NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 85 – por Manuela Degerine

Os mal-entendidos

É quase meio-dia quando chego a S. Caetano. Lembro-me perfeitamente de, há dois anos, ter seguido em frente, mas agora há uma novidade. O Pelouro do Turismo da Golegã mandou colocar azulejos para sinalizar o Caminho de Santiago. E aqui o azulejo manda virar à direita… Houve mudança no percurso? Parece-me esquisito e contrariante, pois não ignoro que, daqui a pouco, atravessaria a Quinta da Cardiga; desagrada-me renunciar a este pedaço – magnífico – do Caminho, mas talvez o novo trajeto ofereça outra passagem… Viro portanto à direita. E… Devera ter desconfiado do “Pelouro do Turismo”. Aquela gente nunca caminhou com uma mochila, ignora que nesta etapa se percorrem trinta quilómetros e com um clima pouco clemente na maior parte do ano… Por conseguinte, como se os trinta graus, os trinta quilómetros, os dez quilos da mochila para trinta dias não bastassem, acrescentam aqui uma volta com o risco quase certo de, por o percurso ser incoerente, haver quem se engane, juntando da mesma feita a inquietação à insolação e, na melhor das hipóteses, dois ou três longos quilómetros aos trinta. A prova disto é que, quando cumpre girar à esquerda para retornar à direção anteriormente seguida, foi necessário pintar duas gigantes setas num muro; há de certeza gente que, com toda a lógica, virou – um ou outro, mais cansado, continuará a virar – à direita. Tudo isto para os caminhantes verem meia dúzia de casas nem mais nem menos interessantes do que quaisquer outras ribatejanas, uma volta cujas peripécias os deixarão sem dúvida pouco predispostos para admirar a dita arquitetura.

Esta etapa e a próxima são, de Lisboa a Santiago de Compostela, as únicas onde o problema é flagrante: quem aqui sinalizou o Caminho ignora o que ele é e para que serve. Não percebeu que os peregrinos não andam a passear com uma mochila; dirigem-se a Santiago de Compostela. Fazem turismo à noite, certo, durante algumas horas, mas só depois de largarem a carga, nos lugares onde existe um albergue de peregrinos; jantam nos restaurantes, vão aos cafés, vão à farmácia, vão à padaria, vão à mercearia, deambulam pelas ruas, entram nas igrejas, tiram fotografias… E – não raro – ali regressam mais tarde com a família numa verdadeira viagem turística. No Caminho de Santiago querem um percurso que faça, de maneira inteligente, as melhores opções pedonais. Interessam-se pelas pessoas, pelas cidades, pelas paisagens que vão encontrando, porém – por viajarem a pé com a mochila – em primeiro lugar: não lhes interessa fazer ziguezagues. E não lhes interessa caminhar à beira de estradas, nem atravessar vias rápidas, nem admirar lixeiras, nem contemplar esgotos, nem ser agredidos por cães… Em Portugal estes peregrinos continuam a ser confundidos, consoante a região – esta consegue acumular as duas confusões – com os portugueses que vão a Fátima, adeptos ferrenhos da beira da estrada; ou com os turistas que, entre o museu e a pastelaria, passeiam nas ruas. Mas Santiago e Pavia não se fizeram num dia… É um progresso o Pelouro do Turismo ter descoberto que uma variante do Caminho Lusitano passa pela Golegã e ter até tomado a iniciativa de a sinalizar – o que representa globalmente uma boa ajuda para os caminhantes.

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