O QUE SE PASSA NA CASA DOS VIZINHOS NÃO NOS DIZ RESPEITO? NEM QUE OCORREM VIOLAÇÕES DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS ? por clara castilho

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Recentemente, algumas notícias sobre situações que pensávamos já não existirem, vieram perturbar as nossas convicções de que já faziam parte do passado.

No Alentejo, uma mulher foi encontrada num estado quase animal num monte isolado, a viver completamente isolada do mundo desde os 10 anos e contando agora 33. O Centro Distrital de Beja da Segurança Social soube da situação através do presidente da Junta de Freguesia de Vale de Vargo, Serpa, que encontrou a mulher em Novembro, enquanto visitava uma instituição da aldeia. O seu agregado familiar era composto por seus pais e uma irmã dez anos mais velha.

De acordo com o relatório da Segurança Social, a mulher foi encontrada num espaço muito pequeno da casa num estado quase animal, com comportamentos desajustados à idade, dificuldades em comunicar e comendo com as mãos.

Tentando reconstruir a sua situação percebeu-se que terá frequentado a escola até aos 10 anos, mas que a partir dessa idade deixara de ter contacto com o exterior, vivendo na casa com os pais e a irmã, completamente isolada do mundo.

Perante este facto foi inserida numa instituição, com a autorização do pai. Considera-se que está estabilizada, já comunica melhor, mas ainda permanecendo alguns comportamentos como o comer com as mãos. Interrogado, o pai disse que tinha decidido mantê-la isolada em casa, por considerar que tinha alguma deficiência e que não conseguiria viver sozinha.

Entretanto, a mulher está a ser avaliada por técnicos da Cercibeja – Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados de Beja, para se saber se tem alguma deficiência mental ou se o seu comportamento se deve ao facto de ter passado muito tempo isolada do mundo.

Num momento que quase todos têm acesso a televisão e a notícias, em que se sabe existirem leis de protecção, em que os mais indefesos têm serviços que os defendam, como é possível isto acontecer? É só aos familiares que temos que pedir responsabilidades? E quem tinha conhecimento?

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Por outro lado, uma outra situação, com cariz diferente: numa pequena aldeia de Avis, uma mulher viveu enclausurada desde os 14 anos, como um animal. Uns dizem que terá sido abusada e mantida refém por seu pai e que este facto seria conhecido por todos… Vive com seu pai já idoso, depois da morte da mãe. Outros irmãos estão proibidos de entrar na casa. Da rua, os jornalistas conseguiram ouvir a sua voz, com ganidos em imprecações e insultos contra o pai. Felícia Cabrita, num trabalho para o “Sol”, tentou reconstruir o seu mundo. Na aldeia ainda se lembram da jovem de 14 anos de espírito vivo e olhos sorridentes e curiosidade pelo que a rodeava. A sua prima terá confidenciado o abuso de que foi vítima há 40 anos, tendo a vergonha e o medo levado a despegar-se do mundo e a fechar-lhe as portas.

Segundo o psicanalista António Coimbra de Matos, esta atitude enquadra-se no  “síndrome de Estocolmo” – desvio mental desenvolvido pelas vítimas de sequestro. Citando o que diz no artigo referido: «Esta mulher deve estar muito mal, numa loucura de isolamento. Vê o mundo apenas através do pai, com quem mantém uma relação ambivalente. Por um lado odeia-o, daí os insultos, por outro aceita-o, porque está na sua estrita dependência e ganhou medo ao mundo circundante». Sobre a passividade da aldeia, diz: «Todos se defendem e atiram a responsabilidade para o pai, mas os pais já não têm essa autoridade absoluta sobre os filhos. A aldeia foi de uma cumplicidade passiva e também não quer pôr a sua honra em causa. Isto é um caso para o Ministério Público, que tem como obrigação proteger os cidadãos indefesos. Se eu fosse delegado, já tinha feito uma conferência com o delegado de saúde e o psiquiatra da zona e afastava aquele pai, que está a impedir que a filha se trate».

O primeiro caso lembrou-me o caso da “menina galinha” ocorrido no início dos anos 80 do século passado e o de outras “crianças selvagens” e sobre eles irei falar posteriormente.

 

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