RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Mario Draghi : itinerário de um bankster

No final do mês de Outubro de 2011, Jean-Claude Trichet deixou a Presidência do Banco Central Europeu. Para lhe suceder, o Conselho Europeu designou o italiano Mario Draghi, homem multi-funções, em breve o super-banqueiro da Europa. O itinerário de um bankster, portanto.

Mario Draghi - II

 Mário Draghi, um diplomado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em 1976, é um economista italiano, director executivo do Banco Mundial de 1984 a 1990, director do Tesouro italiano de 1991 a 2000, período durante o qual ele estava a dirigir as reestruturações que afectaram a Itália, para tornar o país apto a entrar na moeda única. A “marca Draghi”  foi a de se  terem aprovado as grande privatizações e a reforma da legislação financeira e do  seu compadrio existente na Itália. E foi o sucesso que vemos actualmente. Mas que importa o presente já que, na época, o objectivo era o de colocar a Itália em conformidade com os sacro-santos mandamentos europeus em matéria orçamental a caminho e a convergir para uma União Monetária. Mario  Draghi foi também, no início da década de 1990, o chefe da delegação italiana para as negociações em torno do Tratado de Maastricht.

Na sequência do “excelente” trabalho feito por Mário Draghi, alguns bancos de investimento centraram-se sobre o seu currículo internacional e abordaram este economista “brilhante”, mais europeísta que italiano. De aluno passa a executante virtuoso da finança desregulamentada no banco Goldman Sachs, onde ele fez as suas equipas de 2002 a 2005, como presidente para a Europa. Durante este período, o banco Goldman Sachs foi o banqueiro privilegiado do governo grego. De 2001 a 2004, o Goldman Sachs foi levado a maquilhar o caso da dívida grega, actuando nos mercados financeiros por meio de swaps cambiais (http://www.moneyweek.fr/20100220006…). Primeira coisa a reter : naquela época, Goldman Sachs estava consciente da situação insustentável da Grécia.

Então chegamos ao horizonte de 2009. A dívida grega deixa de ser defensável e Goldman Sachs, em seguida, vai então envolver-se  numa manobra digna do cenário do guião do filme ” A golpada” de George Roy Hill. A empresa vai deixar escapar um rumor de que a Grécia, através da Goldman Sachs, vai solicitar assistência à China para que ela lhe compre 25 mil milhões de dívida pública. Goldman Sachs sabia perfeitamente que a China se recusaria a cobrir uma tão grande quantidade de dívida. O objectivo da manobra? Introduzir o pânico nos mercados. Porque ao mesmo tempo, o banco americano caso recomenda aos seus outros clientes para que comprem CDS sobre a dívida grega (Credit Default Swap). Um CDS é uma espécie de seguro para o seu detentor se proteger contra o risco de crédito: o comprador paga um prémio regularmente, trimestralmente por exemplo, e se realmente o agente económico sobre quem incide o CDS não cumpre o contrato e não pode pagar, o detentor ganha o jackpot, o valor dos títulos, sobretudo se não tiver os títulos, se estiver a especular contra os títulos.

Por exemplo, o Goldman Sachs recebeu uma boa soma pela sua actividade de “consultoria”, com a Grécia e agora, nas costas do seu cliente, a Grécia, aposta contra o valor dos seus títulos. Como é que se chama a esta forma de agir ? Fraude? Delito de iniciados? A manipulação das cotações? As três coisas ao mesmo tempo ! Goldman Sachs estava por dentro da situação, tinha informações privilegiadas (sobre a situação grega), que o banco  utilizou para seu enriquecimento pessoal ( compra de CDS), ao mesmo tempo que manipulava as cotações e acelerava as coisas (rumor de compra da dívida pela parte da China). Estamos aqui fora de qualquer regra de ética financeira e mais ainda estamos perante o que há de mais apátrida, mais vil e mais nauseabundo na finança dos mercados desregulados. E o senhor Mário Draghi, Vice-Presidente para a Europa desta instituição queria vir jogar aos super banqueiros europeus?

Em sua defesa, Mário Draghi é um incompetente. Face às exigências feitas pelo FMI de se justificar Super Mario afirmou que ele não estava encarregue do dossier grego. Estamos tranquilos. Trata-se do vice-presidente de uma instituição que não conhece os seus dossiers. Incompetência, portanto. Procurem o erro noutros lados!

Cheguemos então às nossas interrogações. Será Mario Draghi o homem para a situação? A partir de Novembro de 2011, este homem irá interferir nos assuntos económicos de todos os países da zona euro. Ele irá “aconselhar” os nossos ministros das Finanças, irá pô-los na ordem, e, com cada vez mais rigor para os povos e todos a trabalharem para Super Mario. Que legitimidade tem esse homem, para ser um dos que estão à frente dos destinos da Europa ? Será que não se vê a quem é que Mario Draghi prometeu ele obediência, fidelidade, será mesmo que não vê? Será que ainda se pensa sinceramente que ele ouve as recomendações dos outros?  Mario, o bankster, acabar de fazer o assalto do século na Europa, ele vai-nos impor planos de austeridade, e isto mesmo quando ele é um dos responsáveis, é um dos arquitectos dos actuais desequilíbrios na Europa. Vale a pena voltar a insistir, que legitimidade tem ele, dada a sua carreira financeira-europeista-atlantista? No momento em que a necessidade de regulação e de regulamentação é vital para a economia real, um grande padre da finança vai-nos contar uma bela história, uma bela canção.

Isto levanta uma nova questão. Não será de nos espantarmos que os nossos dirigentes, ou os candidatos ao Supremo  não se insurjam contra este estado de coisas? Eles louvam-nos sucessivamente a sua intenção de querer resolver as questões da finança moderna. Mas não é nada disto! Como é que se pode entrar em conflito com aqueles que financiam as campanhas?

Não acho que Super Mario nos irá oferecer presentes. Ele irá esmagar a nossa soberania, ele será o açougueiro da Grécia (cúmulo da ironia, acrescente-se), depois será a vez da Espanha, da Itália. Da França? De acordo com os boatos em circulação, multiplicam-se os CDS sobre a dívida pública da França. Nada disto se pode confirmar  porque se trata de um mercado completamente opaco em que os únicos protagonistas de peso, os mestres do jogo, são as instituições financeiras como Goldman Sachs, Barclays, HSBC e outros. Será que se acredita que Super Mario vai salvar a França? É como espetar um dedo num  olho e enfiá-lo até ao cotovelo e enquanto se espera, dizemos Amen. Amém para os ladrões. Amén para os escroques . Amém para os nossos carrascos.

Estamos a presenciar o aparecimento de uma nova estrutura social, “A Demonicracia. É necessário voltarmos a ser cidadão-militante, pacífica e democraticamente.

É hora de nos juntarmos todos, como amigos, como cidadãos, isto não é apenas um mau sonho ruim…

Maurice, Mario Draghi : itinéraire d’un bankster, Texto disponível no site AgoraVox, cujo endereço é:
http://www.agoravox.fr/actualites/europe/article/mario-draghi-itineraire-d-un-101494

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