CLARICE LISPECTOR – FALAM OS AMIGOS, OS LEITORES, OS ESTUDIOSOS – por Rachel Gutiérrez

Na primeira reunião pública da ALACL ( Associação dos Leitores e Amigos de Clarice Lispector), que teve lugar na Biblioteca Nacional, em 1995, perguntamos aos participantes por que se interessavam pela obra de Clarice. E a atriz Maria Esmeralda, desde então assídua colaboradora, declarou:

Clarice me fascina e me assusta. Porque ela parece saber mais de mim do que eu mesma.

MARIA ESMERALDA, atriz

Era Clarice bulindo

mais fundo

onde a palavra parece encontrar

sua razão de ser

e retratar o homem.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Clarice não delata, não não conta, não narra e nem desenha – ela esburaca um túnel onde de repente repõe o objeto perseguido em sua essência inesperada.

LÚCIO CARDOSO, escritor, cineasta, pintor e grande amigo.

A obra de Clarice recodifica e reinterpreta em prosa poética contemporânea as crenças cabalísticas judaicas. Para a Cabala, como para Clarice, a existência se explicita e se estrutura graças ao Mistério: É a certeza da existência do Mistério que permite à humanidade exercitar sua infinita liberdade

(ZOHAR);

A criação não é uma compreensão, é um novo mistério (CL: Visão do Esplendor)

ESTER SCHWARTZ, Mestre em Letras, professora, co-Diretora da ALACL.

…(você pega mil ondas que eu não capto, eu me sinto como rádio de galena, só pegando a estação da esquina e você de radar, televisão, ondas curtas), é engraçado, como você me atinge e me enriquece ao mesmo tempo, o que faz um certo mal, me faz sentir menos sólido e seguro.

RUBEM BRAGA, escritor e amigo.

O desenvolvimento de certos temas importantes da ficção de Clarice Lispector insere-se no contexto da filosofia da existência, formado por aquelas doutrinas que, muito embora diferindo nas suas conclusões, partem da mesma intuição kierkegaardiana do caráter pré-reflexivo, individual e dramático da existência humana, tratando de problemas como a angústia, o nada, o fracasso, a linguagem, a comunicação das consciências, alguns dos quais a filosofia tradicional ignorou ou deixou em segundo plano.

BENEDITO NUNES, filósofo, crítico, escritor.

Não te escrevi sobre o teu livro de contos ( Laços de Família) por puro encabulamento de te dizer o que penso dele. Aqui vai: é a mais importante coleção de histórias publicadas neste país na era pós-machadiana.

ÉRICO VERÍSSIMO, escritor e amigo.

Onde estivestes de noite que de manhã regressais com o ultra-mundo nas veias entre flores abissais? Estivemos no mais longe que a letra pode alcançar: lendo o livro de Clarice, mistério e chave no ar.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Há uma literatura brasileira A. C. ( antes de Clarice) e outra D. C. (depois de Clarice). Da narrativa nacional, herdeira dos pais fundadores da ficção século XIX e renovada, no século XX, pelas vanguardas modernistas à “coisa”, o texto clariceano, onde o que é narrado não é, exatamente, o mais importante, foi imenso o trajeto.

MARIA CONSUELO CAMPOS, Doutora em Letras, professora, escritora, co-diretora da ALACL.

Clarice Lispector requer pesquisas que privilegiem livros específicos, recusando o modelo totalizador da crítica historiográfica.

REGINA ZILBERMAN, Doutora em Letras, professora, escritora.

Hoje já não é um excesso dizer que Clarice inclui-se, na cultura da modernidade, na linhagem de criadores tangidos pelo desassossego, aqueles que obedecem mais aos imperativos da pulsão do que às leis que presidem as convenções formais.

CIA HELENA VIANNA, Doutora em Letras, professora, escritora, co-diretora da ALACL.

OBRAS CONSULTADAS

Cixous, Hélène – Entre L’Écriture, des femmes, Paris, 1986 – A Hora de Clarice Lispector, Exodus, Rio, 1999, edição bilíngüe, tradução de Rachel Gutiérrez Gotlib, Nádia Battella – CLARICE , Uma vida que se conta, Editora Ática, São Paulo, 1995 LISPECTOR, CLARICE – OBRAS COMPLETAS, Rocco, 1999. NUNES, BENEDITO – O Dorso do Tigre, Editora Perspectiva, São Paulo, 1969 – O Drama da Linguagem, Ática, São Paulo, 1989 Vianna, Lúcia Helena – O figurativo inominável, conferência proferida na Casa de Rui Barbosa, Rio, para a Associação dos Leitores e Amigos de Clarice Lispector , em 1998. Publicada in CLARICE LISPECTOR, a narração do indizível, Artes e Ofícios, Porto Alegre,  1998 WALDMAN, BERTA – O Estrangeiro em Clarice Lispector, in CLARICE LISPECTOR, a narração do indizível, op. cit. ZILBERMAN, REGINA – A Estrela e seus Críticos, in CLARICE LISPECTOR, idem. SCHWARTZ, ESTER WENGROVER – A Ética Cabalística em Clarice Lispector, conferência proferida na Casa da Leitura, Rio, para a ALACL, em 1997.

Com a publicação deste post termina a colaboração da escritora Rachel Gutiérrez nesta homenagem. De novo, muito lhe agradecemos. Dela,Imagem3 falaremos em breve no nosso blogue – vemos Rachel Gutiérrez, sorrindo aqui ao lado. Agradecemos também ao Fernando Correia da Silva a cedência deste texto das suas “Vidas Lusófonas”.  Mas a homenagem a Clarice Lispector continua.    Logo, à uma da manhã, em atenção aos noctivagos e aos insones, editaremos uma entrevista com Clarice. E não só. E escutem este texto taõ interessante.

Das vantagens de ser bobo – Clarice Lispector,  por Aracy Balabanian 

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

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