CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 7 – por José Brandão

Tomada de Santarém

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A guerra toma deste então um carácter regular de cercos e campanhas. Os meios correspondem aos propósitos, e estes à ideia da nação que começa a definir-se.

A tomada de Lisboa lavra a acta do nascimento da nação portuguesa, até aí envolvida nos limbos da geração. O cerco afigura-se-nos como o concílio internacional, uma espécie de congresso guerreiro, em que a Europa baptiza o recém-vindo à luz da história. Criado pelos actos geradores da vontade de um homem, abrigado pela égide da Igreja, Portugal tem a existência confirmada pela sanção dos exércitos cruzados da Europa. O carácter cosmopolita da sua vida futura, da sua ulterior fisionomia política, parece ter-lhe sido desde logo imposto, como um baptismo, quando, em frente dessa piscina do Tejo, onde fundeiam duzentas naus coroadas pelos pavilhões de tantas nações da Europa, se estende o cordão do exército de flamengos, lotaríngios, alemães e ingleses.

As colunas dos cavaleiros cruzados combatem ao lado das mesnadas dos barões portugueses, estendendo-se em meia-lua, a investir o morro de Lisboa; e com as pontas apoiadas contra o rio, formam metade do cinto que a armada, fundeada no Tejo, encerra. Com os francos e ingleses, colossais de estatura, rubros de sangue, hercúleos de músculos, vêm italianos sagazes, mestres consumados na arte das minas ou sapas. Sobre os navios e do lado da terra a arte acorre em auxílio da força. Os ingleses montavam as suas manganelas ou catapultas, os francos as suas torres; e Afonso Henriques pasmava desses maravilhosos instrumentos diante dos quais a escada e o punhal do salteador nocturno pareciam miseráveis. Acaso a comparação ofendia a sua opinião, bem fundada, de atrevido; acaso achava mais rápido e simples confiar o resultado aos seus expedientes favoritos de condor: o facto é que decidiu começar um assalto. Foi no dia 3 de Agosto que pela primeira vez ribombou a trovoada dos golpes dos moganons, o estridente sibilar das setas despedidas do alto das torres, e das pedras soltas das fundas, o clamor apocalíptico dos combatentes, erguendo um coro de imprecações ferozes proferidas nas mais desvairadas línguas. À tormenta dos sons respondiam os relâmpagos do pez, do azeite, da estopa incendiada, que os muros de Lisboa vomitavam sobre os assaltantes ajudando o sol que, iluminando a cena, congestionava as cabeças dos filhos da álgida Germânia, da Britânia ou da Francónia. Às ondas de lume, ao lume do sol, veio juntar-se um novo clarão de chamas e de grossas voltas de fumo negro que subia cravejado de centelhas a perder-se no ar: as torres ardiam! O assalto era repelido; a tentativa falhara.

Começou o cerco. Em poucos dias a voracidade feroz dos homens louros do norte destruiu quanto havia em torno de Lisboa: hortas e pomares, vilas, casais e granjas. Dentro da cidade escasseavam os mantimentos, e bandos de soldados fugiam com fome: do alto dos muros, os que ficavam perseguiam-nos com surriadas e pedras. Os gastadores minavam, atulhando a sapa com lenha cortada nos arredores; no dia decisivo, o fogo, consumindo esses transitórios esteios, roubaria a base às muralhas. Os italianos construíam uma grande torre, que ficou terminada em meados de Outubro, quando a resistência de Lisboa tocava o extremo. Queimaram-se os robles da sapa, assestaram-se os tiros, prepararam-se as colunas de soldados, e deu-se o assalto, logo que se ouviu o estrondo de um pano inteiro das muralhas que se derrocavam do lado do oriente.

Lisboa capitulou. Os Cruzados cevaram o amor de ouro, da prata, e das mulheres formosas, (auri et argenti et pulcherrimarum foeminarum voluptas) que os levava à Síria; e Afonso Henriques tomou posse da cidade. As fortalezas satélites de Lisboa não podiam resistir: Sintra, Palmela e Almada caíram em curto espaço nas mãos dos vencedores.

A base geográfico-marítima de Portugal estava ganha para não mais se perder; e se o rei fora o autor do facto da separação, era o rei quem todos os dias ia adiantando a obra de uma independência positiva e formal. Lisboa não valia menos, para tal fim, do que a protecção de Roma.

Esses dias de Zamora e de Lisboa (1143 e 47) marcaram o apogeu do reinado do primeiro monarca português. Batido em Badajoz pelo genro leonês (1169), foi-o também nas suas novas conquistas, pelo sarraceno (1167-71). Afonso Henriques não era já o mesmo homem: a idade quebrara-lhe o vigor de outros anos; e o perdão de Badajoz e as armadas dos Cruzados deviam ter quebrado também a cega confiança que punha nos seus recursos e habilidades. Via que no coração dos homens podia haver mais do que ambição e manha; e na arte da guerra processos mais valiosos do que a escada e o punhal, a razzia e o assalto nocturno. Tais observações, acompanhadas pela ferida do joelho que o conservava tolhido, roíam o velho capitão no seu antro de Santarém (1171).

O entusiasmo da tomada de Lisboa tinha-o impelido a prosseguir, aproveitando a comoção triste dos vencidos e o aparecimento de novas frotas que agora, cristã Lisboa, demandavam o Tejo, para refrescar, nas suas viagens para a Palestina.

Al-Kassr, ou Alcácer do Sal, era, para além de Lisboa, o centro estratégico da linha de defesa do Alentejo, que guardava Chelb ou Silves. Logo depois de rendida Palmela, Afonso Henriques, confiando demasiado nas próprias forças, investira, só e ao modo antigo, o castelo de Alcácer, mas fora cruelmente vencido (1151). Anos depois, vale-se do auxílio de uma frota inglesa, sem conseguir render a desejada praça (1157), que afinal cai perante o ataque combinado das forças portuguesas e aliadas da Cruzada de 1158. Évora e Beja cedem também por essa ocasião; e dir-se-ia que Silves, desguarnecida da sua linha de fortaleza fronteiras, ia cair rapidamente nas mãos do afortunado príncipe.

Não era, porém, assim. Essas sucessivas conquistas das praças do Alentejo não tinham a importância decisiva que tivera a de Lisboa. Levantadas como pontas de rocha isoladas, no meio dos vastos campos desolados, as praças do Alentejo ofereciam aos guerreiros abundantes presas; e por isto os Cruzados de tão boa vontade paravam aqui, a preludiar na Espanha o programa feito para a Síria. Saqueadas, incendiadas, porém, ou arrasadas, o seu valor para o reino era por certo lado pequeno ou nulo. O rei não dispunha de forças bastantes para guarnecer tão numerosos castelos e tão dilatadas fronteiras. Já para conseguir manter a linha do Tejo, tivera de doar às ordens monástico-militares estrangeiras (Hospital, Templo, Santiago) as praças raianas de Tomar, de Palmela, de Leiria. Os territórios despovoados e nus não vinham aumentar-lhe o número de soldados, nem a riqueza. Para que isso sucedesse era mister que a paz e o tempo fomentassem o desenvolvimento natural das forças económicas. Assim, desde que as armadas dos Cruzados, abarrotadas de presas, largavam a baía do Tejo, Afonso Henriques, tornando a achar-se a sós com os seus recursos militares, era forçado a abandonar as conquistas avançadas do Alentejo. Anos havia, tornara e deixara Beja; e agora (1158), das praças conquistadas, apenas guarnecia e conservava Alcácer.

Estas campanhas do Alentejo estão perante Silves como, antes, as da Estremadura perante Lisboa: enquanto o sarraceno pisar o Algarve, serão precárias todas as conquistas neste largo trato de terreno devastado, que não poderá nutrir-se e prosperar enquanto não estiver ao abrigo das invasões. Por que não foi Afonso Henriques cair directamente sobre Silves, aproveitando-se de alguma esquadra de Cruzados, em vez de consumir as suas forças na empresa estéril das correrias, conquistas e saques das praças do Alentejo? Porque evidentemente lhe faltava a larga vista das águias dominadoras, tendo só o que é comum a todas as aves de rapina: o ataque fulminante, e a garra cheia de força e tenacidade.

Depois de saquearem Alcácer, os Cruzados tinham partido; e a notícia dos sucessivos desastres dos últimos onze anos decidira os almuadens a tratar seriamente de pôr cobro aos progressos de Afonso Henriques. Invadem o Alentejo; e junto de Alcácer, seis mil portugueses mortos, o exército desbaratado, decidem a perda de todo o Alentejo (1161), pondo em perigo Lisboa. Os sarracenos chegaram a tomar Palmela e Almada, mas julgaram prudente abandonar esses pontos destacados na península de entre o Tejo e Sado. Desde que outras empresas obrigaram a retirar o exército almuade depois de fortificar Alcácer, já Afonso Henriques e os seus discípulos em aventuras podiam à vontade recomeçar as correrias e assaltos. Efectivamente, em 1161, um troço de burgueses toma Beja por surpresa; e em 1166 um bando de salteadores, com Geraldo à frente, de escada ao ombro, punhal nos dentes, entra uma noite em Évora, que saqueia e atulha de cadáveres. Eram portugueses? Eram sarracenos? Eram de uns e de outros; eram uma das muitas companhias de bandidos que batalhavam por conta própria, sem noção de pátria a que pertencessem, nem de religião que seguissem. Tinham por culto apenas a ladroagem, e adoravam o deus do estupro, do saque, da matança. Eram de todas as nações; e falavam uma algaravia moçárabe nos cristãos, most’latina nos muçulmanos — uma língua franca.

Afonso Henriques não podia sossegar vendo essas façanhas. Ei-lo outra vez a cavalo, Alentejo em fora, a correr charnecas e arremeter cidades: Moura, Serpa, Alconchel, e, internando-se pela Estremadura espanhola, Cáceres e Tordjala, ou Truxilho (1166).

Essa era a sua paixão, o seu furor. Que importa, se, apenas voltava costas, logo se erguia de novo a bandeira muçulmana nas muralhas que escalara à traição? Ele também voltaria, no Verão seguinte, a repetir a façanha. E assim, por falta do génio militar do conquistador, as cenas repetiam-se, os castelos passavam sucessivamente de mão em mão, e portugueses e sarracenos apenas podiam chamar seu ao terreno que actualmente pisavam. Se as forças próprias do português lhe não consentiam outra coisa; se, sem o auxílio dos Cruzados, não podia abalançar-se à empresa de Silves, melhor fora sacrificar a paixão ao interesse próprio, consolidando o domínio, do que pôr em perigo Portugal cistagano, por consumir de um modo estéril as forças militares do novo reino nas correrias transtaganas. O rude capitão não tinha porém inteligência para tanto: a correria arrastava-o, a presa seduzia-o, e a guerra governava-o a ele, em vez de ser ele quem governava a guerra. Sem plano fixo, à toa, à aventura, internara-se até Truxilho e queria tomar Badajoz, invadindo territórios que, apesar de sarracenos, eram vassalos do vizinho monarca de Leão. A sua loucura teve a sorte de todas as loucuras; e já o vimos coxeando e duplamente ferido, no joelho e nos brios, caminhar a esconder a sua vergonha em Santarém (1169).

O desastre de Badajoz devia ter soado por todo o Al-Gharb, onde as correrias e façanhas do bando de Afonso Henriques espalhavam a angústia e o terror; e o muçulmano, inimigo por pátria e religião, não devia ao bulhento príncipe a generosidade magnânima do genro leonês. Um novo e poderoso exército transpõe o Tejo, e vem cercar o ferido em Santarém (1171). Acode-lhe Fernando II que, como verdadeiro rei, sabia calar os ressentimentos pessoais, diante de um perigo comum para todos os príncipes cristãos da Península. Duas vezes salvo pelo genro que o vencera; humilhado, abatido, ferido e velho, Afonso Henriques já não é o irrequieto soldado de outros tempos. Santarém, que ganhara por esforço próprio, escalando os muros, era o seu túmulo. Aí num leito gemia dores de muitas espécies: todo o Alentejo estava perdido; e agora (1184) lúçufe, o grande emir de Marrocos, vinha em pessoa, dirigindo o exército, cercá-lo outra vez. Acudiria o genro outra vez a salvá-lo? Cinco anos havia que o exército muçulmano passeava triunfante pelos seus reinos. Não pudera entrar em Abrantes, mas tinha destruído Coruche, que era para a defesa de Lisboa e da linha do Tejo, como fora Leiria para Coimbra e para a linha do Mondego. Évora apenas resistira às invasões, que tinham levado Alcácer e Serpa, Beja, Moura, Juromenha e todo o Alentejo (1179-82). Como o javali, encerrado no covil e perdido, o guerreiro contava as horas, e antecipadamente sentia o penetrar das lanças nas suas carnes abatidas pela idade, e o quebrar dos seus ossos tão rijos ainda, mas mal governados pelos tendões flácidos. Chorava; talvez se arrependesse dos seus erros. Feliz porém mais uma vez, os acasos imprevistos concorriam para o salvar. À magnanimidade do genro devera o não ter ido acabar nalguma masmorra escondida nas montanhas das Astúrias; e a esta circunstância, verdadeiramente excepcional, de um príncipe generoso, deverá também o salvar-se do primeiro cerco. Em vez de Fernando, que não acudiu agora, veio em seu auxílio a sorte, que matou o emir de Marrocos, e espalhou uma peste no meio do exército almuade.

Levantou-se o cerco, Afonso Henriques pôde respirar ainda livre os últimos anos da sua já acabada vida.» *

* Oliveira Martins, História de Portugal, pp. 54-76.

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