LOUQUINHO DE ÉVORA – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Eu, Manuel, passei agora a ser o louquinho de Évora. Sou muito popular na cidade. Todos me conhecem, todos acham muita graça à minha mania de beliscar as maminhas das mocinhas distraídas. Por ironia, ou troça, ou galhofa, os chefes apontam-me, dão-me palmadinhas nas costas, dizem e apregoam que esta é a revolta do Manuelinho. Se é loucura lutar contra os castelhanos para restaurar a independência de Portugal, então só um louquinho é que poderia chefiar tal revolta… Sarcasmo desfraldado, chalaça a drapejar, e também eu me desmancho a rir. Mas a exaltação, ou o cagaço, põe a minha mioleira a fermentar e, de repente, passo de lerdo a lesto, vá lá alguém explicar o porquê desta alteração…

Não nos quedamos por Évora. Emissários nossos correm todo o Alentejo e o Algarve, o Reino pega fogo pelo sul. E o incêndio alastra até Abrantes e Santarém, até ao Porto e Viana do Castelo. Afinal todos os portugueses, os do povo miúdo, querem a pátria independente.

Em Vila Viçosa, a dois passos de Évora, fica o paço ducal dos Bragança. Também nesse burgo o povo se amotina. D. João, para acalmar os ânimos, está de cama, finge estar doente, e põe o seu filho de 3 anos, D. Teodósio, a passear sozinho pelas ruas. Para não assustar a criança, o povo sossega. Somos gente afetuosa, gente parva. É assim que D. João evita comprometer-se, quer com os revoltosos, quer com El-Rei.

Como? Sim, sim, esse mesmo, D. João duque de Bragança que, daqui a três anos, em 1640, será El-Rei D. João IV de Portugal. Mas em 1637 ele não quer comprometer-se, não tem ainda a antecipada certeza da vitória. Esta certeza só virá à tona quando, lá longe na Península, antes dos Pirinéus, os levantamentos pró-independência da Catalunha vierem a ocorrer, dividindo os castelhanos em duas frentes repressoras, uma a sudeste p’rós lados de Barcelona, outra a oeste p’rós lados de Lisboa. Sabem muito, estes nobres, jamais se arriscam, porém petiscam sempre… Enquanto eles se escusam e vacilam, nós é que pomos o pescoço no cepo, sempre…

Portanto, por omissão dos nobres, mais uma vez estamos condenados. A tropa do duque de Medina-Sidónia, capitão-general da Andaluzia, transpõe a fronteira e sufoca a rebelião no Algarve. O exército do duque de Bejar, comandante da Cantábria, nos princípios de 1638 entra no Alentejo, entra em Évora e põe termo à minha revolta, à revolta do Manuelinho. Dizem que fui executado. Lá isso fui, mas não em carne e osso, só em efígie. Tal como eu, Sesinando Rodrigues, João Barradas e outros chefes da revolta… Só em efígie, porque entretanto já tínhamos dado à sola e estávamos homiziados em casa de gente amiga…

Apesar da minha mágoa com os nobres (em geral) e com o duque de Bragança (em particular), três anos depois, no dia 1.º de Dezembro de 1640, quando da Restauração da Independência, não posso deixar de gritar um viva Portugal! e um outro viva D. João IV!

Em 1644 D. João IV quer fazer mercê a Sesinando Rodrigues. Mas o juiz do povo pede escusas, não aceita recompensas, pois fez apenas o que mandava a sua consciência. Bravo Sesinando!

Engenhoso é o discurso do Padre António Vieira, tenta mudar o curso do sebastianismo e espera que ele vá desaguar no Palácio da Restauração para honra e benefício de D. João IV… Sinais dos tempos! Ou, melhor dizendo: sinais da mudança dos tempos!

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