CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 17 – por José Brandão

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Batalha do Salado

Os dois reis cristãos adoptaram no ataque disposições correspondentes às do inimigo: el-rei de Castela devia atacar as tropas mauritanas, enquanto el-rei de Portugal acometeria as de Granada. Como fora levantado o cerco de Tarifa, meteram-se na praça, de noite, não sem terem de bater-se com inimigos, mil cavaleiros e quatro mil infantes cristãos, os quais, com a gente que lá se encontrava, deviam secundar o ataque de ilharga, logo que se travasse a luta. No dia 30, segunda-feira, nos dois campos cristãos, ao romper do dia confessaram-se e comungaram os monarcas, e, como eles, grande número de fidalgos e soldados. Depois todos tomaram os seus postos. EI-rei mandou deitar pregão, que se havia algum soldado tão, fraco de ânimo que temesse o perigo se retirasse para o arraial. Todos ficaram. D. Afonso IV dirigiu então às suas tropas uma breve fala, encarecendo-lhes a importância do feito que iam cometer. Tratava-se de desafrontar o nome cristão da injúria de infiéis, no que era preciso honrar, sem desfalecimento, as tradições herdadas daqueles nobres portugueses que tanto se tinham ilustrado em guerras e conquistas. Cerca das oito horas começaram a mover-se as tropas em direcção ao monte ocupado pelo inimigo; pelas nove horas estava travada a batalha já com grande ardor. Assim durou até ao fim da tarde, com embates sangrentos e prodígios de heroicidade. Vendo a batalha perdida, os Muçulmanos fugiram em debandada. Os dois reis de Marrocos e de Granada fugiram para Algeciras, donde apressadamente se retiraram, o primeiro para a África, o segundo para Granada. Foi grande o número de mortos e cativos infiéis, valiosíssima a presa que caiu em poder dos cristãos (30 de Outubro de 1340). Os louros que os portugueses alcançaram na peleja foram igualados pelo desinteresse de D. Afonso IV quando seu genro lhe apresentou o riquíssimo despojo e o convidou a tomar dele o que quisesse e melhor lhe parecesse, pois de justo direito lhe pertencia. Respondeu el-rei de Portugal que de seus reinos partira a auxiliá-lo por serviço de Deus e honra própria e que não pensava ele nem os seus em voltarem ricos, mas vitoriosos e honrados, como pela graça de Deus tornavam. Apenas tomou para si, como recordação daquele grande feito de armas, um príncipe sarraceno que cativara e algumas espadas e bandeiras que tomara ao inimigo. […]

O infante D. Pedro e sua mulher, D. Constança — Os amores de D. Inês de Castro Aplanadas as dificuldades que à passagem de D. Constança oferecia el-rei de Castela, transferiu-se aquela princesa a Portugal em Agosto de 1340 e logo em Lisboa se celebrou o seu casamento com o infante D. Pedro. Não foi bem auspiciada a união. No séquito de D. Constança vinha uma nobre e formosa donzela, D. Inês Pires de Castro, que em breve encheu o coração de D. Pedro. Tornou-se a afeição reparada. D. Constança, para impedir-lhe maiores progressos exigiu que D. Inês fosse madrinha do infante D. Luís, pensando que o escrúpulo do parentesco espiritual seria barreira suficiente para deter paixões. D. Inês de Castro aceitou o convite com repugnância. Provavelmente ralada de desgosto, D. Constança Manuel, depois de dar à luz alguns filhos, morreu de parto em data que não é determinada, mas que se deve fixar entre 1345 e 1349.

Assassínio de D. Inês de Castro

Assassínio de D. Inês de Castro Falecida D. Constança, recusou-se D. Pedro a casar segunda vez em contrário dos conselhos que lhe davam, e de D. Inês dizia que não era sua esposa nem jamais o seria, continuando apesar disso a tê-la em grande estima. Ponderaram a el-rei alguns dos seus validos quanto mal se poderia seguir de tais coisas. Tinha D. Inês dois irmãos, D. Fernando de Castro e D. Álvaro Pires de Castro, que eram em Castela grandes senhores e em Portugal começavam a ter pela irmã decidido valimento. Acaso viriam eles ou outros, em semelhantes circunstâncias, a ordenar por traição a morte de D. Fernando, filho de D. Pedro e de D. Constança, para em vez dele porem no trono algum dos filhos de D. Inês de Castro. Com este e outros arrazoados conseguiram desvairar o ânimo de el-rei, assinalando-se em tão maus conselhos Pedro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco. Insinuaram-lhe que, por segurança da vida de seu neto D. Fernando, e para sossego e conservação do reino, mandasse matar D. Inês. Estando D. Afonso em Montemor-o-Velho, naquela excitação de ânimo em que o traziam, determinou partir para Coimbra com gente armada, na pérfida intenção de assassinar D. Inês, que lá estava, «nas casas do Mosteiro de Santa Clara». Quando el-rei entrava, facilmente adivinhou D. Inês o fim a que ele vinha, pelo que lhe saiu ao encontro com seus filhos e de joelhos disse: «Senhor, porque me quereis matar sem causa? Vosso filho e príncipe, a quem eu não podia nem posso resistir; havei piedade de mim, que sou mulher; não me mateis sem causa, e se não haveis piedade de mim, havei piedade destes vossos netos, Sangue vosso.» Comovido de tais palavras, voltou-se el-rei, e já se retirava, desfeito seu propósito, quando os conselheiros se queixaram de que não se levasse por diante o intento. «Ai! Senhor, a esse escárnio vimos nós cá: que se perca Portugal por esta mulher!» Ao que D. Afonso respondeu: «Fazei lá o que quiserdes.» Então Pedro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco, em companhia de outros, voltaram atrás e assassinaram a infeliz D. Inês de Castro (Janeiro de 1355). Sobre a memória de D. Afonso IV pesará eternamente a nódoa deste crime!

Rebelião do infante D. Pedro Quando lhe chegou a notícia do assassínio de D. Inês, deixou-se D. Pedro vencer do maior desespero e procurou todos os meios de exercer crua vingança. Juntou a mais gente que pôde, por si, por D. Fernando e D. Álvaro Pires de Castro, irmãos da vítima, e por outras pessoas que lhe eram afeiçoadas. Depois de consideráveis estragos feitos em terras de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes, dirigiu-se com muitos homens armados ao Porto para tomar a cidade. Estava esta confiada à guarda do arcebispo de Braga D. Gonçalo Pereira, que se preparou para a todo o custo a manter na obediência de el-rei. Porém, como o arcebispo fora sempre muito afeiçoado ao infante, e até por vezes o advertira dos perigos que corria D. Inês, fácil foi ao prelado dissuadi-lo de seu intento. El-rei estava então em Guimarães e preparava-se para socorrer o Porto. Intervieram entretanto medianeiros, que aplacaram o pai e o filho. D. Pedro dirigiu-se a Canaveses, onde foi logo encontrá-lo a rainha D. Beatriz. D. Gonçalo Pereira e outras pessoas concertaram um acordo, que se concluiu em 5 de Agosto de 1355, nas cláusulas seguintes: D. Pedro perdoava a todos que de algum modo tivessem culpa na morte de D. Inês de Castro e el-rei igualmente perdoava àqueles que tinham acompanhado o infante no movimento de rebelião. De futuro exercia D. Pedro jurisdição no reino por seus ouvidores, em nome de el-rei e em harmonia com as leis; porém, nos casos de morte e nas condenações de perda de grandes ofícios e de terras dos vassalos, dar-se-ia conhecimento a el-rei antes da execução da sentença, para sobre ela determinar o que houvesse por bem.» *

* Fortunato de Almeida, História de Portugal, Vol. II, pp. 37-46, 48-52.

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