A Galinha Pedrês – por Carlos Pereira Martins

A Galinha Pedrês

por Carlos Pereira Martins

 

As famílias, naquele tempo, não cresciam; aconteciam. Era como se a terra, depois de uma boa chuvada, resolvesse fazer brotar gente em vez de erva. Um filho chamava outro, que por sua vez trazia mais um, e, quando alguém se lembrava de contar quantas almas dormiam debaixo do mesmo telhado, acabava sempre por desistir a meio, porque havia um bebé ao colo de alguém, outro escondido atrás da masseira e mais dois que andavam por perto sem que ninguém soubesse muito bem se eram da casa ou apenas ali tivessem criado raízes.

Viviam numa quinta  que lhes dava abrigo coberto em troca de trabalho diário, próxima de uma aldeia da Beira Alta, embora dizer “próxima” seja um exagero da geografia. A quinta era a aldeia e a aldeia prolongava-se pela quinta, numa promiscuidade pacífica onde as galinhas conheciam melhor os vizinhos do que os próprios habitantes e onde os cães, esses sim, sabiam exactamente quem tinha direito a entrar e quem precisava primeiro de anunciar as boas intenções.

Não existiam apoios sociais, nem sequer a ideia de que um Estado pudesse preocupar-se com a barriga vazia de alguém. A fome era um assunto privado, resolvido entre Deus, a horta e a boa vontade do vizinho. O  rendimento social era uma expressão que faria rir qualquer lavrador, não por maldade, mas porque lhe pareceria um luxo de quem nunca tivera de arrancar uma batata da terra para perceber que ela não nasce por decreto.

Tudo isto acontecia muitos anos antes de alguém inventar o Estado Social. Não Havia abono de família, subsídio de desemprego, rendimento social de inserção, complemento solidário para idosos, apoio à renda, cheque – creche, vale isto ou vale aquilo. O único “apoio social” chamava-se vizinhança. E esse funcionava sem formulários, sem senhas, sem plataformas digitais e, sobretudo, sem o aviso de que “o sistema se encontra temporariamente indisponível”.

Naquele tempo ninguém dizia:
— Estou desempregado.

Porque, na verdade, ninguém tinha emprego.

Mas também ninguém estava parado.

Era um paradoxo daqueles que só o mundo rural sabia explicar.

Todos trabalhavam.

Uns iam abrir regos para plantar cebolo. Sim, cebolo. Porque cebola era o produto do cebolo depois de pegar e crescer, coisa mais fina; por aquelas bandas dizia-se cebolo e toda a gente percebia.

Outros iam “semear batatas”, expressão que faria hoje um engenheiro agrónomo ter um ataque de nervos, porque as batatas plantam-se. Mas ali semeavam-se e ponto final.

As mulheres iam sachar milho, mondar feijão, apanhar feijão-verde, desfolhar milho, vindimar, carregar cestos que hoje fariam um “personal trainer” desistir da profissão.

Os rapazes davam tareia nas espigas do milho ou no centeio, numa nuvem de pó que os deixava da cor do próprio cereal. Ao fim da tarde já ninguém distinguia onde acabava a pessoa e começava a palha.

O pagamento raramente conhecia moedas.

Vinha em géneros.

Uma broa de milho.

Meia broa de milho saída do forno com meia sardinha em cima.

Um naco de toucinho.

Dois ossos de porco retirados da salgadeira que ficava debaixo da escada do patrão.

Uma dúzia de ovos.

Meio cântaro de vinho.

Às vezes um coelho.

Noutras ocasiões, um enorme “Deus lhe pague”, que tinha um valor cambial extraordinário naquelas terras.

Os bancos ainda não conheciam estas operações financeiras, mas ali faziam-se investimentos todos os dias. Chamavam-se Favores.

Quem hoje fala em economia circular nunca viu uma aldeia da Beira Alta nos anos quarenta ou cinquenta.

Ali nada se perdia.

As cinzas da lareira iam para a horta.

O soro do queijo servia para os porcos.

As cascas das batatas eram uma iguaria para as galinhas.

A roupa passava do irmão mais velho para o segundo, do segundo para o terceiro, do terceiro para o primo e, quando finalmente já só existiam dois bocados de tecido ligados pela esperança, ainda servia para fazer remendos noutro par de calças.

Chamava-se reciclagem sem se saber inglês.

Televisão?

Nem pensar.

Durante anos, a única televisão disponível era a imaginação.

As notícias chegavam pela boca do Ti Manel, que as ouvira ao sobrinho do carteiro, que por sua vez as escutara ao farmacêutico da vila.

A informação vinha sempre um bocadinho aumentada.

Era uma espécie de internet rural, mas sem comentários anónimos.

Quando apareceu a televisão em casa de um  senhor mais abastado da vizinhança, dizia-se que dentro daquela caixa viviam pessoas pequeninas.

Houve quem acreditasse.

E houve quem perguntasse como é que lhes davam de comer.

Outros desconfiavam que aquilo era obra do diabo.

E o diabo, na Beira Alta, era muito trabalhador. Sempre que alguém não compreendia uma coisa, a culpa era dele.

Jerónimo, o pai, chegava e sentava-se junto ao borralho.

A lareira fervia um grande pote de caldo.

Lá dentro cabia tudo.

Batatas.

Feijão.

Couve.

Um pedaço de unto.

Talvez um osso.

Talvez um pedaço de chouriço.

Talvez… apenas esperança.

Chamava-se conduto.

E alimentava mais do que o estômago.

Aquecia a alma.

Ao lado do prato nunca faltava um copito de água-ardente.

Oferta do compadre Tomás.

O compadre Tomás era trabalhador de um lavrador rico e, de vez em quando, aparecia com uma garrafinha.

Não se sabia se a bebida fazia bem.

Sabia-se apenas que o Jerónimo começava por beber um copo e acabava sempre a dizer:

— Agora é que o frio já não entra!

O frio provavelmente continuava lá fora.

Mas tinha vergonha de entrar.

No verão, o ritual mudava.

Depois da janta estendia-se no terreiro.

Dormia ao relento.

O céu fazia de teto.

As estrelas substituíam o candeeiro.

Os grilos davam concerto gratuito.

E o copito de aguardente ajudava a que todas aquelas notas musicais parecessem afinadas.

Depois vinha a cama.

Ou melhor…

A enxerga de palha.

Coberta por um lençol cuja cor original já ninguém recordava.

Ao lado estava a Ti Anunciação.

Mulher de trabalho.

Mulher de coragem.

Mulher de sete ofícios e ainda de mais alguns que nunca vieram escritos em lado nenhum.

Servia de companhia, de conselheira, de enfermeira, de costureira, de cozinheira e, quando necessário, de segundo colchão, bem mais confortável do que a enxerga.

O resto…

Bem…

O resto explicava por que motivo a família continuava a aumentar.

As notícias percorriam quilómetros nas pernas das mulheres que iam ao moinho, regressavam pelo caminho da fonte e chegavam a casa já acrescentadas de pormenores que nem o próprio protagonista conhecia. Era uma informação profundamente democrática: todos lhe acrescentavam qualquer coisa.

O pai Jerónimo, porém, não perdia tempo com filosofias tecnológicas. A sua preocupação diária era bastante mais concreta: chegar ao fim do dia sem que as costas se partissem definitivamente e encontrar, sobre a mesa de castanho escurecido pelos anos, um caldo suficientemente generoso para convencer o estômago de que tinha jantado.

A lareira fazia o resto. O lume nunca aquecia apenas a panela; aquecia a esperança, que naquele tempo precisava de muito calor para não arrefecer antes da Primavera. Dentro do pote entrava tudo o que a terra, o quintal e a sorte consentiam. Couves, feijão, batatas, um pedaço de unto cuidadosamente administrado como se fosse ouro, um osso de porco resgatado da salgadeira e, quando o destino estava particularmente bem-disposto, uma rodela de chouriço suficientemente fina para que todos a vissem e ninguém pudesse dizer que não existira.

Ao lado do prato esperava-o o pequeno copo de água-ardente. Não era vício; era argumento. Convencia os ossos de que ainda eram novos, as pernas de que ainda podiam caminhar e a alma de que o Inverno não era assim tão comprido. O compadre Tomás oferecia-lho de tempos a tempos, sem cerimónias. Na aldeia, os presentes nunca eram caros, mas eram indispensáveis. Quem possuía um pouco repartia-o antes que a abundância lhe criasse maus hábitos.

No Verão, Jerónimo dispensava até a casa. Estendia-se ao relento, onde o céu servia de tecto e as estrelas, indiferentes às dificuldades humanas, continuavam a brilhar com a mesma abundância que Deus nunca concedera às despensas dos pobres. Dormia embalado pelo coaxar das rãs, pelo cantar dos grilos e pelo discreto auxílio do copito, que, convenhamos, era um colaborador fiel da tranquilidade nocturna.

Depois vinha a enxerga de palha, que a palavra colchão apenas ofenderia. A palha picava, o lençol já perdera a memória da sua cor original e, ainda assim, aquele leito conhecia mais ternura do que muitas camas modernas. A Ti Anunciação deitava-se ao seu lado com a naturalidade das mulheres que nunca tiveram tempo para pensar se eram felizes. Eram necessárias, e isso ocupava-lhes quase toda a vida.

Foi talvez dessa necessidade, dessa resignação alegre que só os pobres sabem cultivar, que nasceram tantos filhos. Nunca fizeram contas. Também não havia quem as ensinasse. As crianças apareciam como aparecem as estações do ano: inevitavelmente. Recebiam-nas com um suspiro, um sorriso cansado e mais um lugar apertado à mesa, onde a broa, por milagre ou por arte antiga, parecia sempre chegar para todos.

Até que um dia entrou naquela casa uma galinha pedrês.

Não vinha anunciada por trombetas nem acompanhada de qualquer solenidade. Foi oferecida por uma comadre, dessas mulheres que repartiam o pouco que tinham porque sabiam, melhor do que qualquer tratado de economia, que a pobreza dividida pesa menos do que a riqueza guardada.

A galinha caminhou pelo terreiro com uma dignidade que faria inveja a muitos fidalgos. Observou o quintal, inspeccionou os cantos, bicou duas ou três minhocas e decidiu, sem consultar ninguém, que aquele seria o seu reino.

Dias depois descobriram-na imóvel sobre um ninho de palha.

Estava a chocar.

Naquele instante, toda a família compreendeu que acabara de adquirir o mais promissor investimento da sua história.

Nenhum banco ofereceria juros tão seguros.

Cada ovo encerrava uma hipótese.

Cada pintainho era um pequeno tratado de esperança.

E, naquela casa, a esperança era sempre o alimento que nunca podia faltar.

Trabalho que faz dobrar as espinhas, que tantas vezes  vai de sol a sol, a fome que tantas vezes o acompanhava, a vergonha de muitas vezes pedir a quem não se queria deixar entrar na intimidade e nos segredos das dificuldades de cada dia : “Olhe, patrão, leia-me esta carta que chegou do meu cunhado na Suíça!” ou “Escreva-me o que lhe vou dizer para o meu irmão que foi para França!”. 

Mas, e outra vez, “com os diabos!” , e a felicidade, e a alegria? Seria que só no próximo mundo estaria um niquinho reservado para quem, neste, a não tivera? 

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