Ontem à noite um senhor ligado ao partido socialista, na televisão, exprimiu preocupação por Miguel Relvas ter sido interrompido e apupado quando falava em público. Manifestou-lhe até a sua solidariedade, e declarou considerar antidemocráticas as interrupções e apupos. Outros correligionários seus manifestaram-se no mesmo sentido.
Trata-se, evidentemente, de uma matéria em que não se deve pôr a razão num lado só. Não se pode em princípio considerar como um acto de boa educação ou civilidade interromper uma pessoa que pretende falar, ou discursar de um modo mais ou menos solene. O facto de se tratar de um membro do governo não acrescenta nem diminui, mas… há um mas muito grande, que é no caso concreto tratar-se de alguém que está ligado a um governo que tem infringido as regras democráticas mais elementares. Na verdade, o governo Passos/Portas/Gaspar, de que Miguel Relvas parece ser um pilar inamovível, tem esquecido que optar por políticas e reformas (assim chamadas) que vão contra os interesses mais elementares das pessoas, melhor dito, contra os interesses mais elementares da maioria das pessoas, é essencialmente antidemocrático. Ainda por cima, quando se pretende fazer crer que essas mesmas políticas são do interesse nacional, apesar de já se ter chegado ao ponto de a tal grande maioria ter perdido a fé em tão grandes patranhas.
O governo parece não aceitar que anda a governar contra o interesse nacional, embora o facto seja cada vez mais evidente, mesmo para os menos esclarecidos ou os menos interessados em política (convindo em que há alguma diferença entre as duas categorias). A colossal ineficiência das medidas tomadas à sombra da troika, ou mais além dela, estão á vista de toda a gente, mas Relvas diz (e com um ar tolerante) que só nos poderemos pronunciar em 2015. Muita gente sensata duvida de que Portugal sobreviva até lá. E é óbvio que o ilustre ministro, e os seus correligionários, estão a deixar bem claras as limitações de que enferma a chamada democracia representativa, ainda por cima interpretada porque quem está agarrado ao poder, e com muita força.
Achamos muito bem que qualquer pessoa defenda a boa educação e o civismo, em qualquer circunstância. Mas com a ressalva de que, em relação a quem não cumpre as regras, é preciso ser firme. As manifestações de solidariedade de elementos do partido socialista foram entretanto acompanhadas por declarações de outros elementos no sentido de que será mais fácil procurarem alianças à direita, quando chegarem ao poder. Deve ser isto a que chamam a rotação partidária. Ou então o vira o disco e toca o mesmo. E depois somos malcriados.


É teoricamente uma evidência – interromper uma intervenção num debate é uma atitude antidemocrática. O estudante Alberto Martins da Universidade de Coimbra que em 1969 interrompeu o presidente da República, também procedeu antidemocraticamente. Tal como os manifestantes da passada sexta-feira, interrompendo (em pleno templo da democracia) a intervenção de Passos Coelho com a “Grândola, Vila Morena”, A questão é: interromper um discurso (ou uma legislatura) que, de um ponto de vista formal, decorrem democraticamente,mas que têm por detrás si princípios e práticas anti-democráticos, será mesmo um atentado à democracia? Não será antes um dever de todos os democratas desmascarar gente como o ministro Relvas que, na ocasião, no debate de Vila Nova de Gaia, cantou com os manifestantes a »Grândola» com gargalhadas de quem entoa uma canção de taberna?. O militante do PS, preocupado com as ofensas à democracia de quem interrompe os discursos de quem nos rouba, talvez devesse estar mais preocupado com os atentados contra os princípios da Lei Fundamental, que os «democratas» do governo estão tranquilamente a rasgar.