EDITORIAL: A SOMBRA DA DEMOCRACIA

Diário de Bordo - II

 

Berlusconi é um caso interessante. Interessante no sentido de que merece a pena analisar a sua carreira política, para se conseguir perceber como é que  se consegue manter tanto tempo à tona de água e granjear tanta popularidade, apesar das suas atitudes e comportamentos e das políticas erradas que tem seguido.

Para além do seu estilo de vida pessoal, e dos escândalos em que tem estado envolvido, sem dúvida que no tempo em que esteve no poder a Itália não foi para melhor, pelo contrário. Quem tiver dúvidas sobre isso, analise o que tem sido a vida dos italianos nas últimas dezenas  de anos. E leia a seguir, aqui em A Viagem dos Argonautas, o texto Itália, Democracia Precária, de Olivier Favier, em tradução do argonauta Júlio Marques Mota.

Obviamente que Berlusconi chegou aonde chegou graças aos meios de que dispõe, nomeadamente o seu império de comunicação social. Isso permitiu-lhe promover-se junto do eleitorado, afastar a concorrência, e enfrentar as acusações de corrupção. Isso põe-nos perante um problema fundamental, que é o da ameaça que a concentração da comunicação social representa para a democracia. Isso já se verificava há muito noutras partes do mundo, mas agora também se verifica cada vez mais na Europa, e não só em Itália. Recorde-se apenas o caso Murdoch, cujas implicações ainda não foram devidamente analisadas.

Berlusconi também granjeou popularidade com a sua condenação da austeridade, ele que bastante contribuiu para que o poder financeiro tivesse as mãos livres para impor as políticas a que estamos sujeitos actualmente. E chamou em seu apoio o sentimento nacionalista, ao escolher a Alemanha como inimigo. Se é verdade que a política alemã é muito má, e Angela Merkel na realidade uma versão de Berlusconi com um ar mais sóbrio, e de saias (coisa que o capo nunca aceitaria com certeza a chefiar um governo que apoiasse), os métodos dos dois não são assim tão diferentes. O ódio ao estrangeiro é um dos ingredientes básicos do populismo, permitindo que à sua sombra se tomem medidas que, sem a sua cobertura, se veriam mais claramente que se destinam a objectivos diferentes dos que lhes servem de pretexto. E se lhe atribuam culpas que a outros pertencem. Com este ludíbrio, frequente na história italiana como na alemã e nas de outros países (como Portugal, por exemplo) têm-se conseguido levar muita gente.

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