MEMÓRIAS – Por José Fernando Magalhães (2)

 

 

 

O LUGAR DA SAUDADE

 

Há dias passeava no passeio marítimo de Nevogilde, ali onde só há rochas e nada de areia, com o Castelo do Queijo à minha frente, quando as recordações começaram a insistir. Primeiro tímidas, depois inevitáveis, com mais força e por fim com uma intensidade a que já não estava habituado, apesar dos cortes, falhas e apagões, que tornaram as reminiscências do passado de alguma forma difusas.

Vi-me nos finais dos anos sessenta, a chegar de eléctrico à paragem do Aquário, em animada conversa com a minha maior e melhor amiga. Ela tinha vindo do centro da cidade e eu entrara na paragem do meio da Avenida da Boavista, coisa que fazíamos amiúde. Mais tarde faríamos o mesmo no sentido inverso. Descer a avenida, entre árvores, com campos de um lado e de outro, acompanhados do som ronceiro do 17, do tim-tim da campainha, das conversas dos passageiros e de uma ou outra palavra do condutor ao cobrar o bilhete à nossa entrada, ou do guarda-freio à nossa saída, era o habitual de que já quase não nos dávamos conta. E isso bastava!

Saídos no Aquário, descíamos em direcção aos penedos e lá escolhíamos um, onde nos pudéssemos sentar e olhar o mar, ora revolto, ora calmo, mas sempre frio, ouvir o bater das ondas, aceitar a brisa cálida, apreciar a entrada dos vapores em Leixões e imaginar que vidas ali viveriam, enquanto seguíamos o voo das gaivotas, ouvindo o Kiáá kiáá do seu grasnar.

A contemplação da ida e vinda das ondas confundia-se com a lenta aproximação do pôr do sol, num tempo suspenso em que o pensamento deixava de precisar de palavras. E, nesse recolhimento quase meditativo, deixávamo-nos envolver por uma poesia discreta que fazia parte do nosso estar.

Se nos tivéssemos dado conta de que as rochas onde nos apoiávamos, escuras, densas e duras, eram das mais antigas do nosso planeta, poderíamos facilmente imaginar a enorme quantidade de pessoas que já por ali tinham passado, já por ali tinham rido e chorado, já por ali tinham sonhado com amores e felicidades sem fim. Mas, talvez não precisássemos dessa sabedoria. Talvez bastasse estar ali sentado e deixar que a sua antiguidade nos atravessasse.

Não me lembro das conversas que por certo versavam as minhas inquietações difusas, próprias de uma adolescência em final de tempo, ou as da minha amiga, mais madura, mais crescida, já mulher, apesar de uma idade cronológica menor que a minha. Por vezes falávamos dos filmes que se poderiam ver no cinema, em especial os mais profundos e pouco ou nada comerciais. Eu nada sabia sobre realizadores e o que quereriam transmitir, e ouvia com atenção as explicações, quase aulas, sobre esses assuntos.

Os silêncios eram compridos, feitos de cumplicidades, sem quaisquer desconfortos, baseados em profunda amizade e compreensão mútua.

Se o encontro começava por ser uma alegria, a despedida era um pequeno luto, só atenuado pela promessa de um outro encontro pouco tempo depois.

O tempo, os anos, a vida, as escolhas de cada um, acabaram por provocar um fim a estes encontros, que não um fim a uma amizade sem limites que, apesar da ausência, sempre nos unirá.

E a saudade regressa, não como memória, mas como lugar.

 

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