CZAR DOS MOSQUITOS – por Fernando Correia da Silva

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Em 15 de Novembro de 1902 Rodrigues Alves é eleito Presidente da República. Em Dezembro toma posse. Promove a revolução urbana do Rio deImagem1 Janeiro. Rasga grandes avenidas no litoral (zona sul) e no interior (zona norte)  e, ao mesmo tempo, trata de alargar as ruas do centro da cidade. Chácaras e fazendas são desapropriadas e cortadas por vias públicas. Casas velhas, tugúrios e quiosques imundos são demolidos. Interesses privados são assim atingidos e começa a levantar-se um coro de protestos. É quando Rodrigues Alves declara que vai acabar com as doenças que fazem a desgraça e a vergonha do Brasil: febre amarela, peste bubónica e varíola. Convoca-me e eu, Osvaldo Cruz, vou à sua presença. Digo-lhe que se me der os meios necessários, em 3 anos acabarei com a febre amarela e mais tarde atacarei as outras doenças. Pouco depois entrego-lhe o rol dos referidos meios. Num dia o Presidente nomeia-me Diretor da Saúde Pública, mas no dia seguinte eu peço a demissão porque nomeara para secretário do meu projeto, não quem eu indicara, mas um figurão da sua confiança. Fica abismado com a minha atitude mas recua, despede o figurão, nomeia quem eu indico. A 26 de Março de 1903 tomo posse.

Primeiro inimigo a abater: a febre amarela, com o seu vómito negro e mortal. Tenho portanto que liquidar o stegomia fasciata, o mosquito raiado que, ao picar os homens, neles inocula o gérmen da doença. E isso só se consegue eliminando as águas estagnadas onde proliferam as larvas e as ninfas dos mosquitos raiados. Pedi ao Presidente um contigente de 1200 homens mas o Congresso, com as suas burocracias, tarda em aprovar o meu pedido. Então resolvo que uma brigada de 85 homens, chefiados pelo meu amigo Dr. Carneiro de Mendonça, saia em campo. Os meus fiscais sanitários batem quintais e jardins. Na ânsia de desinfetar invadem pátios e porões, trepam aos telhados, saturam com petróleo as águas estagnadas, poças e charcos. No início, os cariocas divertem-se e troçam dos mata-mosquitos. O Dr. Carneiro de Mendonça passa a ser o mosquiteiro-mor e eu ganho a alcunha de czar dos mosquitos. Mas depois a população do Rio, tocada pela imprensa (prosa satírica e caricaturas) e pela Oposição a Rodrigues Alves, irrita-se, hostiliza, apela para a violência. Para impedir a inspeção domiciliar dos meus agentes, os proprietários impetram habeas-corpus. A Justiça começa por lhes dar razão e eu entro na briga. Em Tribunal alego que, se numa rua, uma casa ficar por desinfetar, em breve a febre amarela tomará conta dos seus habitantes que irão infetar os vizinhos e isso é quanto basta para regressarmos aos cem óbitos diários de antigamente. O Supremo Tribunal recua, o habeas-corpus não pode ser aplicado nestes casos. E eu trato de acelerar o saneamento da cidade. Rodrigues Alves pede-me que eu não seja tão rígido. Não cedo e coloco o meu cargo à sua disposição. O Presidente mantém-me no posto. Chega mesmo a dizer para um amigo comum:

 – É impossível que esse moço não tenha razão.

No primeiro semestre de 1903, no Rio de Janeiro ocorreram 469 óbitos por febre amarela. Já no primeiro semestre de 1904 apenas 39. E em 1906 dou por extinta a epidemia de febre amarela. Cumpri o prometido: 3 anos para acabar com a peste!


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