EDITORIAL – O Socialismo e a Esquerda.

Imagem2A notícia de que Eurico Figueiredo se vai candidatar ao cargo de secretário-geral do Partido Socialista parece ser uma boa notícia para a Esquerda. «Parece ser»? Sim, insistimos, parece ser, pois temos assistido a casos em que a prática política de pessoas, com posições teoricamente correctas, é uma desilusão. E nem sempre será porque as pessoas se modifiquem, se corrompam – as circunstâncias, sim, modificam-se – o poder implica estruturas em que nem só a vontade de quem está no topo da hierarquia conta. Em todo o caso, existe uma grande diferença entre Eurico Figueiredo e António José Seguro ou mesmo António Costa (tão prudente que acabará por nunca avançar; e, por outro lado, demasiado comprometido com o aparelho partidário).

A Esquerda precisa de um PS que seja de esquerda. Não precisa de um PS que é o comparsa do PSD e do CDS na commedia dell’arte da democracia representativa – em que, quando é oposição, é esquerda virtual de uma direita real, e que assume medidas de direita quando é governo. Dir-se-á – mas o PS alguma vez foi de esquerda? Talvez entre 1973 e 1974 – entre a sua constituição e o 1º de Maio de 1974 – tenha dado a ilusão de que era um movimento de esquerda. Logo Mário Soares se encarregou de meter o socialismo na gaveta, «ameaçado pelo perigo comunista» configurado, à época, não só pelo PCP, mas por uma esquerda revolucionária que insistia nas assembleias populares – no chamado Poder Popular.

Em A República, Platão usa argumentos muito semelhantes aos que ainda hoje se utilizam para recusar a democracia participativa – Democracia em grego clássico significa “governo do povo”, é a versão corrente. Mas demos, tem outras acepções além de “povo”, tais como “populaça”, “turba”… Para Platão, democracia era o governo da turba e tal como Platão, Mário Soares (e, com ele, o PS) , temia um governo da populaça. E as raízes platónicas da prática socialista do poder, vão mais longe. Como já aqui recordámos, no seu discurso na Assembleia da República, por ocasião do 10º aniversário do 25 de Abril, o deputado socialista Tito de Morais, dizia que tal como a Medicina deve ser exercida por médicos, a política deve ficar ao cuidado dos políticos. Nem mais nem menos e ipsis verbis a analogia das profissões – se estamos doentes, não reunimos uma assembleia popular para decidir que tratamento devemos seguir – vamos ao médico. Talvez, cerca de 400 anos antes de Cristo, esta analogia fosse aceitável. Em 1984 e dita por um fundador do Partido Socialista, é um atentado contra o espírito  democrático.

Um PS cujos dirigentes que não façam da política uma profissão, uma carreira, mas uma missão de cidadania, seria um pilar da Esquerda e não, como tem sido, um clown (e um clone) da direita. Com Eurico Figueiredo, Professor de Medicina, o PS iria ao médico – e a doente  democracia portuguesa teria  um diagnóstico e uma terapêutica  que o cidadão Eurico Figueiredo prescrevia na carta que em Abril do ano passado enviou a António José Seguro. A doença da democracia, não se limita à doença do socialismo (que Alain Touraine afirma ter morrido). Mas um PS  seria mais coerente com os seus princípios fundacionais, seria útil à Esquerda. Seria uma parte da solução e não uma parte do problema. É a nossa convicção.

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