ANOS ATRÁS – Em Coimbra, no MUD Juvenil; uma recordação inesquecível (1953) – por Carlos Leça da Veiga

  

Em 1953, nos “Paços” duma das “Repúblicas” coimbrãs, no decurso duma reunião realizada com grande secretismo – doutro modo, à época, não seria possível – o, então, Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUD-Juvenil), uma organização na qual já militava desde há um ano, deliberou ter de concorrer-se, mais uma vez, às eleições desse ano para os Corpos Sociais da Associação Académica de Coimbra e, então, por proposta do João Carlos Raposo Beirão, finalista de Matemáticas, o meu nome foi aceite para figurar entre os candidatos à Direcção. Não será esta nomeação que justifica o documento que a seguir vai ser relembrado mas sim a vontade de não poder e nem querer deixar esquecer que a juventude da geração dos anos cinquenta, mau grado as arremetidas salazaristas, teve muitos dos seus com presença activa na oposição ao regime opressor e esforçou-se, tanto quanto possível e nas proporções mais diferentes, no combate ao desenrolar dos acontecimentos políticos, nomeadamente, a quantos transitavam pela área estudantil.

É bom não deixar esquecer que, por esses tempos, nada havia de favorável – bem pelo contrário – a todas e quaisquer atitudes demonstrativas da mínima recusa face às imposições políticas praticadas, constante e regularmente, pelo regime político. A ditadura salazarista mantinha-se inflexível perante quaisquer manifestações de oposição e, sabe-se, nunca hesitou no recurso a múltiplas e variadas formas de repressão. Na realidade foi uma época difícil, muito difícil que, então, tal como depois, obrigou muitos daqueles estudantes de Coimbra, envolvidos naquela Candidatura académica de 1953, a terem de fazer renúncias, sacrifícios inclusive a sentirem penalizações que, quantas, deixaram marca para todo o sempre.

O clima de repressão que, por infelicidade, tinha, também, muitos apoiantes na própria academia só haveria de ter uma inflexão significativa, no sentido da oposição democrática, depois da Candidatura do General Delgado, data a partir da qual um contingente imenso de estudantes, muito felizmente, num crescendo constante, passou a demonstrar-se opositor do regime salazarista.

Como de modo algum é-me impossível esquecer todos e quaisquer desses companheiros dos anos cinquenta e, sobretudo, não quero que, quem quer que seja, possa tentar fazê-lo entendo dever dar publicidade ao texto de apresentação da Candidatura de 1953 – raríssimos haverão recordá-lo – cuja autoria ficou a dever-se, por inteiro, a uma das cabeças melhor organizadas, sábia de verdade, que tive a oportunidade muito feliz de poder conhecer e com quem, nessa Lusa-Apenas, que não Atenas, muitíssimo convivi, muito aprendi, firmei amizade, recordo com saudade e que, por considerar como de importância máxima, tenho muito gosto de homenagear.

Estou a referir-me ao Dr. João Carlos Raposo Beirão, infelizmente já falecido e, ao que sei, figura de prestígio afirmado na docência universitária moçambicana tal como, também, membro dum dos Governos de Moçambique.

1 Comment

  1. A frescura da memória e da resistência.
    Obrigado, Leça da Veiga, por trazer à História tão importantes histórias (para que o passado não seja escrito apenas pelas oficialidades).

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