A IMPORTÂNCIA DO SONHO – ANTÓNIO TORRADO INSPIRA-NOS por clara castilho

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Chegou-me a informação de um pequeno vídeo com marionetas de luz negra, feito a partir de uma história delicada de António Torrado, “ A cerejeira da Lua”, que nos confronta com a sabedoria oriental em torno da dimensão humana e da importância do sonho.

Em 1971, numa entrevista a alunos da Escola Francisco Arruda, que lhe perguntaram como lhe tinha nascido a ideia de escrever livros para crianças, respondeu:

Quando tinha a vossa idade, ou ainda mais novo, lia muito, e ficava sempre decepcionado quando um livro acabava. Então, porque reler o mesmo livro não bastava, punha-me a inventar uma continuação que me mantivesse em companhia das personagens que comigo tinham vivido através do livro lido. Assim comecei a imaginar histórias, depois a escrevê-las e, mais tarde, quando descobri que já não era criança, fiz-me escritor para crianças e jovens”.

 A psicanalista Teresa Ferreira, numa conferência conjunta com  António Torrado (que lamento não saber nem onde, nem quando, mas cujos apontamentos lhe passei no computador, meses antes de ela falecer), comentava:

“Conhecemo-nos há muitos, muitos anos… e para mim este reencontro é apenas a confirmação da sua “riqueza interior” que já se adivinhava na época. Recordo uma festa de Carnaval onde era obrigatória a presença da máscara. António Torrado apresentou-se nessa noite com traje de maior riqueza imaginativa – “A cidade e as suas serras” – em que a parte superior trajava de fraque e cartola e a inferior de saia minhota e tamancas… E eu… eu ia vulgarmente disfarçada de “Bruxa má”…

 Acrescento outra qualidade que lhe admiro e que sempre vemos aliada ao “ser criativo” inteligente – a modéstia.

A.Torrado

Como diria João dos Santos, a sua arte conjuga-se com a capacidade notável de manter viva a criança que existe dentro de si próprio, mas que muitos adultos mataram no seu interior ou emparedaram nas defesas racionalizantes pseudo-intelectuais, em que o uso da linguagem deixou de ser um acto comunicativo, aproximando-se mais da pobre exibição de um solilóquio autístico.

António Torrado alimenta a criança que há nele e muitas outras, e adultos saudáveis que partilham com ele essa riqueza simbólica interior numa relação comunicativa, enriquecedora e estruturante.

As crianças adoram contadores de histórias. Também elas o são, quando alguém do meio envolvente as estimula a criar. Quando as fantasias não são modos rígidos de defesa narcísica, mas antes a capacidade e o prazer de reinventar o real envolvente.”

http://www.youtube.com/watch?v=iQWgntXH0Jw

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