
Esta história dos créditos extra-orçamentais faz-me lembrar a aventura que, há meses, sucedeu ao Praxedes. Sua Ex.ª, que toda a sua vida tem sido um descuidado, vivia, depois que criara família, com bastantes dificuldades. O seu ordenado de pequeno funcionário não chegava, evidentemente, para satisfazer os encargos obrigatórios da sua casa e as suas fantasias de alfacinha pretensioso.
Ultimamente, sugestionado pelas habilidades financeiras do Dr. Afonso Costa, não esteve com meias medidas. Tais providências adoptou que, poucos dias depois, encontrava-o radiante.
― Sabe? Este mês ponho dinheiro no Montepio…
― Pode lá ser!
― É assim mesmo. A minha mulher fazia dois vestidos por ano, a minha filha outros dois e uma blusa suplementar. Chapéus eram quatro. O meu pequeno devora um par de botas por mês e eu mastigava três em cada doze meses. Para comer e beber gastava quinze tostões por dia, para casa dez mil reis por mês etc., etc. Consegui arrumar o meu orçamento. Já me sobejam fundos.
― Como?
― É muito simples. Para minha mulher e minha filha, um vestido por ano…
― Para cada uma?
― Para ambas. Quando uma sai, fica a outra em casa. O petiz foi avisado de que tinha que se governar com um par de palhetas cada semestre. Pelo que respeita a mercadorias de estômago, abonei cinco tostões diários. E assim sucessivamente. O resultado viu-se logo. Neste mês, ganhando eu cinquenta mil e pico, poupei vinte mil e tanto.
Deixei Praxedes radiante. Dois meses depois encontrei-o desolado.
― Que é isso?
― Você lembra-se do meu sistema de juntar dinheiro!
― Pois sim e então?
― Meu amigo, não serve. Domingo disse à família que se preparasse para sair e, passada meia hora, apareceu-me minha mulher em camisa e minha filha com uma folha de parra. O pequeno, esse, há que tempos que andava descalço e com o assento à mostra… Conclui…
― O quê?
― Que o único remédio que tenho é, como sou pobre, tratar de gastar aquilo que ganho e só isso, deixando-me de fantasias de querer poupar dinheiro.
