ANTÓNIO FERREIRA
(1528 – 1569)
CASTRO (Acto IV): fragmento
CORO Eis a morte.
Vem. Vai-te entregar a ela: vai depressa,
terás que chorar menos.
CASTRO Vou, amigas.
Acompanhai-me vós, amigas minhas,
ajudai-me a pedir misericórdia,
chorai o desamparo destes filhos
tão tenros, e inocentes. Filhos tristes,
vedes aqui o pai de vosso pai,
eis aqui o vosso avô, nosso senhor.
Beijai-lhe a mão, pedi-lhe piedade
de vós, desta nãe vossa, cuja vida
vos vem, filhos, roubar.
CORO Quem pode ver-te,
que não chore, e s’abrande?
CASTRO Meu senhor,
esta é a mãe de teus netos. Estes são
filhos daquele filho, que tanto amas.
Esta é aquela coitada mulher fraca
contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
para eu segura, e livre t’esperar,
em ti e em minha inocência confiada.
Escusaras, senhor, todo este estrondo
d’arma, e cavaleiros, que não foge,
nem se teme a inocência da justiça.
(…)
Além da obra lírica, António Ferreira introduziu, entre nós, o teatro clássico, e sobretudo a tragédia. A “Castro” constitui, por isso, uma das mais felizes tentativas quinhentistas para a ressurreição da tragédia grega. Além disso, o Autor esforça-se por criar uma língua moderna, eliminando os arcaísmos. O episódio dos amores de D. Pedro e Inês de Castro já tinha sido objecto de descrição pungente com Fernão Lopes e de objecto poético por parte de Garcia de Resende no “Cancioneiro Geral”.

