reduzidos acepipes. Sândalo, resinas aromáticas para opor à pestilência das ruas. Navios começam a cabotar os portos do Mediterrâneo: ida e volta de Veneza e Génova para Constantinopla e Alexandria. Do Oriente para Ocidente, singra o comércio de especiarias.  

Entretanto, hordas de Gengis Kã afugentam as tribos turcas para a Pérsia.  Estas conquistam e fixam-se no território. Alastram por todo o Próximo Oriente. Observam as caravanas de mercadores que atravessam os seus domínios. Invocam o Profeta Maomet que morrera seis séculos antes e desencadeiam guerra santa contra os cristãos, os infiéis. Consequências: tampão turco entre o Oriente e o Ocidente, rarefação de especiarias na Europa.  

No século XVI será feita a seguinte avaliação: um quintal de cravo-da-índia custa 2 ducados nas Molucas, 14 ducados em Malaca, 50 ducados em Calecut e 213 ducados em Londres. Com este progressivo aumento de preços, conforme se vai marchando de leste para oeste, poderia haver melhor negócio do que abrir caminho alternativo para o comércio das especiarias ?  

Melhor se entende agora a
obsessão de reis, infantes e príncipes da dinastia de Avis: rumar, rumar para o sul, contornar a África, subir ao longo da contracosta, descobrir o caminho marítimo para a Índia, isolar e combater pela retaguarda o Turco anti-cristão! As garras do interesse, as luvas da cruzada…  

Os portugueses são os primeiros a perseguir a miragem.

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