Seleção e tradução de Francisco Tavares
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A grande mentira da guerra da Ucrânia
A campanha de drones da Ucrânia não mudará a guerra — mas fará com que ela escale perigosamente.
Publicado por
em 9 de Julho de 2026 (original aqui)

Tornou-se uma espécie de ritual sazonal. Todos os verões, Bruxelas lança uma nova ofensiva de propaganda sobre a Ucrânia — e este ano não é diferente. “A maré está a virar”, declarou A Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, nas redes sociais há algumas semanas, alegando que a Ucrânia, com a ajuda da Europa e da NATO, tomou a iniciativa, enquanto a Rússia foi forçada a ficar na defensiva. A mesma frase foi, desde então, ecoada literalmente por políticos e comentadores em todo o ecossistema transatlântico, no que é claramente um impulso narrativo coordenado. Enquanto isso, somos informados de que a economia russa está — mais uma vez — à beira do colapso, e que até a queda de Putin pode estar iminente.
Já estivemos aqui antes. Em intervalos regulares desde a invasão de Putin, o complexo político-mediático Ocidental tem trabalhado para convencer o público de que a vitória da Ucrânia estava ao virar da esquina e que a própria Rússia estava à beira do colapso. Em 2023, por exemplo, jornalistas Ocidentais e organizadores de agenda passaram meses exagerando a contra-ofensiva da Ucrânia, que iria “virar a maré” a favor de Kiev. A campanha foi um fracasso catastrófico, produzindo baixas em massa e ganhos territoriais insignificantes.
A mais recente alegada viragem da guerra é a campanha de ataque de drones da Ucrânia dentro da Rússia – chegando até São Petersburgo e Moscovo — visando logística, depósitos de combustível, refinarias e linhas de abastecimento. Vários alvos civis também foram atingidos, causando numerosas baixas. Na segunda-feira, Moscovo sofreu o maior ataque de drones até agora. O presidente Zelensky anunciou agora uma operação de 40 dias contra alvos russos para “influenciar o estado agressor no sentido de pressionar pelo fim da guerra”, o que provavelmente significará muitos mais ataques desse tipo. Estas medidas coincidem com o desembolso da União Europeia dos primeiros 3,2 mil milhões de euros do seu empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia.
O momento não é coincidência. Na terça-feira, teve início uma Cimeira crucial da NATO em Ancara, onde o lobby pró-guerra — tanto na Europa como em Washington — está desesperado para defender que a Ucrânia está a ganhar. É uma narrativa que o próprio Trump parece feliz em satisfazer, provavelmente para compensar o fiasco do Irão: ele até assinou a recente declaração dos líderes do G7, comprometendo-se a “aumentar a entrega de capacidades de defesa aérea, sistemas e interceptores adicionais e capacidades de longo alcance”; considerar estender as licenças de produção à Ucrânia; e “reforçar as nossas sanções, incluindo as dos sectores do petróleo e do gás”.
É também, com toda a probabilidade, uma resposta à crescente fadiga da guerra no Ocidente, confirmada pela recusa da República Checa, da Eslováquia e da Hungria em financiarem o empréstimo acima mencionado — uma recusa que o novo governo pró-UE da Hungria não reverteu até agora — seguida pela decisão do novo governo búlgaro de proibir o fornecimento de armas à Ucrânia.
A campanha de drones de Kiev está certamente a ter um impacto. A produção de petróleo russa foi afectada; houve uma grave escassez de combustível em todo o país, como até Putin admitiu. A Ucrânia também interrompeu as rotas de abastecimento russas ao norte do mar de Azov, causando cortes de energia na Crimeia e na parte russa da região ucraniana de Kherson, nas proximidades. Mas é improvável que estes ataques mudem o curso da guerra. A economia russa está a vacilar, mas mantém-se numa posição melhor do que grande parte da UE. De facto, citando preços mais elevados do petróleo, em grande parte uma consequência da guerra com o Irão, o Fundo Monetário Internacional elevou em abril a sua previsão para o crescimento do PIB da Rússia em 2026 em 0,3 pontos, para 1,1%. Entretanto, reviu em baixa as previsões para as três principais economias da UE — Alemanha, França e Itália — para 0,8%, 0,9% e 0,2%, respectivamente.
Mais crucialmente, porém, o exército russo continua a avançar no campo de batalha. Está a aproximar-se gradualmente do seu objectivo de conquistar todo o Donbass. Há dias, Moscovo anunciou a captura de Kostiantynivka — uma cidade em Donetsk e a maior povoação que tomou desde Mariupol. A cidade foi um dos últimos redutos na estrada para importantes cidades controladas pela Ucrânia, Kramatorsk e Sloviansk, cuja captura é o objetivo final do Kremlin no Donbass. As tropas russas também avançam em torno de Chasiv Yar e Toretsk, obtendo ganhos em combates urbanos e em posições elevadas, e continuam a avançar em torno de Lyman e Rai-Oleksandrivka. Tudo isso contradiz categoricamente a narrativa predominante de “a Ucrânia virou a maré”.
Se mais provas fossem necessárias de que as coisas estão a correr mal para a Ucrânia, basta olhar para a política de “busificação” [alistamento militar forçado] cada vez mais generalizada — o rapto nas ruas de homens em idade de recrutamento para serem enviados para a frente de batalha, que está a alimentar uma crescente oposição interna à guerra — ou para a proposta da UE de excluir homens ucranianos em idade militar, na prática todos os homens com idades compreendidas entre os 23 e os 60 anos, do regime de protecção temporária da União Europeia.
Sob esta luz, a campanha de drones parece menos um fator de mudança do que um sinal de desespero: dada a incapacidade da Ucrânia de virar a maré no campo de batalha, Kiev e a NATO decidiram “trazer a guerra para a Rússia” através de uma campanha semi-terrorista.
No entanto, não há provas de que a campanha de drones da Ucrânia irá reverter a guerra — muito menos forçar Putin a capitular. De facto, ao longo dos últimos dias, as forças russas lançaram alguns dos maiores ataques com drones e mísseis em Kiev até agora, matando dezenas de pessoas.
É difícil dizer o quanto a campanha da Ucrânia está a afectar o apoio público a Putin. É verdade que está a afectar o moral da Rússia, mas, como escreveu Leonid Ragozin, a situação no país permanece relativamente estável: apesar de todos os efeitos dramáticos das refinarias em chamas e das filas nos postos de gasolina, a maioria dos russos já viu coisas piores ao longo da sua vida, e a grande maioria ainda desfruta de um nível de vida comparável ao dos países mais pobres da UE — muito longe do que suportaram durante os maus velhos tempos dos anos noventa.
A “sondagem” mais fidedigna virá a 20 de setembro, quando a Rússia realizar eleições para a Duma [Parlamento]; alguns analistas prevêem que o partido Rússia Unida, no poder, sofrerá um resultado humilhante às mãos dos comunistas à sua esquerda e do (confuso) Partido Liberal Democrático à sua direita. Mas quem espera que isso possa pressionar Putin a acabar com a guerra ficará desapontado: ambas os partidos assumiram uma posição ainda mais dura sobre o conflito do que o partido Rússia Unida de Putin. Os ataques ucranianos estão, se alguma coisa, a encorajar as vozes mais agressivas no Kremlin, que acusam Putin de administrar mal o conflito e exigem uma resposta muito mais enérgica. Afinal, a história sugere que, quando os russos se sentem encostados à parede, não capitulam; endurecem. Assim, quanto maior for a pressão sobre a Rússia, maior será a probabilidade de Putin se ver obrigado a intensificar a guerra.
Independentemente dos efeitos a curto prazo, a campanha de drones da Ucrânia é um exemplo clássico de como os drones estão a reescrever as regras da guerra em tempo real. Ataques estratégicos profundos — a capacidade de alcançar as cidades, indústrias e liderança do inimigo muito atrás da frente — eram até recentemente privilégio de países com poderosas forças aéreas e arsenais de mísseis. Mas os drones de baixo custo e produzidos em massa democratizaram-na. Um país que perde a disputa de atrito no terreno — como é claramente a Ucrânia, em papel muito inferior à Rússia em termos materiais e de mão-de-obra — pode agora infligir vastos danos no interior do território da potência mais forte. E uma vez que o lado mais fraco exerce essa opção, qualquer incentivo que o lado mais forte possa ter tido para exercer contenção entra em colapso.
É, afinal, uma questão de registo histórico que, até agora, a Rússia se absteve de infligir destruição massiva a Kiev e a outras grandes cidades distantes da linha de frente e, durante a maior parte da guerra, poupou visivelmente os centros de decisão do governo – apesar de ter os meios para o fazer. Nos primeiros oito meses do conflito, Moscou também deixou a rede de energia da Ucrânia intocada; osataques só começaram após o ataque à Ponte de Kerch em outubro de 2022. Nesse sentido, a guerra com drones nivela o campo de guerra, mas também convida a uma escalada, retirando o lado mais fraco da proteção indireta que a própria assimetria — a sua incapacidade de infligir danos em massa ao inimigo — uma vez lhe proporcionou.
É isso que torna o momento actual tão perigoso. Uma superpotência nuclear está a ser submetida a uma campanha sustentada de ataques contra as suas principais cidades, a sua infraestrutura estratégica e, por extensão, à sua liderança — apoiada pela inteligência Ocidental, executada com armas ocidentais e agora apoiada por um compromisso explícito do G7 de “acelerar” a entrega de capacidades militares de longo alcance.
Como recentemente alertou Matthew Blackburn, do Instituto Norueguês de Assuntos Internacionais, se Moscovo decidir que a sua contenção na Ucrânia está a ser explorada para impor danos humilhantes no coração da Rússia, poderá abandonar os ataques nas infra-estruturas ucranianas em favor dos centros de abastecimento e fábricas europeias que tornam possível, em primeiro lugar, a campanha de bombardeamento profunda de Kiev, corrigindo assim a assimetria e restaurando a dissuasão nos seus próprios termos. De facto, Moscovo tem repetidamente sinalizado que a sua paciência não é ilimitada; as vozes no seio do establishment russo falam cada vez mais de restabelecer a dissuasão atingindo alvos na própria Europa. A razão pela qual a Rússia até agora se recusou a fazê-lo é óbvia: tal ataque poderia facilmente transformar-se numa guerra total que a Rússia não tem interesse em travar — como observou recentemente o General Alexus Grynkewich, Comandante Supremo Aliado da NATO na Europa e principal comandante militar da aliança. Simplificando, o custo da retaliação excedeu até agora o custo da tolerância. Mas se este último continuar a aumentar, o cálculo da Rússia poderá muito bem mudar.
O facto essencial é que ninguém no Ocidente sabe onde se encontram as linhas vermelhas da Rússia — e, de facto, a política Ocidental parece avançar partindo do pressuposto de que elas não existem de todo. Enquanto isso, os europeus continuam a argumentar que não há alternativa senão continuar a apoiar a Ucrânia indefinidamente porque “a Rússia se recusa a negociar”. Mas, como escreveu recentemente Anatol Lieven, do Instituto Quincy, é a UE — e não a Rússia — que até agora se recusou a negociar. Embora Moscovo tenha passado o ano passado em negociações sustentadas com Washington e tenha abandonado progressivamente várias das suas principais exigências, os europeus condicionaram as negociações a um cessar-fogo incondicional que a Rússia não pode aceitar sem renunciar à sua únicavantagem, e envolveram esta pré-condição em “princípios” que equivalem a uma exigência de capitulação russa.
A principal vítima desta postura tem sido a própria Ucrânia, condenada a uma guerra de desgaste que não pode vencer militarmente. Se a exaustão eventualmente produzir um cessar-fogo sem um acordo, entretanto, poderia levar a uma condição de insegurança permanente ao estilo de Caxemira. É do interesse da Ucrânia — e do interesse da Europa no seu conjunto — negociar um acordo de paz global. Sabemos em termos gerais o que qualquer acordo realista implicaria: concessões territoriais da Ucrânia em troca de garantias de segurança (à excepção da adesão à NATO e do destacamento de tropas ocidentais). Se tal oferta seria suficiente para Putin reivindicar a sua medida de vitória e acabar com a guerra, ninguém ainda pode saber. Mas o que sabemos é o custo do atual status quo.
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O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e co-autor com Bill Mitchell, de Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017). O seu último livro, em co-autoria com Toby Green, é “The Covid Consensus”.


