Assinalando o aniversário de Cesário Verde, referimos ontem uma admiração romântica, que poetas do socialismo (Antero, Guilherme de Azevedo, Cesário…) revelavam ante o industrialismo. Século e meio depois, na era pós-industrial, com duas guerras globais, com revoluções, crises, depressões económicas de permeio, e o mundo a contas com erros catastróficos cometidos pela concepção capitalista da organização política e económica, quem puxa ainda a corda aos sinos deste modelo esgotado? Pondo os olhos no nosso pequeno rectângulo, como é possível que gente como Cavaco Silva, Sócrates, Coelho, continue a impor-se como figuras de proa de um barco cujo naufrágio é inevitável?
Seria bom estudar a intertextualidade entre os conceitos de homem-massa, de Ortega y Gasset e o de homem unidimensional, de Herbert Marcuse. Ambos se parecem referir ao homem resultante da sociedade industrial – embora sejam modelos separados por duas ou três décadas e algo desfasados. O pressuposto de Engels, segundo o qual é a vida que determina a consciência e não o contrário, é claramente assumido por Marcuse. A sociedade unidimensional, orientada pelo marketing, a sociedade de consumo como mais habitualmente dizemos, impõe um padrão de vida, esse padrão arrasta consigo uma ideologia de vida e essa ideologia molda a consciência do homem. Resulta no homem unidimensional. Noam Chomsky explica muito bem como essa manipulação é levada a cabo.
Sabe-se como os adolescentes, na ânsia de se afirmar como seres diferenciados, adoptam os hábitos da maioria com a agressividade de quem inova. Cabelos compridos, ou curtos, saias idem, piercings, tatuagens – coisas vulgares e massificadas – dão aos jovens a sensação de que estão a participar numa revolução. Como as variáveis não são muitas, a novidade de hoje pode ter sido a velharia de há oitenta anos e vice-versa Não revolucionam nada – enriquecem as multinacionais que lhes impingem a tralha com que se ataviam e chateiam os pais. Os avós não se incomodam – já viram este filme, já deram para este peditório..
Nos adultos, a massificação é semelhante, embora não tão evidente. Porque o adulto vai tendo tempo para cultivar uma capa de personalidade invulgar, sob a qual esconde a sua massificada vulgaridade. As modas que jovens e menos jovens adoptam com a convicção de que estão a definir uma personalidade única, são estudadas por gabinetes de marketing. O mercado é dividido em grupos-alvo, segmentados sócio-demograficamente, em classes, segundo o sexo e a faixa etária, considerando o habitat, se urbano, se rural. Nós a cultivar o mito de que temos uma personalidade irrepetível e os copywriters e dos accounts a arrumarem-nos em meia-dúzia de categorias, a espetarem-nos no peito, como insectos no álbum de um entomólogo, um alfinete com um rótulo – Homem, 43 anos, classe C1, habitat urbano. Tal como os adolescentes que, com suposta rebeldia, procedem como mansos cordeiros, os adultos compram os carros, as roupas, os dentífricos, que o marketing lhes dita, com a ilusão de que têm muita “personalidade”. E também as ideias políticas são postas ao dispor dos «cidadãos – eleitores» já pensadas. Todos protestam, mas no momento de votar, uma larga maioria vota num dos dois partidos do poder. E lá temos Coelhos, Portas e Gaspares à cabeça de executivos que começam a ser contestados mesmo ainda antes de tomar posse. A maioria dos que contestam, votou neles. E o jogo continua.
