CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 15 – por José Brandão

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D. AFONSO IV – O BRAVO
(reinou de 1325 a 1357)

«Carácter do novo rei — Perseguição a D. Afonso Sanches

Se D. Afonso IV, ao receber o encargo da realeza, trocou o espírito irrequieto e leviano pelos cuidados da administração, como unanimemente afirmam os antigos escritores, ao menos não perdeu o carácter suspicaz e rancoroso com que perturbara a paz da família e do reino. Assim o provam as perseguições movidas a seu irmão D. Afonso Sanches, em desabrimento de ódios represados, sem uma tentativa generosa de pacificação nem ao menos forma regular de processo.

Com efeito, um dos primeiros cuidados do novo monarca foi renovar a calúnia de que seu irmão quisera envenená-lo e ao papa o acusara de incapaz de reinar, procurou roborar estas falsas imputações com forjadas certidões e instrumentos, e nestas bases condenou o infante a desterro perpétuo e perda de todos os seus bens. A sentença foi pouco depois publicada em cortes, onde ninguém ousou erguer a voz contra a injustiça de todos reconhecida.

D. Afonso Sanches casara com D. Teresa Martins, filha de D. João Afonso de Meneses, senhor de Albuquerque e de Medelim, conde de Barcelos e mordomo-mor de el-rei D. Dinis. Vivia como vassalo de el-rei de Castela na vila de Albuquerque quando lhe chegou a notícia da sentença que o condenava. Defendeu-se por escrito das falsas acusações e mandou suplicar a seu irmão que lhe fizesse justiça, revogando a condenação; porém, tudo foi baldado.
Atribui-se ao tempo em que se davam estes acontecimentos um episodio, conservado na tradição através dos séculos, e que, verdadeiro ou inventado, encerra uma grande lição das velhas liberdades portuguesas.
Andava el-rei nos descuidos a caça, monteando feras na serra de Sintra, enquanto as notícias ameaçadoras da vingança do infante perseguido alarmavam a população. Chamado à corte naquele sobressalto, el-rei tardou em chegar. Voltando e achando-se em conselho com os seus ricos-homens e ministros, contava-lhes desvanecido as suas proezas da caça quando um deles o atalhou, dizendo que não era aquele o oficio de reinar, antes cuidar do bem da terra e da justiça dos vassalos e que teria el-rei de olhar mais a sério pelas coisas do governo, quando não…
D. Afonso, impacientado, respondeu:
— A mim, quando não? E quando não, quê?
— Quando não, quê? Senhor! Buscaremos outro rei que nos governe.
Observou el-rei:
— A mim me hão-de dizer meus vassalos, quando não buscaremos outro rei?
— A Vossa Alteza, Senhor, se no governo do reino e defensão dos povos não tomardes outra vereda; e quem assim vo-lo não disser, nem é fiel a vosso serviço, nem zeloso de vossa honra.
Entretanto D. Afonso Sanches passava da ameaça aos factos. Com a gente de que dispunha passou a fronteira nas proximidades de Bragança e pôs tudo a ferro e fogo, enquanto forças mais numerosas, capitaneadas por seu filho D. João Afonso de Albuquerque, faziam o mesmo em terras de riba de Odiana. Provendo à defesa, el-rei D. Afonso pôs como fronteiro em Ouguela o mestre de Avis D. Gonçalo Vaz, que pouco depois foi desbaratado. Correu o próprio monarca a invadir terras de Albuquerque e foi pôr cerco ao Castelo de Codeceira, que após longa resistência se rendeu pela fome (1326).
D. Afonso Sanches abandonara a luta, doente de sesões. El-rei voltou a Lisboa, e pouco depois, por intercessão da rainha Santa Isabel e outros medianeiros, portugueses e castelhanos, assentou-se a paz. Ao infante foram restituídos os bens patrimoniais de que seu irmão o tinha despojado.

Casamento da infanta D. Maria
Ainda rescaldavam em Castela as lutas civis que tinham atormentado o governo de Fernando IV quando, por morte deste, foi aclamado aos treze meses de idade seu filho Afonso XI, sob os auspícios do infante D. Pedro, seu tio (7 de Setembro de 1312). Acenderam-se então novas dissensões. Os ambiciosos disputavam a tutela do rei menino e o predomínio no governo; os turbulentos, aproveitando a fraqueza do poder central, davam largas às paixões e violências. É alheia ao nosso plano a narrativa das lutas constantes, que lançaram a monarquia castelhana em grande desordem, sem administração nem segurança pública, a ponto de muitas pessoas abandonarem os seus haveres, procurando asilo em Aragão e Portugal.
Em tão miserandas circunstâncias encontrou Afonso XI o reino de Castela, quando aos catorze anos de idade assumiu o governo (1325). Passado o primeiro momento, em que todos protestaram acatar a autoridade do jovem monarca, de novo surgiram ambições mal sopesadas. Os infantes D. João Manuel e D. João, o Torto, logo se conjuraram contra el-rei e procuraram cimentar o acordo com o projecto de casamento de D. Constança, filha de D. João Manuel e já viúva, com D. João, o Torto. Afonso XI procurou desfazer o conluio, pedindo para si a mão de D. Constança, que, apesar de viúva, era de tão tenra idade que o casamento, depois de feito, não chegou por tal motivo a ser consumado.
D. João, o Torto, houve-se por ultrajado e jurou vingar-se, para o que se afastou do serviço de el-rei de Castela e procurou a amizade de Jaime II, rei de Aragão, e de Afonso IV de Portugal. Em plano traiçoeiro bem indigno da sua idade, Afonso XI atraiu-o a Valhadolide, onde o mandou apunhalar no próprio paço (31 de Outubro de 1326). Indignado com tão odioso crime, D. João Manuel afastou-se também do serviço de seu genro e retirou-se para Múrcia. Foi então que se pensou no casamento de el-rei de Castela com a infanta D. Maria de Portugal.
Ou por ambições de D. Afonso IV, como pretendem historiadores espanhóis, ou por iniciativa de el-rei de Castela, indisposto com o sogro e instigado por seus conselheiros, Afonso XI enviou dois embaixadores a Coimbra, onde definitivamente se ajustou o casamento, que algum tempo depois se celebrou na fronteiriça vila de Alfaiates (1328). A infeliz D. Constança, repudiada e donzela, foi reclusa no Castelo de Toro.

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