CARTA DE VENEZA – 46 – por Sílvio Castro

Duas grandes pianistas brasileira e portuguesa

 

 Duas pianistas, ambas de excepcionais predicados técnico-artísticos, avultam na história moderna dos grandes musicistas do Brasil e de Portugal: a brasileira Guiomar Novaes e e portuguesa Maria João Pires.

 Na minha juventude ativa, isto é, em particular a partir de 1950, o nome e a figura de Guiomar Novaes aparecem sempre como uma quase presença. Escutava as suas interpretações através dos programas musicais das transmissoras radiofônicas com sede a Rio de Janeiro. A rádio do Ministério da Educação e Cultura e a rádio Roquete Pinto eram aquelas que apresentavam uma programação de  música clássica mais saliente. Além disso, vez em quando, eu tomava contacto com a arte da pianista paulista através de seus discos. Porém, tal conhecimento bastante assíduo nunca fez para mim Guiomar Novaes um “mito“, como mais adiante me acontecerá em relação a Glenn Gould. Isto provavelmente porque, quanto aos concertos no Teatro Municipal carioca de Guiomar Novaes, estes ocorriam quase sempre nos seus retornos anuais de suas atividades concertistas no exterior, em particular nos USA. Nessas ocasiões o Teatro atingia sempre uma presença de expectadores que o lotava completamente. O que impedia aos “penetras” habituai de tomar posto nem mesmo no “galinheiro”, isto é, na última galeria…

 Guiomar Novaes (1894-1979) estréia diante de um público em 1902, quanto tinha apenas oito anos. Em 1909 acontece um evento que marca a sua vida de artista: recebemdop um auxílio do Governo do Estado de São Paulo, parte para  estudar em Paris. Logo que chega à capital francesa, a muito jovem pianista brasileira se inscreve para os exames de admissão no concurso do Conservatório parisiense. Ao concurso participam 331 candidatos, de várias nacionalidades, em procura da conquista de uma das doze vagas. A primeira prova se faz no dia 18 de novembreo de 1909 e, depois da mesma, permanecem em liça somente 30 candidatos. A segunda prova se realiza em 25 de novembro do mesmo 1909. A comissão julgadora era composta por musicistas e compositores como Claude Debussy, Moskowski e Lazare-Lévy. Para este primeiro exame, a jovem Guiomar se apresenta com a execução de um Prelúdio e Fuga do Cravo Bem Temperado, de Bach, um estudo de Liszt-Paganini e a 3ª. Balada de Chopin. Foi quando, Claude Debussy, fascinado pela interpretação da jovem já virtuose brasileira, pede a repetição da 3ª. Balada de Chopin –

 “Eu estava voltado para o aperfeiçoamento da raça pianística na França…; a ironia habitual do destino quis que o candidato artisticamente mais dotado fosse uma jovem brasileira de treze anos. Ela não é bela, mas tem os olhos <ébrios da música> e aquele poder de isolar-se de tudo que a cerca – faculdade raríssima – que é a marca bem

caracterítica de um artista.”

Assim Debussy escrevia no dia 25 de novembro de 1909 em carta a André Caplet.

  Admitida em primeiro lugar, por unanimidade, Guiomar Novaes percorre os cursos do Consevatório Musical de Paris. Enfrentando a prova de encerramento de seus estudos parisienses no mês de julho de 1911, prova superada em primeiro lugar diante de 35 concorrentes, ela vence então o Primeiro Prâmio, rico da quantia de 1200 francos e um piano de cauda.

  Daí parte imediatamente para concertos nas maiores capitais européias, retornanco ao Brasil somente em 1913, quando se apresenta no Teatro Municipal de São Paulo e no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

  O imenso sucesso de Guiomar Novaes, devido especialmente às suas especiais interpretações das obras de Chopin e Schumann, a acompanha por toda a sua existência. Depois da participação na Semana de Arte Moderna de 1922, no cenário do Teatro Municipal de São Paulo, Guiomar Novaes se faz uma grande divulgadora da música de Heitor Villa-Lobos no exterior.

  Maria João Pires (1944), a mais notável pianista do Portugal contemporâneo, representa para o cenário musical português, o mesmo que Guiomar Novaes sempre representou para 000000aquele brasileiro. As duas grandes pianista se identificam e se encontram tanto na precocidade das respectivas carreiras, como na constante evolução do domínio que conquistam em suas execuções. Guiomar Novaes  foi possivelmente uma intérprete possuidora de uma maior carga carismática quando se confrontava com o público; Maria João Pires possivelmente é mais embebida de serena participação com o seu instrumento, seja quando executa seus belíssimos pezzi camerísticos, como quando comparticipa com outros intérpretes  em seus concertos.

 Na sua veste de intéprete de música de câmera, eu assisti a um primoroso concerto por ela realizada no Teatro La Fenice, de Veneza, na interpretação de Sonatas de Beethoven. Inesquecível me ficou deste concerto a execução que Maria João Pires deu à Sonata opus 111 do genial compositor alemão.

 Toda a carreira da pianista portuguesa foi marcada por dados excepcionais, chegando aos grandes valores atuais. Também ela fenômeno de precocidade, realiza o seu primeiro recital quando tinhas apenas cinco anos e já aos sete anos tocava publicamente Concertos para piano de Mozart. Dois anos depois receberá os maiores prêmios portugueses para jovens musicistas.

 Estuda então regularmente no Conservatório Musical de Lisboa, com o professor Campos Coelho. Depois continuará seus estudos na Alemanha, inicialmente na Musikakademie, de Mônaco da Baviera, com Rosl Schmidt e em seguida em Hanover, com Karl Engel. A sua fama internacional de intéprete de clássicos e românticos principia em 1970, quando em Bruxelas vence o prêmio do Beethoven Bicentennial Competition. Daí em diante percorre os continentes, executando seus autores prediletos, preferencialmente Mozart, Beethoven e Chopin nos teatros das mais importantes cidades do mundo. Em 1989 ela vem galadoarda com o Prêmio Pessoa. Neste mesmo momento funda o Centro de Estudos de Artes de Belgais.

 De ânimo irrequieto, em 2006 transfere a sua vida para o Brasil, instalando-se estavelmente em Salvador da Bahia. Logo em seguida, recebe a cidadania brasileira, sem renunciar àquela sua natural, portuguesa.

 Depois de algumas peripécias pessoais que abalaram a sua vida até mesmo no plano material, Maria João Pires retoma com regularidade a sua habitual atividade internacional de concertista. No atual 2013, entre outras sedes próximas, ela já se exibiu em Estrasburgo, Áustria, no dia 26 de janeiro, no Grosses Festspielhaus, com o seguinte programa: Wagner: ”Siegfried-Idyll” – Mozart: Concerto para piano, n° 20 k 466 – Mozart: Serenata n° 9 K 320.  Logo em seguida, aos 12 de fevereiro do mesmo 2013 se exibiu no Barbican Centre, de Londres, apresentando o Concerto para piano n° 21 K 467.

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