REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Nota de leitura  ao texto Efeitos passados e futuros dos estímulos económicos de  Fabius Maximus

Por Júlio Marques Mota

Parte I

Apresentar um texto de Fabius Maximus[1] é para nós um enorme prazer. Creio porém, que o texto agora aqui apresentado é um texto difícil, uma vez que o autor se preocupou em dizer muito em poucas linhas, servindo-se inclusive de algumas metáforas. Contudo, mesmo assim, ainda tive a tentação de o desenvolver como já o fiz com outros do mesmo autor, mas não, acabei por deixá-lo intacto.

Todavia o leitor ao fazer uma leitura rápida, mas séria, perguntará para os seus botões, onde quer o autor chegar? Contudo, creio mesmo que se a fizer de modo lento, chegará à mesma conclusão, aonde é que se quer chegar? Os últimos parágrafos do texto apresentam uma tendência de que o autor quer chegar a uma posição reducionista da economia, para não dizer mesmo a uma posição liquidacionista, ou seja, equivalente ao vale em que se segue agora com economia portuguesa e que pode ser expressa como sendo a de destruir, destruir (…), pois quanto mais destruirmos no Estado e na sociedade, mais fácil será depois a reconstrução, a “refundação do Estado”, segundo Passos Coelho, agora.

Porém, acredito que, pensar assim significaria um insulto para o autor, e um insulto para o tradutor, que sou eu, já agora. Recomendo ao leitor a leitura do texto mencionado e, depois, mas só depois, voltar a confrontar-se com o texto, mas agora a partir da minha leitura do mesmo, feita em anexo.

Vejamos algumas frases seleccionadas (*).

* As muitas poderosas acções do FED, com muito poucos paralelos na história moderna quer pela sua magnitude quer pela duração, tiveram um feliz efeito sobre os lucros dos principais clientes do Fed: os bancos. Missão cumprida!

Nota de leitura: A política monetária isoladamente ou com uma política orçamental só muito levemente expansionista não se traduz em grandes efeitos na economia real, mas sim no balanço dos bancos. A Europa com a enorme massa de liquidez criada, o quantitative easing do Japão e da Grâ-Bretanha, são claros exemplos disso.

 

* nenhum sinal de que essas falhas tenham suscitado qualquer aprendizagem ou qualquer outro quadro mental em muitos dos economistas conservadores.

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Nota de leitura: Lida hoje, esta frase é premonitória. As autoridades (FMI e BCE) enganam-se,  e tudo prevalece na mesma, nenhuma alteração visível no horizonte das políticas económicas a aplicar. Visto da América, a pressão dos Tea Party impondo uma visão ultra – conservadora da economia significa o mesmo. Não se aprende nada, nada se corrige. O modelo de economia e das políticas dele resultantes que são aplicadas, continuam a ser o mesmo e as mesmas que nos à crise levaram!

 

* Talvez o resultado menos esperado seja o de que os programas de estímulo reduziram e em muito a pressão para que fossem feitas reformas substanciais. Tivemos agora uma nova Grande Depressão mas não tivemos nenhum outro New Deal.

Nota de leitura: Roosevelt para atacar a crise na Europa e saiu-nos um Herbert Hoover. A mesma frase vista pelo lado americano critica a posição tímida do primeiro mandato de Obama, por ser demasiado tímida face às enormes necessidades da América. Um exemplo simples da sua timidez é apontado por Robert Reich com as nomeações da Administração  Obama para o Supremo e que vieram a aprovar o financiamento opaco dos partidos, ou seja, em que o financiamento de senadores pode ser visto como financiamento das empresas em  publicidade e, portanto, da esfera privada.. por exemplo, Supreme Court, Money Is Now Speech and Corporations Are Now People

* o dinheiro evaporou-se. Contraindo empréstimos a baixas taxas de juro para reconstruir as infra-estruturas da América teria sido sabedoria. Em vez disso, a maioria do dinheiro desapareceu tal como desapareceram as neves que caíram, se derreteram, nestes últimos cinco invernos — deixando-nos apenas as dívidas e as nossas infra-estruturas decadentes.

Nota de leitura: Visto pela Europa, endividamos cada vez mais e tornamo-nos cada vez mais pobres, já do outro lado do Atlântico, com a política seguida, a divida aumenta, encontrando-se no fim mais endividados, permanecendo tudo inalterado. Precisamos de políticas governamentais activas que nos levem, isso sim, a reconstruir a América e as suas obsoletas infra-estruturas.

Visto ainda pela Europa, tivemos o Plano Marshall da reconstrução da Europa e tivemos o programa do Chanceler alemão, Brunning,  um programa da destruição desta Europa  que levou Hitler ao poder, programa em nada diferente do que a Comissão Europeia impõe agora.

* Como poderia tanto dinheiro ser emprestado — como poderiam tais baixas taxas serem mantidas — como poderiam os mercados de crédito do país serem de tal forma manipulados (por exemplo, agora o governo serve de garante sobre 80% das novas hipotecas) — sem efeitos nocivos a longo prazo?

Nota de leitura: No velho continente, encontramo-nos cada vez piores, o BCE de Mario Draghi prossegue com a sua política de mistificação, de golpes de Estado palacianos, e conseguimos depois ir aos mercados para aumentar a dívida e assim alimentando os lucros dos grandes interesses financeiros. E a Europa real essa fica cad vez mais pobre!

Pelo lado americano, coloca-se a questão: De que serve apoiar transitoriamente as hipotecas se continuamos a ter uma economia que mais parece uma fábrica de pobres, o mesmo é dizer de futuras hipotecas por pagar, aumentando a liquidez sem controlar os mercados financeiros, disponíveis já para uma terceira Grande Depressão, ou pelo menos, a querer instalar uma nova recessão na Depressão. Assim, não, e esta é a conclusão a tirar.

A citação de Keynes é aqui extraordinariamente bem aplicada: “O longo prazo é um guia enganoso para os nossos problemas actuais. A longo prazo estamos todos mortos. Os economistas terão como profissão um actividade tão fácil como inútil se eles apenas sabem dar-nos a garantia de que, face a períodos muito tempestuosos e difíceis, quando a tempestade passar o oceano fica novamente calmo”.

Com efeito e como faço dieta para emagrecer ou, pelo menos, para não engordar mais,  deveria comer mais carnes brancas, do que vermelhas e falemos então de aves. A respeito de aves, nos Estados Unidos temos os defensores das políticas restritivas, os falcões, representados pelos os republicanos extremos, como os do Tea Party, por outro e rotulados como os defensores das políticas de uma austeridade relativa no curto prazo e estratégias expansionistas para o longo prazo, temos os gansos e que podem ser vistos como sendo representados pela  equipa de Obama, e, por fim, como um terceiro grupo, de aves igualmente,  com uma linha politicamente mais agressiva na resposta à crise tendo por fim os economistas-corujas como Auerback, Wray e outros, que defendem igualmente as políticas de expansão mas analogamente aplicadas de forma intensa e viradas quer para o curto prazo quer para o longo prazo. O autor, do nosso ponto de vista situa-se aqui, pois quer criticar a linha de Obama com a citação de Keynes e parece-nos poder situados nos economistas-corujas de que se falou agora. Curiosamente Auerback acima referido é hoje considerado um dos grandes especialistas da crise de 1929-1933. (Iremos, logo que possível publicar alguns dos seus artigos).

(continua)

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[1] Agradeço ao meu antigo aluno FN a revisão cuidada desta leitura sobre o texto de Fábius Maximus aqui apresentada.

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