CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 17 – por José Brandão

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D. JOÃO I – O de BOA MEMÓRIA

 (reinou de 1385 a 1433)

 

«D. João I, décimo rei de Portugal, foi fundador da segunda dinastia. Bastardo de D. Pedro I e da sua amante galega Teresa Lourenço, nasceu em Lisboa no primeiro ano do reinado de seu pai (1357) e logo por ele reconhecido e especialmente acarinhado como o benjamim da variada prole. D. João, Mestre de Avis, chegou ao trono contrariando o entendimento da época: «filho legítimo não pode ser rei legítimo».

Confiado em 1360, com três anos, aos cuidados do Mestre da Ordem de Cristo, D. Nuno Freire de Andrade, e em 1364, ainda menor de sete anos, armado cavaleiro por seu pai, e com licença do Papa logo investido no Mestrado vago da Ordem de Avis, a sua formação militar, educação eclesiástica e implícita cultura do espírito, fizeram-se no convívio dos freires dessa Ordem Militar beneditina, a mais intelectual das regras monásticas.

Atingida a puberdade em pleno reinado do irmão D. Fernando começou a frequentar a dissoluta corte em quem anos depois, durante a terceira guerra com Castela, se viu ameaçado de morte, à ordem da impúdica rainha Leonor Teles, sua cunhada, cuja conduta infame e nefasta, como
rainha-regente depois de viúva de D. Fernando, fez desencadear a revolução popular de fins de 1383, habilmente preparada e conduzida em Lisboa por João das Regras e seu padrasto Álvaro Pais.

Conde de Andeiro é assassinado pelo mestre de Avis.Imagem1

Para o bastardo real esse acto revolucionário traduzia-se desde logo no seu primeiro triunfo político, por ter assassinado o valido e amante da rainha, conde Andeiro, a que se seguiu revolucionariamente a deposição da rainha, a sua fuga para Alenquer e Santarém, depois do que o Senado da Câmara de Lisboa elegeu o Mestre de Avis, de sangue real, regente e defensor do reino contra as ambições pretensamente legítimas do rei de Castela.

A gravíssima crise dinástica da sucessão da Coroa, que implicava o problema crucial da independência do reino, determinou as duas sucessivas invasões castelhanas para conquista e anexação do país na coroa de Castela. Afortunadamente, ambas as invasões se saldaram pela vitória da causa da independência. A de 1384 quebrou-a a heróica resistência de Lisboa ao malogrado cerco de cinco meses, logo seguido da reunião das cortes de Coimbra em1385, de que o feliz regente saía proclamado rei, D. João I de seu nome, em eleição unânime, defendida vigorosamente pelo jurista João das Regras, e apadrinhada pelo prestígio militar de Nuno Álvares Pereira. A invasão de 1385 saldava-se pela derrota dos exércitos de Castela no campo de batalha de Aljubarrota, consolidando a realeza do antigo Mestre de Avis, regente e defensor do reino.

O fantasma do domínio castelhano de Portugal tinha sido exorcizado. Na pessoa de D. João I estavam depositadas as mais altas e legítimas esperanças do povo, que afinal era também a burguesia, o clero e a nobreza. Era o seu definitivo triunfo político, nunca sonhado em seus tempos de obscuro bastardo real e a que, em consciência, nunca se julgara com quaisquer direitos.

Cognominado de «Boa Memória», mais propriamente o devia ter sido de «Boa fortuna», pela espantosa boa-sorte que, desde o assassínio do Andeiro e a elevação à regência, lhe bafejara todos os seus fulgurantes êxitos políticos e militares, em que quase sempre actuou mais como instrumento e bandeira, do que por iniciativa, ambição ou vontade próprias, como animador ou ambicioso.

Bravo cavaleiro como os melhores, não foi, aliás, de modo nenhum apenas um elemento passivo à mercê das circunstâncias, pois que dirigiu pessoalmente cercos a vilas contrárias à sua eleição, num dos quais correu risco de atentado, e em Aljubarrota se bateu como cavaleiro com tal bravura que, em combate singular com um possante cavaleiro castelhano, o salvou de morte certa o cavaleiro Gonçalves Massa que, interpondo-se com o seu corpo, se deixou matar por ele. Mas foi, sobretudo, o valor excepcional dos grandes homens que sempre o serviram com indefectível lealdade – Nuno Álvares, João das Regras, o arcebispo de Braga, o diplomata Lourenço Fogaça e o escol de grandes cavaleiros que a sua prudente reserva, sua calma e bom senso soube servir-se oportunamente – que fez toda a glória do seu fecundo e longo reinado de quase meio século.

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E, como se um génio benfazejo velasse incansável pelos seus destinos, o próprio casamento que, sem amor nem escolha pessoal, as conveniências da política externa, conduzida por João das Regras e Lourenço Fogaça, lhe impuseram, em 1388, com uma princesa da Casa Real de Inglaterra, revelou-se, por fim, um dos mais felizes acasos da sua vida de homem e de rei. União ditada, uma vez mais, por alianças políticas, desta vez com os ingleses. Mas desde logo que D. João se rendeu às qualidades de tão virtuosa senhora, e não pensando de início demorar-se muito tempo no Porto, por lá ficou gozando descansadamente as recentes núpcias. O rei concedeu à esposa, para as despesas da sua casa, cerca de vinte mil dobras por ano, entre as rendas de alfândega e da portagem. E para os festejos das bodas reais, que duraram vários dias, não houve limites à abertura dos cordões das bolsas.

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