A HISTÓRIA PODE DAR ALGUMA AJUDA – IX – “Tomando sempre novas qualidades” – por Carlos Leça da Veiga

IV – “Tomando sempre novas qualidades”

Com bastante certeza vai ser-me apontada uma acusação de incongruência – de disparate – ao dizer, como o faço, que a matéria atrás exposta foi-me despertada por uma efeméride política portuguesa, o 18 de Janeiro de 1934. Foi um acontecimento revolucionário que a História, muito justamente, consagra como a Revolta da Marinha Grande, embora, seja sabido que, numa escala muito mais diminuta, esse mesmo espírito revolucionário fez sentir-se em Lisboa, Coimbra, Leiria, Barreiro, Almada, Martingança, Silves, Vila Boim (Elvas), Algoz, Tunes e Funcheira.

Há setenta e nove anos, fruto duma vontade política revolucionária, surgiu uma qualidade nova na vida portuguesa que, se esteve na origem da Revolta do 18 de Janeiro ficou, para sempre, como uma das suas consequências mais marcantes. Esteve em causa uma decidida vontade política de querer travar o passo à ditadura salazarista mas, dessa feita, com a peculiaridade de ser obra de trabalhadores – operários sindicalizados – ao invés das tentativas anteriores (Chaves, 11/9/1926; Porto, 3/2/1927 e Lisboa, 7/2/1927) cometidas sob comando militar. O 18 de Janeiro, não tinha a coloração reviralhista, antes – assim consta – a anarco-sindicalista.

Para a generalidade dos observadores – erro deles – foi um episódio descolorido, irreflectido e inconsequente cometido à revelia do interesse político duns tantos supostos detentores de toda a verdade.

A História, como sempre, pode dar alguma ajuda quando dá conta seja tanto das vitórias como, por igual, dos desaires. No caso do 18 de Janeiro houve um desaire mas, tal como entendo as coisas, foi aparente, ou seja, mais uma das tais aparências com que, quantas vezes, tem sido pintada – mas mal – muito da História da evolução humana.

Se o salazarismo depois da Revolução de 3 a 9 de Fevereiro de 1927, no Porto e em Lisboa, fez os seus primeiros fuzilamentos (Largo do Rato, em Lisboa), reforçou a sua perseguição aos oposicionistas e deu inicio à sua policia política, depois do 18 de Janeiro, teve de apresentar mais uma outra feição desprezível do seu comportamento como fosse a da sua obstinação política, a do seu carácter maldoso e, em definitivo, a do seu comportamento radicalmente ditatorial. Exibiu a sua tremenda intolerância à Democracia, aos direitos do Trabalho e, também – facto esclarecedor – a sua imensa brutalidade repressiva. O Campo de Concentração do Tarrafal, uma consequência do 18 de Janeiro, é o seu exemplo mais significativo.

Naquele ano de 1934 o salazarismo dava passos no sentido de erradicar, em definitivo, todos os vestígios de Democracia que o regime republicano de 1910, apesar de tudo, tinha permitido florescer, por desígnio, o do livre associativismo sindical.

A Confederação Geral de Trabalho, a Federação Autónoma Operária e a Comissão Intersindical forma mandadas encerrar para serem substituídas pela organização corporativa da sociedade que, para a área especifica do trabalho, tal como mandavam as normas salazaristas, passaria a ter sindicatos feitos à medida dos interesses ditos nacionais, isto é, todos o compreenderam, aqueles dos possidentes. De associações livres passaram para grupos comandados pela batuta do regime político.

Dos acontecimentos da Marinha Grande fica como lição da História que uma pequena parte da População, quando sentiu estar a ser defraudada pela repressão política do chamado Estado Novo, entendeu dever rebelar-se e, com autonomia, sem olhar a inconvenientes, talvez, mesmo sem saber medir as consequências mas – isso é notável – convicta e intransigente nas suas convicções políticas não hesitou, com heroísmo, em dar um passo em frente. Procedeu bem?

Deixou um exemplo digno do maior respeito e admiração. Nos dias que correm, quem não lhe sente a falta?

Que merece exaltar-se o valor democrático da sua acção revolucionária, disso não pode haver quaisquer dúvidas. É inquestionável que os intervenientes deixaram uma valiosa memória de insubmissão e, sobretudo, a dum arrojo assinalável na sua luta contra a política repressiva da ditadura salazarista. Por força do exemplo deixado, só deve dizer-se terem procedido bem.

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