CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 14 – por José Brandão

D. Dinis e seu filho D. Afonso — Guerra civil — Morte de el-rei

  D. Dinis viu os últimos anos do seu reinado perturbados por desavenças de família que deviam amargurá-lo profundamente. Parece que já em 1314 havia sinais de rivalidades entre seus filhos, e principalmente despeitos no herdeiro D. Afonso e no irmão deste, D. Pedro Afonso, por verem D. Afonso Sanches, seu irmão bastardo, na dignidade de mordomo-mor de el-rei. Com efeito, naquele ano fez D. Dinis larga distribuição de mercês por seus filhos, acaso para suavizar descontentamentos, e um dos contemplados foi D. Pedro Afonso, que recebeu o condado de Barcelos.

D. Afonso, herdeiro do trono, de seu natural fogoso e arrebatado, pretendeu que seu pai lhe largasse o governo do reino, e neste desígnio procurou entender-se com D. Maria, rainha de Castela. Apesar da proibição de D. Dinis, conhecedor do mau propósito do filho, este foi em 1319 entrevistar-se com a rainha de Castela, junto de Cidade Rodrigo, donde ela escreveu ao monarca português a fazer-lhe a indecente proposta de ceder o mando a D. Afonso. D. Dinis repeliu a afronta, mas fê-lo em termos corteses, para não exasperar mais o filho. Tentava este justificar o seu procedimento atribuindo falsamente ao pai a intenção de transmitir a Coroa a D. Afonso Sanches.

Continuou o infante D. Afonso a propalar intrigas e falsidades sobre os propósitos do pai, que os desmentia nos mais decisivos termos. Inventou-se até que D. Dinis suplicara ao papa João XXII que dispensasse no defeito de ilegitimidade, para que D. Afonso Sanches pudesse alcançar a sucessão do reino, atoarda que o pontífice desmentiu indignadamente em bula dirigida aos estados eclesiástico e secular de Portugal.

Chegaram as indisposições a tal ponto que no 1.º de Julho de 1320 mandou el-rei publicar um extenso manifesto, no qual recordava os benefícios que prodigalizara ao filho e exprobrava-lhe a ingratidão com que lhe assacava acusações caluniosas.

Pouco depois, nas terras de Entre Douro e Minho, onde estava o infante D. Afonso, parciais deste praticavam as maiores violências em vassalos fiéis a el-rei. Ainda no mesmo ano, com os mesmos e outros partidários, saiu o infante de Coimbra e foi apoderar-se de Leiria, que el-rei pôde recuperar pouco depois. Sabendo que seu pai marchava sobre Leiria, procurou o infante evitar o encontro, pondo-se a caminho de Santarém. Espalhava-se o desassossego em todo o reino, com assassínios e violências de toda a espécie, e para que ninguém escapasse aos horrores da tormenta, nela foi envolvida a própria rainha Santa Isabel, que de zelosa fautora de pazes alguns caluniosamente converteram em parcial do filho contra o marido.

D. Dinis, recebendo incautamente a intriga, à qual dava aspectos de verdade a entrada de D. Afonso em Leiria, vila do senhorio da rainha, privou sua virtuosa esposa de todas as rendas e mandou-a, como em custódia, para a vila de Alenquer, que também lhe pertencia.

Persistiu o infante na sua rebeldia e D. Dinis no propósito de castigar os maus conselheiros de seu filho, sem quebra das normas da prudência para evitar batalhas sangrentas. D. Afonso, que tinha a sua casa no arrabalde de Coimbra, apoderou-se desta cidade a 31 de Dezembro de 1321. No dia seguinte foi tomar o Castelo de Montemor-o-Velho; de lá passou a Gaia, depois ao Castelo da Feira, ao Porto e finalmente foi pôr cerco a Guimarães, que lhe resistiu. Ali foi de improviso encontrá-lo a rainha Santa Isabel, que partira de Alenquer a fim de reduzir o filho a melhor conselho; porém, não quis atendê-la.

Levantou D. Afonso o cerco de Guimarães, para socorrer Coimbra, atacada por el-rei. Após ele partiu a rainha sua mãe, que junto de Coimbra, e agora auxiliada pelo conde de Barcelos, parcial do infante, intentou fazer a paz. Ajustou-se uma trégua, mas o prazo dela expirou antes de concluído o acordo. Feriu-se ainda um combate, em que as tropas reais não levaram a melhor, ao acometerem a cidade pela ponte, e só depois se assentou que, a fim de melhor prosseguirem as negociações, el-rei e o infante seu filho se retirassem, o primeiro para Leiria, o segundo para Pombal. Assim o fizeram, depois de despedida de parte a parte toda a gente de guerra, conservando apenas os respectivos séquitos e os negociadores da paz.

Finalmente, no princípio de Maio de 1322, estabeleceu-se a concórdia. El-rei acrescentou as rendas de seu filho, e largou-lhe o senhorio da cidade de Coimbra, vila e Castelo de Montemor e os Castelos de Gaia, Feira e Porto, fazendo o infante homenagem de os ter da mão de el-rei e deles fazer paz ou guerra a seu mandado.

No ano seguinte (1323), o infante, sempre impulsivo e rodeado de maus conselheiros, renovou as hostilidades, partindo de Santarém para ir tomar Lisboa. D. Dinis, antes de ir ao encontro do filho, mandou exarar em instrumento público as queixas que tinha dele, e enviou-lhe parte, que sob pena de sua maldição não fizesse tal jornada.

As forças de el-rei e as do infante foram encontrar-se em Alvalade, onde soavam já as trombetas e se despediam dardos quando apareceu a Santa Rainha, que pôde serenar os ânimos e estabelecer a concórdia.

D. Isabel no campo de batalha de AlvaladeImagem1

Em 1324 deu-se nova revolta do infante, que levou os habitantes de Santarém a recusarem obediência a el-rei. Ali se dirigiu D. Dinis, causando com sua presença grande alvoroço na vila. Ainda se feriu combate e durante alguns dias se repetiram os tumultos, até que uma vez mais se estabeleceu a harmonia, vencida a repugnância de el-rei em tratar com o rebelde contumaz seu filho.

D. Dinis, posto que não muito avançado em idade, estava alquebrado de forças, gasto de cruéis desgostos de tantos anos. Faleceu a 7 de Janeiro de 1325.

A rainha Santa Isabel

D. Isabel de Aragão, filha de D. Pedro III, rei de Aragão, e de sua mulher, D. Constança, casou muito nova, em 1282, com el-rei D. Dinis. Segundo uma narrativa escrita quase imediatamente depois da sua morte, D. Isabel nasceu em 1271, informação que parece não merecer inteira confiança.

Em Portugal viveu a esposa de D. Dinis no culto das virtudes cristãs, que patenteou com grande brilho quando o seu coração de esposa e mãe foi posto à prova nas lutas de seu marido com o irmão e o filho.

Apenas enviuvou, no princípio de Janeiro de 1325, entrou no Convento de franciscanas de Santa Clara, em Coimbra, onde vestiu o respectivo hábito, sem, contudo, fazer profissão religiosa.

No mosteiro deu-se completamente à oração, à penitência e a outras obras de piedade. Desfez-se de tapeçarias, jóias, alfaias e outros objectos riquíssimos que possuía, dispondo deles a favor de várias igrejas, principalmente da igreja do seu mosteiro, para uso do culto. Foi sobretudo notável a sua grande caridade, de que deu sublimes provas por ocasião de uma horrorosa fome que houve em Coimbra e em toda a Península, no ano de 1333. Mandava a Santa Rainha distribuir muitas esmolas de pão e carne aos pobres da cidade e aos que se acumulavam nas albergarias, e como era grande o número de mortos, nem destes se esquecia, distribuindo mortalhas, mandando abrir sepulturas e encarregando os seus clérigos da encomendação dos finados. Em 1336 dirigiu-se a piedosa rainha a Estremoz, a fim de aplacar a cólera de D. Afonso IV, então em guerra aberta com o rei de Castela, seu genro. Ao chegar ali sobreveio-lhe no braço um tumor, que ao cabo de poucos dias a vitimou (4 de Julho).» *

* Fortunato de Almeida, História de Portugal, Vol. II, pp. 11, 12, 16-20, 27-30.

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