O DEVER E O SORRISO NA VIDA DE ANTÓNIO MARQUES JÚNIOR – por Ramalho Eanes*

*Este artigo do general Ramalho Eanes é, com autorização expressa, transcrito do número 108 do REFERENCIAL. Ao autor e à “Associação 25 de Abril”, os nossos agradecimentos

Escreveu Yourcenar: “Para quê fazer da vida um dever se ela pode ser um sorriso?” Sem lhe recusar razão, direi que para este homem – António Marques Júnior – a vida foi, e não contraditoriamente, um sorriso e um dever. Um sorriso, de humilde reconhecimento e afecto, em primeiro lugar e em especial, para a sua mulher, a Luísa, para a sua filha, a Filipa, para a sua neta, a Luísa. Um sorriso de afecto, depois, para os seus soldados, amigos, camaradas, concidadãos. E foi também, e em simultâneo, sempre, um dever erigido em grande propósito ético, a que em todos os momentos respondeu com inteligência e ousadia, com nobre carácter, com impoluta honradez, com patriótica responsabilidade social. Foi, também, emblematicamente, com um sorriso e, sobretudo, com dever – dever intelectual, de responsabilidade social e, até, de afecto – que aderiu ao Movimento dos Capitães. Razões de dever intelectual porque sabia, já então, que a política para o ultramar era destituída de discernimento, ousadia e estratégia política contra-revolucionária. Obsessão política inútil, a do Governo, porque incapaz era, como disse David Galula – por muitos considerado o Clausewitz da insurreição –, de desenhar e prosseguir uma contracausa capaz de assegurar não só a modernização económica e o desenvolvimento social das colónias, como de organizar, localmente, eleições, preparar líderes políticos, fomentar a organização de formações políticas, estabelecer e agendar um referendo de democrática configuração, aberto à independência com Portugal. Razões, ainda, de dever e responsabilidade social porque sabe e sente que, a todos, tudo cabe fazer, no âmbito das suas possibilidades, para preservar e desenvolver, com justiça e liberdade, genuinamente democráticas, a sociedade a que se pertence e em que se vive.

A Primavera de Abril sente-a Marques Júnior em 1973, participando em todas as reuniões e opções do Movimento dos Capitães. Jovem tenente, recémcasado, totalmente se empenha na acção militar de Abril, tudo arriscando: arriscando a vida, mesmo, nos previsíveis confrontos militares a travar. E tudo faz aceitando como comando de tropas na acção, operacional, que, em caso de desaire, recuo não teria, pois lhe caberia, então, responder pelos seus homens e por si. E tudo faz arriscando o futuro da sua vida familiar, recém-constituída. E tudo faz, também, sabendo que punha em risco as suas legítimas ambições de carreira, que se augurava brilhante, dado a sua comprovada capacidade de liderança perante os seus soldados, aliás reconhecida, também, pelos seus superiores hierárquicos.

Terminada a acção vitoriosa de Abril, procura regressar à sua vida militar. E dela só sai, com relutância, quando, pelo seu prestígio, é chamado a colaborar no tempo político militar seguinte. Recusando, sempre, mediatismo, intervém, muitas vezes decisivamente, na conturbada transição democrática, mantendo sempre estrita fidelidade às promessas e às decorrentes obrigações de Abril, consagradas no Programa do MFA. Invulgar foi, então, o seu comportamento, nomeadamente quando teve de sacrificar velhas e gratificantes amizades à fidelidade coerente, ao grande propósito civil do programa do MFA: devolver a liberdade ao povo português, entregar-lhe a responsabilidade do seu próprio destino, dotando o País de um regime constitucional pluralista, de liberdades.

É ainda por razões de convicção e dever que inteiramente se compromete na preparação e na acção desenvolvida no 25 de Novembro e na qual tem papel de marcante relevo. Chamado a integrar o Conselho da Revolução, foi, nele, uma voz de esclarecida exigência e coerência, antes e depois do 25 de Novembro. São o seu carácter, a coerência da sua vocação de servir, a sua inteligência prudencial que o tornam um conselheiro isento, sereno, realista a que, não raras vezes, eu, enquanto Presidente da República, recorri.

Institucionalizada a democracia, reconheceu que o seu distintivo – e distinto – percurso político-militar lhe acarretara uma visibilidade e estatuto pouco compagináveis com a instituição militar reinstitucionalizada na sua ideologia formal – unidade, hierarquia e disciplina. Conhecendo a sua vocação militar e o apelo dos seus camaradas para que regressasse ao Exército, calcula-se, bem, a angústia que terá sentido ao renunciar fazê-lo.

Opta, então, por um percurso político que procura desempenhar, e desempenha, com carácter, com honradez, com competência. Exigência, auto- -exigência de competência que o leva, inclusive, a voltar à escola, à universidade, para fazer estudos de Economia. É, primeiro, dirigente e deputado à Assembleia da República (AR) pelo PRD. Extinto este, e com ideológica coerência, ingressa no PS. É repetidamente eleito deputado por esta formação partidária. Chega a ser vice-presidente da AR. Nesta instituição ganha o respeito e a consideração tanto dos deputados como dos funcionários que nela servem.

Deixa a AR no final da penúltima legislatura. Mas não abdica da sua responsabilidade social, dedicando atenção à situação das instituições estruturantes do Estado, às políticas do Governo, à personalização responsavelmente actuante da sociedade civil. Morre depois de, com enternecedor sorriso, nos dar conta – dar conta aos seus amigos – do enlevo que sentia pelo nascimento da sua primeira neta, a Luisinha, como lhe chamava.

Neste momento de partida de mais um capitão de Abril, de um emblemático capitão de Abril – Marques Júnior – sei que palavras não há para apaziguar a dor sentida, em especial pela sua mulher e pela sua filha. Mas que lenitivo seja lembrar quanto este homem deu – deu à sua família, aos seus amigos, à sua pátria. E tanto deu que, se merece lugar no nosso coração e na nossa memória, lugar merece, também, e lugar de devido relevo, na História, na nossa História, sobretudo pelo seu carácter, pela sua honradez, pelo seu patriotismo, pela sua acção de sempre dedicadamente servir e de nunca se servir.

E terminaria socorrendo-me, de novo, de Yourcenar, dizendo: Passa o tempo e “gasta-se o mundo, mas a sua […] alma permanecerá jovem”, jovem no nosso coração, na nossa memória, porque Marques Júnior envelhecer não deixou nem ideais nem a coragem de, coerentemente, os defender e perseguir.

(Testemunho lido, a pedido da família, dada a forte ligação de amizade, na missa de António Marques Júnior, na Basílica da Estrela, a 2 de Janeiro de 2013)

1 Comment

  1. H tanto a desconhecer ….pq no se publica para serenar este Povo?Ser que aqueles que enobreceram este Pas como tantos de outrora se encontram em profundo silncio? Maria S

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