AS DOENÇAS DE OUTRORA ESTÃO A REAPARECER, de Clotilde Cadu

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Nota introdutória

Dedico este trabalho aos meus amigos médicos que no contexto presente fazem em Portugal o possível e, por vezes, quase o impossível por uma medicina de qualidade

Parte II

(conclusão)

O francês médio que apanha o metro em horários de grande afluência e portanto de grandes apertos no metro, a família pobre, que vive num 15 m2, as crianças que brincam juntas nos recreios e mesmo Zlatan, o sueco,  se ele troca a sua camisa do PSG com a de um jogador que tem sarna, podem apanhá-la, a sarna. A grande diferença é que o cidadão em situação de precariedade terá mais probabilidades de que ela se instale na sua vida  e por muito tempo e ser ainda sujeito a fenómenos de repetição, de recaída : a pobreza cria a promiscuidade na qual o ácaro se aloja e onde vive bem o parasita sarcopte, o que por seu lado prejudica seriamente a cura. Livrar-se então da coceira é um luxo: os frascos de tratamento e de spray custam €75, não são reembolsados pela segurança social, e deve tratar-se toda a roupa da cama ou mesmo atirá-la fora.

Sarna, tinha tuberculose, tosse convulsa, sarampo, rubéola, papeira … No século XXI, a França, quinta potência mundial, vê regressar e com força as doenças de um outro século. As infecções esquecidas que se incrustam , grandemente encorajadas pela precarização do meio social e ambiental . “Hoje, existem bairros a 15 km de Paris, onde vivemos com a tuberculose como no século XIX. Isso deve levar a que se interrogue o Estado”, alarma-se Claude Dilain, senador de Seine-Saint-Denis pelo PS , pediatra e ex-prefeito de Clichy-sous-Bois. Em 2011, a cidade suburbana foi palco de um pico inédito de tuberculose: 23 casos só no conjunto de alojamentos insalubres  de Chêne-Pointu. . E sem dúvida muitos outros, não detectados no resto da aglomeração urbana da periferia.

Paradoxalmente, os habitantes de Seine-Saint-Denis estão muito melhor vacinados do que os seus compatriotas do resto da França contra o bacilo da tuberculose, mas continuam a ser os primeiros a serem atingidos pela doença (31,4 casos por 100000 habitantes, ou seja 4 vezes mais do que a média nacional). A vacina existe, mas oferece apenas uma fina barreira de protecção: eficaz contra as formas graves da doença, ela não impede que não se venha a apanhar a doença. A vida em comunidade, além disso, em condições de precariedade e com limitado acesso aos cuidados de saúde, facilita a circulação do bacilo. Antes de erradicar a tuberculose, é a pobreza  que deve ser eliminada.

Eu tenho medo de ver a doença espalhar-se no território. É verdade que esta diminuiu grandemente [8,1 casos por 100.000 habitantes em 2010, contra 250 por 100.000 em 1950 e 15 por 100.000 no período 1980-1990, Nota de Redacção]. Mas ela pode ressurgir a qualquer momento, especialmente com a pauperização da sociedade. Ninguém está imune», inquieta-se Claude Dilain, que defende uma política centrada principalmente em despistagem regulares. Na verdade, oito meses após o surto em Clichy-sous-Bois, um novo foco se acendeu em Val-de-Marne: 7 pacientes numa escola em Maisons-Alfort. No final de 2012, quatro casos foram assinalados no seio de uma só família modesta de Outreau, em Calais.

De Janeiro a Novembro, 208 casos foram identificados nesta região, contra 167 para todo o ano de 2011. As mesmas causas, os mesmos efeitos. “A situação é excepcional,” disse a Drª Sandrine Segovia-Nuron, responsável pela saúde ambiental e pública na ARS do Nord-Pas-de-Calais. ” Vimos recentemente  surgir dois casos de tuberculose neuro-meníngeas, uma causando a morte de uma criança. Nenhum caso tão grave tinha sido relatado em todo o território francês desde há dois anos. Tínhamos quase esquecido que a tuberculose existia ainda”.

UMA SENTIMENTO ANTI-VACINA DESDE O FIASCO DO H1N1

Um pouco como se tinha esquecido o sarampo. Em meados da década de 2000, menos de 50 casos por ano foram detectados. A este ritmo, a partir de 2010, o sarampo já não deveria ser  mais do que uma longínqua lembrança , atirada para fora do território através de  uma vacinação eficaz. Errado. Naquele ano, 3429 de sarampo foram detectados. Um ano mais tarde, em 2011, quase cinco vezes mais casos (16466) são identificados. “É um vírus altamente contagioso, uma única pessoa doente pode contagiar cerca de 15 pessoas. Muitas pessoas não estavam imunizadas e apanharam a doença, “diz Christiane Bruel, da ARS de Ile-de-France.

No total, entre Janeiro de 2008 e Maio de 2012, mais de 22.000 casos foram registados, 5.000 pacientes foram hospitalizados e 10 morreram. ” Para eliminar o sarampo, é necessário uma cobertura de vacinação em 95% para a primeira injecção e de 90% para a segunda na idade de 2 anos, disse o Dr. Denise Antona, epidemiologista no INV. Ora, em França, essas taxas são de 90 e 65%, respectivamente. Entre os países ocidentais, em 2011, tivemos a maior incidência de sarampo. É inaceitável que se morra ainda hoje do sarampo em França! “O pico do surto, forçou um pouco a que os franceses se fossem revacinar, contendo o vírus. Isso não impede.

A desastrosa campanha contra a gripe A/H1N1, em 2009 despertou o sentimento anti-vacina nos nossos concidadãos. Mesmo entre médicos, prontos a assinar falsos atestados de vacinação para as crianças que devem estar imunizadas se querem que elas sejam admitidas nas creches.  “ A opinião pública tem sido enganada,  prevendo-se-lhes uma situação de apocalipse que nunca veio. ‘ O que aconteceu com o H1N1 é grave e tem contribuído para a desmobilização da população», analisa o Pr Marc Gentilini, muito severo contra os «gripólogos», responsáveis  pela indiferença ou mesmo da rejeição para se tomarem  as vacinas. «Sarampo, a tosse convulsa…» Na época de Pasteur e das suas vacinas tinham-se reduzido estas doenças. Por falta de vacinação adequada, estas doenças reaparecem. É terrível. O reaparecimento destes surtos sinais de alarme, são chamadas à ordem. “Numa altura  em que as mudanças climáticas e a globalização fazem aparecer novas ameaças epidémicas é talvez chegado o momento de ter em contas estas ameaças.

CLOTILDE CADU – MARIANNE, Les maladies d’antan refont surface, 25 de Janeiro de 2013.

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