POESIA AO AMANHECER – 143 – por Manuel Simões

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ANTÓNIO FERREIRA

(1528 – 1569)

CASTRO (Acto IV): fragmento

CORO                                                                       Eis a morte.

Vem. Vai-te entregar a ela: vai depressa,

terás que chorar menos.

CASTRO                                           Vou, amigas.

Acompanhai-me vós, amigas minhas,

ajudai-me a pedir misericórdia,

chorai o desamparo destes filhos

tão tenros, e inocentes. Filhos tristes,

vedes aqui o pai de vosso pai,

eis aqui o vosso avô, nosso senhor.

Beijai-lhe a mão, pedi-lhe piedade

de vós, desta nãe vossa, cuja vida

vos vem, filhos, roubar.

CORO                                                           Quem pode ver-te,

que não chore, e s’abrande?

CASTRO                                                       Meu senhor,

esta é a mãe de teus netos. Estes são

filhos daquele filho, que tanto amas.

Esta é aquela coitada mulher fraca

contra quem vens armado de crueza.

Aqui me tens. Bastava teu mandado

para eu segura, e livre t’esperar,

em ti e em minha inocência confiada.

Escusaras, senhor, todo este estrondo

d’arma, e cavaleiros, que não foge,

nem se teme a inocência da justiça.

(…)

Além da obra lírica, António Ferreira introduziu, entre nós, o teatro clássico, e sobretudo a tragédia. A “Castro” constitui, por isso, uma das mais felizes tentativas quinhentistas para a ressurreição da tragédia grega. Além disso, o Autor esforça-se por criar uma língua moderna, eliminando os arcaísmos. O episódio dos amores de D. Pedro e Inês de Castro já tinha sido objecto de descrição pungente com Fernão Lopes e de objecto poético por parte de Garcia de Resende no “Cancioneiro Geral”.

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