EDITORIAL: PORQUE FECHAM OS CINEMAS EM PORTUGAL.

Diário de Bordo - II

 

Hoje, dia 31 de Janeiro de 2013, completam-se 122 anos sobre a primeira revolta republicana em Portugal. Foi no Porto, e foi derrotada, havendo muitas vítimas. Muitos dos seus promotores foram presos ou tiveram de fugir para o estrangeiro. É de recordar este acontecimento, premonitório do 5 de Outubro, que deixou bem à vista a enorme insatisfação que grassava pelo país, agravada com o vergonhoso ultimato de 1890. Na  década seguinte assistiu-se a um aumento considerável da emigração portuguesa, sobretudo para o Brasil.  Estima-se que mais de 250 000 portugueses atravessaram o Atlântico à procura de trabalho, enquanto a população nacional na altura rondava os cinco milhões de habitantes.

Agora, em vez do Ultimato temos a troika e a austeridade para nos explorar e humilhar, com a Lagarde, o Barroso, a Merkel e o trio Passos/Portas/Gaspar no lugar dos ingleses, do D. Carlos e do João Franco.

Estes senhores vão encerrando o país e liquidando o pouco que ainda temos. Falemos de um sector especial, mas também muito importante. Esta semana, segundo as notícias, a exibidora de cinema Socorama Castello Lopes anunciou o encerramento de 49 das 106 salas que tem vindo a explorar em vários centros comerciais do país. Localizavam-se na Covilhã, Viana do Castelo, Ponta Delgada, S. João da Madeira, Leiria, Loures, Seixal e Guia. 75 trabalhadores perdem o emprego, só desta vez. As razões invocadas assentam, à partida, na considerável redução do número de espectadores de cinema que ultimamente tem acontecido. Quando se analisa o problema mais a fundo ouve-se falar nas dificuldades na adaptação ao cinema digital, na concorrência das descargas piratas de filmes da internet, no aumentos dos custos do aluguer das salas, dos problemas. Prevê-se o encerramento de mais salas para breve. Entretanto, desta feita, o distrito de Viana de Castelo e os Açores ficaram sem salas privadas para sessões de cinema comercial. No Algarve, restam pouquíssimas. Castelo Branco vai pelo mesmo caminho.

Já se fala menos em que no nosso país impera o sistema capitalista que reserva para o sector privado todas as actividades rentáveis, e afasta todas as que lhe possam fazer concorrência. Por isso é difícil ao sector público (ainda por habitualmente controlado por neoliberais) e ao sector privado não capitalista (cineclubes, associações recreativas e outros) suprir estas carências tão grandes. Mesmo nos grandes centros torna-se difícil o acesso à arte cinematográfica, que a televisão só em parte pode suprir. A concentração acaba com o resto (já mais de metade das salas de exibição são exploradas por um operador, a Zon Lusomundo). É mais um sector que é preciso revitalizar e tornar acessível ao público em geral.

Leave a Reply