REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

O FMI levanta o pé sobre do travão  da austeridade, mas não a Europa, não o PS francês

Laurent Pinsolle

Depois da publicação de um primeiro estudo no início de Novembro, Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI acaba de publicar um artigo em que critica  as políticas de austeridade que desde há muito  tempo têm sido defendidas  por esta Instituição, o FMI,  e têm sido severamente aplicadas na Europa, apesar das inúmeras advertências.

Porque é que  a austeridade não funciona

Trata-se de  uma   verdadeira revolução tipo de Copérnico  feita pelo economista chefe do FMI, Olivier Blanchard, (que tinha proposto aumentar  a meta de inflação). Enquanto que a instituição de Washington tem sempre defendido  e exigido  políticas de ajustamento extremamente  severas  do ponto de vista orçamental, trata-se agora de reconhecer que a experiência   sobre os efeitos destas políticas mostra que estas   podem ser contraproducentes por causa dos seus  efeitos recessivos, e estes  tinham sido largamente subestimados nos modelos  económicos  utilizados.

Para ser um pouco mais técnico, nos seus anteriores modelos, o FMI estimou que um 1% de ajustamento orçamental   do PIB   tinha  um multiplicador de 0,5, ou seja, esta  redução  orçamental   provoca   um declínio no PIB de 0,5%. No momento, devido ao impacto de um menor crescimento  nas receitas de impostos e das despesas  públicas , o resultado líquido deste esforço  seria de  cerca de 0,75% do PIB. ( Nota de Tradutor-Dito de forma mais directa: uma redução orçamental inicial de 1% do PIB gera uma redução  final global final no défice  de 0,75 de PIB e uma redução final no PIB de 0,5).  Em suma,  os países sofrem, mas o esforço parece ser eficaz.

O problema é que a experiência tem mostrado que esses modelos teóricos eram falsos. Olivier Blanchard acredita que agora o multiplicador em vez do valor anteriormente assumido estará antes compreendido no intervalo de 0,9 a 1,7. O problema é que quando se  está no topo da escada, o esforço de austeridade é extremamente contraproducente, a contracção da actividade é então muito alta e a redução do défice é por isso mesmo bastante limitada . Isso é exactamente o que está a  acontecer  na Grécia, Espanha ou Portugal, onde o défice   não desce  mais do que nos Estados Unidos.

pinsolle

Ilustração retirada  de The Economist e do artigo: No short cuts, Short-term austerity in the aftermath of a severe crisis may prove more painful than thought, Outubro de 2012

A Europa num impasse

A confissão do FMI terá sem dúvida agradado quer a  Joseph Stiglitz, uma vez que este tinha amplamente   criticado essas políticas desde 2001 no seu  livro “A grande desilusão”, antes de as denunciar de novo   no relatório encomendado pela ONU em 2009, quer a  Paul Krugman, que denunciou, no  seu último livro, a política de austeridade . Além disso, conforme o relata Libération,   ele reagiu no seu  blog   a esta publicação afirmando que o FMI “tem o mérito de repensar a sua posição à luz dos factos”.

Mas o “Prémio Nobel de economia” de  2008 também assinala que “a verdadeira má notícia é que muito poucos dos outros actores na política económica fazem a mesma coisa. Os dirigentes europeus, que criaram um enorme sofrimento à escala europeia digno da Grande Depressão  de  1929 nos países endividados,  sem sequer restaurar a confiança financeira, continuam a dizer que a solução resultará  apenas com mais sofrimento”. O pior é que tudo isto era previsível, como escreveu  Jack Dion: Nicolas Dupont-Aignan  tinha-o declarado já  em Maio de 2010.

Mais preocupante é continuar a ver que o governo “socialista” se agarra desesperadamente a estas condições de austeridade  apesar da admissão de erro assumida pelo economista-chefe do  FMI. Pierre Moscovici ou Jérôme Cazuhac, pelo lado do  governo, Valérie Rabaud ou  Karine Berger pela Assembleia ,   são incapazes de ter em conta e de  aliviar a pressão a nível do défice, o que  corre o risco de  colocar  a economia em recessão e de enviar centenas de milhares de pessoas para o desemprego.

Naturalmente, deve-se  respeitar o  dinheiro público e geri-lo  com rigor. Mas desde há três anos, que as politicas de austeridade  levadas a cabo na Europa nos têm encostados à parede. Mesmo o FMI acaba de o reconhecer . É surpreendente que o governo  seja incapaz de o admitir ele próprio.

Laurent Pinsolle, Le FMI lève le pied sur l’austérité, pas l’Europe ou le PS ! Texto disponível em vários sites, entre os quais  :  http://www.debout-la-republique.fr/article/le-fmi-leve-le-pied-sur-l-austerite-pas-l-europe-ou-le-ps
Ver também do mesmo autor: Quand le FMI critique les politiques d’austérité, disponível em: http://www.gaullistelibre.com/2012/11/quand-le-fmi-critique-les-politiques.html
Laurent Pinsolle: Membre du Bureau national de DLR, Délégué national à l’Equilibre des Comptes publics et au Patriotisme économique.

Leave a Reply