HOMENAGEM A CLARICE LISPECTOR –

Na sequência das homenagens que temos vindo a prestar a grandes vultos do pensamento  lusófono, depois dos portugueses José de Almada Negreiros, Manoel de Oliveira, Agostinho da Silva, Eduardo Lourenço, do cabo-verdiano Eugénio Tavares, segue-se a grande escritora brasileira Clarice Lispector.

E iniciamos a homenagem com uma excelente biografia escrita por Rachel Gutiérrez para o site VIDAS LUSÓFONAS do argonauta Fernando Correia da Silva. À autora e ao editor, agradecemos a autorização expressa para transcrevermos a biografia de Clarice Lispector, com as adaptações que a mudança de meio impõem. Antes de mais, façamos uma breve apresentação de Rachel Gutiérrez – tradutora, escritora, poetisa, conferencista e pianista com formação clássica, viveu em diversos países europeus. Licenciada em Filosofia,  a sua tese de Mestrado e dissertação de Doutoramento tiveram como base a estética da poesia na obra de Lou Andreas Salomé, que posteriormente viria a constituir o tema de uma de suas peças teatrais, e também sobre o pensamento na obra de Clarice Lispector. Na década de 1980 fundou, com algumas amigas, o grupo de reflexão feminista Mulherando, e como representante do Movimento Feminista foi a primeira mulher a participar de uma candidatura maioritária ­ para vice-governador(a) ­ nas eleições cariocas de 1986. Em 1994, criou, com Ester Schwartz, a Associação dos Leitores e Amigos de Clarice Lispector, da qual é presidente. Muito mais há a dizer sobre Rachel Gutiérrez. Di-lo-emos, esperamos, quando anunciarmos a sua adesão ao nosso projecto. Para já, queremos acentuar que dificilmente se encontraria melhor bíógrafa para a nossa homenageada.

CLARICE LISPECTOR – por Rachel Gutiérrez

 QUANDO TUDO ACONTECEU…

1920: Nasce Clarice Lispector, no dia 10 de dezembro de 1920, em Tchechelnik, uma aldeia da Ucrânia, terra de seus pais, Pedro e Marieta Lispector. –Imagem1 1921: Em fevereiro, com apenas dois meses, chega a Maceió, Alagoas, com seus pais e suas duas irmãs, Elisa e Tânia. E o português do Brasil será a língua materna da menina Clarice. – 1924: A família muda-se para Recife, Pernambuco. – 1928: Freqüenta o Grupo Escolar João Barbalho. –1929: Morre a mãe, Marieta Lispector. Clarice ainda não completara 9 anos. – 1931: No final do ano, presta o exame de admissão e ingressa, no ano seguinte, no curso ginasial. – 1934: Pedro e as meninas mudam-se para o Rio de Janeiro; viajam no navio Island Monarch, da Mala Real Inglesa. – 1937: Trabalha como professora. – 1939: Entra na Faculdade de Direito. – 1940: Morre Pedro, o pai. Clarice Lispector começa a trabalhar como redatora para a Agência Nacional. (Período do Estado Novo do Governo de Getúlio Vargas). –1941: Trabalha também no jornal A Noite. – 1942: Recebe sua primeira carteira profissional logo após ter completado 22 anos. – 1943: Forma-se em Direito e casa-se com Maury Gurgel Valente. Este faz o vestibular para o Itamaraty e ingressa na carreira diplomática. Isso leva Clarice a viver fora do Brasil por “ uns dezesseis anos”. – 1944: Publica Perto do Coração Selvagem, seu primeiro romance. O casal muda-se para a Europa em plena Segunda Guerra Mundial. – 1945: Perto do Coração Selvagem conquista para a jovem escritora o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras. O pintor italiano De Chirico pinta-lhe o retrato. – 1946: Iniciado no Brasil e terminado em Nápoles, seu segundo romance, O Lustre, é publicado e lançado no Brasil. Volta com o marido para a Europa, desta vez para Berna. – 1947: Vê a neve pela primeira vez. – 1948: Nasce o primeiro filho – Pedro. Termina A Cidade Sitiada, que é publicado em 1949, quando volta ao Rio. – 1950: Retorna à Europa, desta vez para Torquay, na Inglaterra. –1952: De novo no Rio, colabora no jornal Comício, assinando uma página feminina “Entre Mulheres”. Muda-se com a família para Washington. – 1953: Nasce, nos Estados Unidos, seu segundo filho – Paulo, cujos padrinhos serão Mafalda e o escritor gaúcho Érico Veríssimo, grandes amigos dos Gurgel Valente. – 1954: Primeira edição francesa de Perto do Coração Selvagem, pela Editora Plon, com capa de Henri Matisse. – 1956: Em maio, termina A Maçã no Escuro. – 1959: Enviados de Washington, aparecem contos seus na revista Senhor, desde o número inaugural, que sai em março. Separa-se de Gurgel Valente. Fixa-se, então, no Rio, e assume uma coluna no jornal Correio da Manhã. – 1960: Laços de Família, (seu primeiro livro de contos) é publicado. Mantém outra coluna no Diário da Noite. -1961: O romance A Maçã no Escuro é finalmente publicado. – 1964: Segundo livro de contos, A Legião Estrangeira, e o romance que muitos consideram sua obra-prima: A Paixão segundo G.H. – 1967: Crônicas no Jornal do Brasil, que continuarão até o início dos anos 70. Em seu apartamento do Leme, no Rio, na madrugada de 14 de setembro, adormece fumando e, ao perceber o incêndio que isso provocara, tenta apagar o fogo com as mãos. Fere-se gravemente. Sua mão direita, a da escrita, fica muito prejudicada. – 1968: Nos “Diálogos Possíveis com Clarice Lispector”, entrevista personalidades para a revista Manchete. Em 22 de junho, participa, com inúmeros intelectuais, de uma manifestação contra a ditadura militar : a Passeata dos Cem Mil. Publica os contos infantis de A Mulher que matou os Peixes. – 1969: Publica seu “hino ao amor”: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. – 1971: Felicidade Clandestina (contos). – 1972: O pintor Carlos Scliar faz dois retratos da escritora. – 1973 : Água Viva e A Imitação da Rosa (contos). – 1974: A Vida Íntima de Laura (infantil); Via Crucis do Corpo (contos); Onde Estivestes de Noite? (contos). – 1975: Participa do Congresso Mundial das Bruxas, em Bogotá, na Colômbia. – 1976: Pelo conjunto da obra, recebe prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal. –1977: Publica A Hora da Estrela. Em 9 de dezembro, véspera de seu aniversário, Clarice Lispector morre, de câncer, no Rio.1978: Aparecem três livros póstumos: Um Sopro de Vida com o subtítulo Pulsações, Para não Esquecer, uma coletânea de crônicas, e Quase de Verdade, entrevistas. – 1979: A Bela e a Fera, que reúne contos da juventude com os de pouco antes da morte da escritora. – 1984 : A Descoberta do Mundo, reunião das crônicas publicadas no Jornal do Brasil, de 1967 a 1973.

Clarice

veio de um mistério.

partiu para outro.
                                                         
Ficamos sem saber a
                                                          
essência do mistério.
                                                         
Ou o mistério não era essencial,
                                                      
era Clarice viajando nele. 

Carlos Drummond de Andrade

…esta urgência sempre:
fazer ressoar em nosso século o
eco dessa Voz
vinda das origens.

Hélène Cixous

Continuamos aa publicação desta biografia na Sessão da Noite, à uma da manhã. Por ora, deixamo-vos com um pequeno grande texto de Clarice Lispector: Dá-me tua mão , lido por Deborah Schcolnic

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