GIRO DO HORIZONTE – Trapalhadas de carnaval – por Pedro de Pezarat Correia

10550902_MvCyL[1]Neste espaço do GIRO DO HORIZONTE que semanalmente rubrico, tenho por vezes afirmado, desde o verão passado, que o governo acabou, morreu. Alguns analistas dizem que ressuscitou com a entrada do ano, com uma conjuntura externa e interna que lhe foi favorável. Até posso admitir que essa conjuntura externa se verificou, que trouxe aos países da zona euro mais atingidos pela crise alguns sinais de alívio financeiro resultante de iniciativas do BCE. Mas é um alívio aparente, que não tem qualquer impacto na economia e no desesperado dia-a-dia da maioria das famílias portuguesas. E o poder executivo em Portugal, esse continua na mão de um não-governo, de uma quadrilha (Clara Ferreira Alves dixit), de um bando de gangsters (Daniel Oliveira id.), de uma trupe de trapalhões (vários id.) que assaltaram o poder. Um governo republicano para resolver em democracia os problemas dos portugueses, isso não temos.

 É trágico, mas quando esta gente tenta dar sinal de vida, mais se afunda. A comédia bufa da nomeação do secretário de estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação (raio de nome que até os homens do bando se atrapalham para o pronunciar) veio denunciar como a quadrilha (obrigado Clara Ferreira Alves por me ter facultado a designação apropriada) está envolvida e se confunde com o caso BPN/SLN, a maior fraude financeira que tão duramente nos está a ir ao bolso. A forma desastrada, mas arrogante, como se agride a sensibilidade dos portugueses, como se vicia o currículo tornado público, como se mente e exibem falsas provas perante uma comissão parlamentar na Assembleia da República, como se escolhe Relvas – Relvas, minhas senhoras e meus senhores!!! – para atestar a inocência, a inteligência e a competência do secretário de estado, tudo isto raia as fronteiras da paranóia.

  É penoso ouvi-los. É penoso ouvir Coelho falar de verdade. É penoso ouvir Gaspar falar de rigor. É penoso ouvir Portas falar de responsabilidade. É penoso ouvir Relvas falar de transparência, de cabalas, de tudo. É penoso ouvir Álvaro falar, falar e não dizer nada.

  Os defensores de Franquelim Alves acotovelam-se para testemunharem a sua competência, a sua inteligência. Atiram poeira para os olhos, porque a questão nem sequer está no nomeado – apesar de, pelo menos, se revelar demasiado ingénuo para, depois de se deixar embrulhar na SLN/BPN, vir reincidir com Relvas e C&. –, mas nos intrigantes contornos da nomeação.

Sem que esteja a pensar na pessoa de Franquelim Alves, que não conheço, faço questão de deixar claro que, se há coisa que me incomoda, é a invocação da inteligência, da competência, para abonar o carácter de alguém. Não me esqueço que reagia muito mal quando, no antigamente de má memória, em determinados meios se ousava criticar o Salazar com dados objectivos, lá vinha uma voz piedosa: “Pois, mas é um homem muito inteligente”.

  A inteligência, a competência, não são, só por si, virtudes humanas. São características individuais que podem ser virtuosas ou perversas conforme o sentido em que são aplicadas. O pior defeito de um malandro é ser inteligente ou competente. Al Capone era um gangster inteligente. Hitler era um sanguinário competente. Alves dos Reis era um vigarista competente. Salazar era um ditador inteligente. Mas nenhum deles, que escolhi como meros exemplos, era um homem de bem. Virtudes são a bondade, a honestidade, a solidariedade, a justiça, o bom senso, qualidades que definem uma pessoa de carácter. A inteligência e a competência não definem uma pessoa de carácter e têm, pelo contrário, estado muitas vezes, demasiadas vezes, ao serviço do mal.

  Elogiar alguém pela inteligência, pela competência, depende do lado em que essealguém se encontra. Se estiver do lado de cá, do lado do bem evidentemente, será virtuoso. Se estiver do lado de lá, do lado do mal, obviamente, será perverso. Guardadas as devidas diferenças, vem-me à memória a resposta atribuída a Roosevelt (salvo erro), quando alguém o alertou para o apoio que os EUA davam a essa figura sinistra de Somoza, da Nicarágua: “eu sei que ele é um f. da p.; mas é o nosso f. da p.”

P.S. Já agora ocorre-me uma pergunta: será que ainda não expirou o prazo dado pelo Ministro da Educação para que a Universidade Lusófona resolvesse as irregularidades nas “licenciaturas por equivalências”, na sequência do inquérito que foi suscitado pelo escândalo Relvas?

11 de Fevereiro de 2013

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